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<description>Site do poeta Fabricio Carpinejar</description>
<link>http://www.carpinejar.blogger.com.br</link>
<title>.:.   Fabricio Carpinejar   .:.</title>

<item>
<title><b>Com providencial ajuda de <a href="http://charles.pilger.com.br">Charles Pilger</a>, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog está em um novo endereço. <a href="http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/">Atualizem</a>.</b><br /></title>
<description><![CDATA[<b>Com providencial ajuda de <a href="http://charles.pilger.com.br">Charles Pilger</a>, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog está em um novo endereço. <a href="http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/">Atualizem</a>.</b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>Com providencial ajuda de <a href="http://charles.pilger.com.br">Charles Pilger</a>, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog está em um novo endereço. <a href="http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/">Atualizem</a>.</b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39325002</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html</link>
<pubDate>1/10/2007 10:39:42 AM</pubDate>
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<title><b>A MEGERA</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://image.hotdog.hu/_data/members3/227/128227/images/Salvador%20Dali%20-%20Galatea%20Of%20The%20Spheres.jpg"><br /><br />Há um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. Só ela me dá vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. <br /><br />Corrigindo, a megera não é uma mulher, é a falta de mulher. Tampouco é um homem, é a ausência de sexualidade. <br /><br />A megera não é mal-amada, ela não ama. <br /><br />A megera dirá que você abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. <br /><br />Ela não sairá do passado porque não tem futuro. <br /><br />Fará com que seu filho o odeie, não suporta odiá-lo sozinha. É incompetente até para odiar.  <br /><br />Produzirá na criança uma bomba-relógio contra o pai, a explodir na adolescência. <br /><br />A megera educa seus filhos para não ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. <br /><br />Tentará atingi-lo sempre usando as crianças contra você.  <br /><br />Sua malícia é revestida de ingenuidade infantil. <br /><br />Depois de meses sem notícias, telefonará para ofendê-lo de pai ausente, quando é ela que não deixa a criança conviver sem culpa. <br /><br />A megera é a Idade Média. <br /><br />A megera costuma falar mal de você de propósito na frente do filho. <br /><br />Incitará com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armará um barraco alegando que seu filho foi espancado. <br /><br />Ela pode bater no filho de cinto, mas não permite que ninguém rivalize com sua raiva.<br /><br />É fácil reconhecer uma megera: ela não mente, ela exagera. É incompetente até para mentir. <br /><br />Ela não se depila, ela se corta.<br /><br />Sofre por não fazer sofrer. <br /><br />Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. É a vítima de sua própria ambição. Depois não consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser mãe em tempo integral. <br /><br />A megera não é mãe em tempo integral, é ex-esposa em tempo integral. <br /><br />O triste é que os filhos não podem se separar da megera, como o pai. <br /><br />A megera terá sua família para fingir que ela não é uma megera. <br /><br />A megera é incapaz de falar "tudo bem?", logo pergunta "O que foi?" <br /><br />A megera entrará na Justiça para avisar que você é rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma vírgula para a megera, ela não é confiável nem num enterro. <br /><br />A megera está se lixando para felicidade dos filhos, para a compreensão entre os irmãos de outros casamentos. <br /><br />A megera não conseguiu ser feliz, é seu propósito não deixar ninguém mais ser.<br /><br />Pelo bem dos filhos, a megera esquecerá os escrúpulos. <br /><br />Ela quer aparecer na foto quando não foi convidada. <br /><br />A megera é a bomba-relógio que deveria ter explodido na adolescência. <br /><br />A megera colocará seu filho no psicólogo, mas esquecerá de ir ao psicólogo. <br /><br />A megera estará sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. <br /><br />Ela transforma a separação numa briga de condomínio. <br /><br />A megera pedirá para que fique com os filhos quando está interessada em viajar. <br /><br />Será educada somente quando não tiver opção. <br /><br />Ela encontrará um jeito de não permitir que seu filho viaje contigo. <br /> <br />A megera é o fracasso do amor.  </title>
<description><![CDATA[<b>A MEGERA</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://image.hotdog.hu/_data/members3/227/128227/images/Salvador%20Dali%20-%20Galatea%20Of%20The%20Spheres.jpg"><br /><br />Há um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. Só ela me dá vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. <br /><br />Corrigindo, a megera não é uma mulher, é a falta de mulher. Tampouco é um homem, é a ausência de sexualidade. <br /><br />A megera não é mal-amada, ela não ama. <br /><br />A megera dirá que você abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. <br /><br />Ela não sairá do passado porque não tem futuro. <br /><br />Fará com que seu filho o odeie, não suporta odiá-lo sozinha. É incompetente até para odiar.  <br /><br />Produzirá na criança uma bomba-relógio contra o pai, a explodir na adolescência. <br /><br />A megera educa seus filhos para não ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. <br /><br />Tentará atingi-lo sempre usando as crianças contra você.  <br /><br />Sua malícia é revestida de ingenuidade infantil. <br /><br />Depois de meses sem notícias, telefonará para ofendê-lo de pai ausente, quando é ela que não deixa a criança conviver sem culpa. <br /><br />A megera é a Idade Média. <br /><br />A megera costuma falar mal de você de propósito na frente do filho. <br /><br />Incitará com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armará um barraco alegando que seu filho foi espancado. <br /><br />Ela pode bater no filho de cinto, mas não permite que ninguém rivalize com sua raiva.<br /><br />É fácil reconhecer uma megera: ela não mente, ela exagera. É incompetente até para mentir. <br /><br />Ela não se depila, ela se corta.<br /><br />Sofre por não fazer sofrer. <br /><br />Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. É a vítima de sua própria ambição. Depois não consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser mãe em tempo integral. <br /><br />A megera não é mãe em tempo integral, é ex-esposa em tempo integral. <br /><br />O triste é que os filhos não podem se separar da megera, como o pai. <br /><br />A megera terá sua família para fingir que ela não é uma megera. <br /><br />A megera é incapaz de falar "tudo bem?", logo pergunta "O que foi?" <br /><br />A megera entrará na Justiça para avisar que você é rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma vírgula para a megera, ela não é confiável nem num enterro. <br /><br />A megera está se lixando para felicidade dos filhos, para a compreensão entre os irmãos de outros casamentos. <br /><br />A megera não conseguiu ser feliz, é seu propósito não deixar ninguém mais ser.<br /><br />Pelo bem dos filhos, a megera esquecerá os escrúpulos. <br /><br />Ela quer aparecer na foto quando não foi convidada. <br /><br />A megera é a bomba-relógio que deveria ter explodido na adolescência. <br /><br />A megera colocará seu filho no psicólogo, mas esquecerá de ir ao psicólogo. <br /><br />A megera estará sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. <br /><br />Ela transforma a separação numa briga de condomínio. <br /><br />A megera pedirá para que fique com os filhos quando está interessada em viajar. <br /><br />Será educada somente quando não tiver opção. <br /><br />Ela encontrará um jeito de não permitir que seu filho viaje contigo. <br /> <br />A megera é o fracasso do amor.  ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>A MEGERA</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://image.hotdog.hu/_data/members3/227/128227/images/Salvador%20Dali%20-%20Galatea%20Of%20The%20Spheres.jpg"><br /><br />Há um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. Só ela me dá vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. <br /><br />Corrigindo, a megera não é uma mulher, é a falta de mulher. Tampouco é um homem, é a ausência de sexualidade. <br /><br />A megera não é mal-amada, ela não ama. <br /><br />A megera dirá que você abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. <br /><br />Ela não sairá do passado porque não tem futuro. <br /><br />Fará com que seu filho o odeie, não suporta odiá-lo sozinha. É incompetente até para odiar.  <br /><br />Produzirá na criança uma bomba-relógio contra o pai, a explodir na adolescência. <br /><br />A megera educa seus filhos para não ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. <br /><br />Tentará atingi-lo sempre usando as crianças contra você.  <br /><br />Sua malícia é revestida de ingenuidade infantil. <br /><br />Depois de meses sem notícias, telefonará para ofendê-lo de pai ausente, quando é ela que não deixa a criança conviver sem culpa. <br /><br />A megera é a Idade Média. <br /><br />A megera costuma falar mal de você de propósito na frente do filho. <br /><br />Incitará com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armará um barraco alegando que seu filho foi espancado. <br /><br />Ela pode bater no filho de cinto, mas não permite que ninguém rivalize com sua raiva.<br /><br />É fácil reconhecer uma megera: ela não mente, ela exagera. É incompetente até para mentir. <br /><br />Ela não se depila, ela se corta.<br /><br />Sofre por não fazer sofrer. <br /><br />Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. É a vítima de sua própria ambição. Depois não consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser mãe em tempo integral. <br /><br />A megera não é mãe em tempo integral, é ex-esposa em tempo integral. <br /><br />O triste é que os filhos não podem se separar da megera, como o pai. <br /><br />A megera terá sua família para fingir que ela não é uma megera. <br /><br />A megera é incapaz de falar "tudo bem?", logo pergunta "O que foi?" <br /><br />A megera entrará na Justiça para avisar que você é rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma vírgula para a megera, ela não é confiável nem num enterro. <br /><br />A megera está se lixando para felicidade dos filhos, para a compreensão entre os irmãos de outros casamentos. <br /><br />A megera não conseguiu ser feliz, é seu propósito não deixar ninguém mais ser.<br /><br />Pelo bem dos filhos, a megera esquecerá os escrúpulos. <br /><br />Ela quer aparecer na foto quando não foi convidada. <br /><br />A megera é a bomba-relógio que deveria ter explodido na adolescência. <br /><br />A megera colocará seu filho no psicólogo, mas esquecerá de ir ao psicólogo. <br /><br />A megera estará sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. <br /><br />Ela transforma a separação numa briga de condomínio. <br /><br />A megera pedirá para que fique com os filhos quando está interessada em viajar. <br /><br />Será educada somente quando não tiver opção. <br /><br />Ela encontrará um jeito de não permitir que seu filho viaje contigo. <br /> <br />A megera é o fracasso do amor.  ]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html</link>
<pubDate>1/8/2007 02:20:54 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FILÓSOFA VIVIANE MOSÉ LAVA AS PALAVRAS</b><br />Escritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://images.americanas.com.br/produtos/item/352/1/352142g.gif"align=left>Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a pulsão emotiva com o excesso biográfico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir não faz poesia. Quem sente é poesia, não poeta. O poeta é o que não sente e se esforça para sentir. A emoção não apanha a realidade, apanha da realidade.<br /><br />A poesia não é a própria vida, porém a vida em choque com a vida dos outros. Sua ausência devolvida na ausência próxima. O alheamento é intimidade; a observação, residência. <br /><br />Sabe disso muito bem a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, natural do Espírito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular após apresentar o quadro Ser ou não Ser, do Fantástico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com domínio para o outro. Realiza um translado lírico de vivência. Um empréstimo de casa, corpo e lugar. Sua ambição é estar fora de si. <br /><br />Nos últimos dois anos, publicou: a bela antologia <b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b> (Arte Clara, 2004, 91 págs.) e o lançamento <b>Desato</b>, a registrar suas performances poéticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. <br /><br />O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:<br /><br /><i>"Desejei com toda força ser a moça do supermercado.<br />Aquela que fala do namorado com tanta ternura.<br />Mesmo das brigas ando tendo inveja.<br />Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crianças,<br />Sempre querendo, querendo, querendo."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 3)<br /><br /><i>"Como eu queria escrever a história de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 44)<br /><br />Viviane é uma surpresa, uma voz toda imbuída de curiosidade. Percebe que a força do poema está na suposição. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religião e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urgência pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imaginação está à vontade para completar o que falta conhecer. Não depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invisível. <br /><br />Os dois livros apresentam uma obra em formação, ainda transpirando as influências. Adélia Prado está no tom eminentemente confessional, na percepção aguda do olfato e da atmosfera doméstica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual mínimo do interior, marcas do repertório da autora mineira (lendo Desato I, impossível não lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presença nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa didática da infância. Outra correlação contemporânea é Arnaldo Antunes e a dicção infantil e perguntadeira de Coisas.<br /><br />Em Desato, Viviane Mosé expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que não precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o propósito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observação. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da poluição do uso corrente, numa proposta semelhante à pré-história das palavras de Barros. Volta à nomeação fundadora do mundo. Explica o que é um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplificação e, em outras vezes, arrebata pelo espírito frágil e sensível das comparações: "Minha mãe gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar."<br /><br />Seu discurso lírico é arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: "Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas dão certo nós damos certo nós acertamos./ de neném a festas nós acertamos." A repetição e as frases clonadas geram linhas de pouco valor literário, tal "Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em pó na água". <br /><br />Ilumina quando investe na contemplação de seus costumes: "Só sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo." Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: "Fazíamos sexo quase o tempo todo. Quando não/ Fazíamos pão integral e iogurte ou cuidávamos das abelhas." <br /><br />A escritora utiliza o método filosófico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. "Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo." A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetração investigativa e poética, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes até então despercebidos. O acúmulo não permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. Tão claro, que resulta distorcido. O que importa é a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como "minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés". <br /><br />Viviane Mosé é uma grande poeta. Não precisa mais explicar sua poesia. <br /><br /><b>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</b><br /><br />SERVIÇO<br /><b>Desato Viviane Mosé, Record, 89 págs., R$ 24,90</b><br /> <br />(Publicado em <a href="http://www.estado.com.br">O ESTADO DE S.PAULO</a>, CADERNO <b>CULTURA</b>, pág. 5, Domingo, <b>7/01/2007</b>)<br /></title>
<description><![CDATA[<b>FILÓSOFA VIVIANE MOSÉ LAVA AS PALAVRAS</b><br />Escritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://images.americanas.com.br/produtos/item/352/1/352142g.gif"align=left>Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a pulsão emotiva com o excesso biográfico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir não faz poesia. Quem sente é poesia, não poeta. O poeta é o que não sente e se esforça para sentir. A emoção não apanha a realidade, apanha da realidade.<br /><br />A poesia não é a própria vida, porém a vida em choque com a vida dos outros. Sua ausência devolvida na ausência próxima. O alheamento é intimidade; a observação, residência. <br /><br />Sabe disso muito bem a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, natural do Espírito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular após apresentar o quadro Ser ou não Ser, do Fantástico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com domínio para o outro. Realiza um translado lírico de vivência. Um empréstimo de casa, corpo e lugar. Sua ambição é estar fora de si. <br /><br />Nos últimos dois anos, publicou: a bela antologia <b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b> (Arte Clara, 2004, 91 págs.) e o lançamento <b>Desato</b>, a registrar suas performances poéticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. <br /><br />O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:<br /><br /><i>"Desejei com toda força ser a moça do supermercado.<br />Aquela que fala do namorado com tanta ternura.<br />Mesmo das brigas ando tendo inveja.<br />Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crianças,<br />Sempre querendo, querendo, querendo."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 3)<br /><br /><i>"Como eu queria escrever a história de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 44)<br /><br />Viviane é uma surpresa, uma voz toda imbuída de curiosidade. Percebe que a força do poema está na suposição. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religião e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urgência pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imaginação está à vontade para completar o que falta conhecer. Não depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invisível. <br /><br />Os dois livros apresentam uma obra em formação, ainda transpirando as influências. Adélia Prado está no tom eminentemente confessional, na percepção aguda do olfato e da atmosfera doméstica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual mínimo do interior, marcas do repertório da autora mineira (lendo Desato I, impossível não lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presença nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa didática da infância. Outra correlação contemporânea é Arnaldo Antunes e a dicção infantil e perguntadeira de Coisas.<br /><br />Em Desato, Viviane Mosé expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que não precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o propósito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observação. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da poluição do uso corrente, numa proposta semelhante à pré-história das palavras de Barros. Volta à nomeação fundadora do mundo. Explica o que é um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplificação e, em outras vezes, arrebata pelo espírito frágil e sensível das comparações: "Minha mãe gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar."<br /><br />Seu discurso lírico é arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: "Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas dão certo nós damos certo nós acertamos./ de neném a festas nós acertamos." A repetição e as frases clonadas geram linhas de pouco valor literário, tal "Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em pó na água". <br /><br />Ilumina quando investe na contemplação de seus costumes: "Só sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo." Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: "Fazíamos sexo quase o tempo todo. Quando não/ Fazíamos pão integral e iogurte ou cuidávamos das abelhas." <br /><br />A escritora utiliza o método filosófico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. "Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo." A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetração investigativa e poética, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes até então despercebidos. O acúmulo não permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. Tão claro, que resulta distorcido. O que importa é a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como "minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés". <br /><br />Viviane Mosé é uma grande poeta. Não precisa mais explicar sua poesia. <br /><br /><b>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</b><br /><br />SERVIÇO<br /><b>Desato Viviane Mosé, Record, 89 págs., R$ 24,90</b><br /> <br />(Publicado em <a href="http://www.estado.com.br">O ESTADO DE S.PAULO</a>, CADERNO <b>CULTURA</b>, pág. 5, Domingo, <b>7/01/2007</b>)<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FILÓSOFA VIVIANE MOSÉ LAVA AS PALAVRAS</b><br />Escritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://images.americanas.com.br/produtos/item/352/1/352142g.gif"align=left>Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a pulsão emotiva com o excesso biográfico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir não faz poesia. Quem sente é poesia, não poeta. O poeta é o que não sente e se esforça para sentir. A emoção não apanha a realidade, apanha da realidade.<br /><br />A poesia não é a própria vida, porém a vida em choque com a vida dos outros. Sua ausência devolvida na ausência próxima. O alheamento é intimidade; a observação, residência. <br /><br />Sabe disso muito bem a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, natural do Espírito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular após apresentar o quadro Ser ou não Ser, do Fantástico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com domínio para o outro. Realiza um translado lírico de vivência. Um empréstimo de casa, corpo e lugar. Sua ambição é estar fora de si. <br /><br />Nos últimos dois anos, publicou: a bela antologia <b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b> (Arte Clara, 2004, 91 págs.) e o lançamento <b>Desato</b>, a registrar suas performances poéticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. <br /><br />O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:<br /><br /><i>"Desejei com toda força ser a moça do supermercado.<br />Aquela que fala do namorado com tanta ternura.<br />Mesmo das brigas ando tendo inveja.<br />Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crianças,<br />Sempre querendo, querendo, querendo."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 3)<br /><br /><i>"Como eu queria escrever a história de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 44)<br /><br />Viviane é uma surpresa, uma voz toda imbuída de curiosidade. Percebe que a força do poema está na suposição. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religião e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urgência pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imaginação está à vontade para completar o que falta conhecer. Não depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invisível. <br /><br />Os dois livros apresentam uma obra em formação, ainda transpirando as influências. Adélia Prado está no tom eminentemente confessional, na percepção aguda do olfato e da atmosfera doméstica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual mínimo do interior, marcas do repertório da autora mineira (lendo Desato I, impossível não lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presença nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa didática da infância. Outra correlação contemporânea é Arnaldo Antunes e a dicção infantil e perguntadeira de Coisas.<br /><br />Em Desato, Viviane Mosé expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que não precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o propósito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observação. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da poluição do uso corrente, numa proposta semelhante à pré-história das palavras de Barros. Volta à nomeação fundadora do mundo. Explica o que é um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplificação e, em outras vezes, arrebata pelo espírito frágil e sensível das comparações: "Minha mãe gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar."<br /><br />Seu discurso lírico é arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: "Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas dão certo nós damos certo nós acertamos./ de neném a festas nós acertamos." A repetição e as frases clonadas geram linhas de pouco valor literário, tal "Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em pó na água". <br /><br />Ilumina quando investe na contemplação de seus costumes: "Só sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo." Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: "Fazíamos sexo quase o tempo todo. Quando não/ Fazíamos pão integral e iogurte ou cuidávamos das abelhas." <br /><br />A escritora utiliza o método filosófico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. "Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo." A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetração investigativa e poética, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes até então despercebidos. O acúmulo não permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. Tão claro, que resulta distorcido. O que importa é a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como "minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés". <br /><br />Viviane Mosé é uma grande poeta. Não precisa mais explicar sua poesia. <br /><br /><b>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</b><br /><br />SERVIÇO<br /><b>Desato Viviane Mosé, Record, 89 págs., R$ 24,90</b><br /> <br />(Publicado em <a href="http://www.estado.com.br">O ESTADO DE S.PAULO</a>, CADERNO <b>CULTURA</b>, pág. 5, Domingo, <b>7/01/2007</b>)<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>1/7/2007 07:04:29 PM</pubDate>
</item>

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<title><b>A INFÂNCIA POR PERTO</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mobi.ch/mobiliar/live/diemobiliar/engagement/kultur/m-406001/puppentheater_kl.jpg"><br /><br />Há homens que primeiro olham a bunda; outros caçam os seios e as pernas. Não que eu não olhe, eu olho só depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher é a infância. <br /><br />A infância estará nas mãos que seguram as saias, não nas saias. Estará no jeito que coça os olhos, não nos olhos. Estará na forma como penteia os cabelos, não nos cabelos. <br /><br />É um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melancólico que recolhe as pequenas desaparições da bolsa. <br /><br />A beleza de uma mulher está na infância que teve ou não teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para não sofrer. Naquilo que deixou passar e não significa que esqueceu. <br /><br />O tempo de uma mulher não é o que está à frente, mas o que não aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. <br /><br />Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irmãos, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estréia no palco nas apresentações do final do ano. O que me agrada não é o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de moça, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-íris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas inúteis me tranqüilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de não chegar a parte alguma.  <br /><br />Não quero o que ela já conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos é mais difícil do que criar desejos. Não ambiciono que uma mulher diga que começou a viver comigo. Que diga tudo o que não viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. Não se conquista uma mulher, é preciso merecê-la. Receber um livro não é lê-lo. <br /><br />Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. Não é respeitar, é merecer. O que envolve observar com os ouvidos, não impor o ritmo, não deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras não sejam filhos indesejados. Ou que o silêncio não seja filho casual da distração. Que não sejamos óbvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como pássaros que improvisam telhados num prédio abandonado. <br /><br />E não é olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da infância. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>A INFÂNCIA POR PERTO</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mobi.ch/mobiliar/live/diemobiliar/engagement/kultur/m-406001/puppentheater_kl.jpg"><br /><br />Há homens que primeiro olham a bunda; outros caçam os seios e as pernas. Não que eu não olhe, eu olho só depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher é a infância. <br /><br />A infância estará nas mãos que seguram as saias, não nas saias. Estará no jeito que coça os olhos, não nos olhos. Estará na forma como penteia os cabelos, não nos cabelos. <br /><br />É um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melancólico que recolhe as pequenas desaparições da bolsa. <br /><br />A beleza de uma mulher está na infância que teve ou não teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para não sofrer. Naquilo que deixou passar e não significa que esqueceu. <br /><br />O tempo de uma mulher não é o que está à frente, mas o que não aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. <br /><br />Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irmãos, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estréia no palco nas apresentações do final do ano. O que me agrada não é o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de moça, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-íris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas inúteis me tranqüilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de não chegar a parte alguma.  <br /><br />Não quero o que ela já conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos é mais difícil do que criar desejos. Não ambiciono que uma mulher diga que começou a viver comigo. Que diga tudo o que não viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. Não se conquista uma mulher, é preciso merecê-la. Receber um livro não é lê-lo. <br /><br />Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. Não é respeitar, é merecer. O que envolve observar com os ouvidos, não impor o ritmo, não deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras não sejam filhos indesejados. Ou que o silêncio não seja filho casual da distração. Que não sejamos óbvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como pássaros que improvisam telhados num prédio abandonado. <br /><br />E não é olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da infância. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>A INFÂNCIA POR PERTO</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mobi.ch/mobiliar/live/diemobiliar/engagement/kultur/m-406001/puppentheater_kl.jpg"><br /><br />Há homens que primeiro olham a bunda; outros caçam os seios e as pernas. Não que eu não olhe, eu olho só depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher é a infância. <br /><br />A infância estará nas mãos que seguram as saias, não nas saias. Estará no jeito que coça os olhos, não nos olhos. Estará na forma como penteia os cabelos, não nos cabelos. <br /><br />É um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melancólico que recolhe as pequenas desaparições da bolsa. <br /><br />A beleza de uma mulher está na infância que teve ou não teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para não sofrer. Naquilo que deixou passar e não significa que esqueceu. <br /><br />O tempo de uma mulher não é o que está à frente, mas o que não aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. <br /><br />Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irmãos, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estréia no palco nas apresentações do final do ano. O que me agrada não é o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de moça, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-íris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas inúteis me tranqüilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de não chegar a parte alguma.  <br /><br />Não quero o que ela já conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos é mais difícil do que criar desejos. Não ambiciono que uma mulher diga que começou a viver comigo. Que diga tudo o que não viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. Não se conquista uma mulher, é preciso merecê-la. Receber um livro não é lê-lo. <br /><br />Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. Não é respeitar, é merecer. O que envolve observar com os ouvidos, não impor o ritmo, não deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras não sejam filhos indesejados. Ou que o silêncio não seja filho casual da distração. Que não sejamos óbvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como pássaros que improvisam telhados num prédio abandonado. <br /><br />E não é olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da infância. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>1/3/2007 08:48:15 PM</pubDate>
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<title><b>QUE 2007 SEJA O ANO DOS "MALAS"</b><br />Gravura de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><br /><img src="http://content.barewalls.com/closeup/h6130c.jpg"><br /><br />Fiquei nos últimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer ligações. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revelação. Revelação porque já me vi na mesma situação outras vezes quando me apaixonava, e não podia ligar para não soar como um chato ou como um dependente. <br /><br /> Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher também fazia o mesmo. Duas respostas aguardando não formam uma pergunta. Nem um casal. <br /><br />Não compreendo porque o apaixonado não pode dizer que está apaixonado. Se ele declara, é taxado de precipitado e estraga o mistério. Que mistério? Todos os seus conhecidos sabem que ele é apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? É uma convenção que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele já começa mentindo o que sente? O que há de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? <br /><br />Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para não ser um "mala", alguém que não se toca e teima. Não retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posição. Talvez o "mala" seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paixão, não vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai até o fim, descobriu que a cerveja é mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do início - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que não continua não é perfeito.  <br /> <br />O "mala" é a consagração do inconseqüente. Deve sofrer, porém tem realidade para sofrer, não é como o sedutor que sofre do invisível. <br /><br />O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O "mala" não está preocupado com sua reputação, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. <br /><br />As mulheres estão acostumadas com o que é difícil. Se for impossível, melhor. Infelizmente, não acolhem com generosidade o "mala". Observam a figura com ares de repulsa. Até repugnância. O "mala" é a contradição feminina, o que ela deseja no decorrer da relação, não em seu princípio. O "mala" pode ser mala depois, desde que simule resistência nas primeiras semanas. <br /><br />Só que o "mala" não finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. Não está disfarçado de homem sério. É um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. <br /><br />E é justo da insistência intrépida do "mala" que o amor precisa para ser carregado de volta à sinceridade. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>QUE 2007 SEJA O ANO DOS "MALAS"</b><br />Gravura de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><br /><img src="http://content.barewalls.com/closeup/h6130c.jpg"><br /><br />Fiquei nos últimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer ligações. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revelação. Revelação porque já me vi na mesma situação outras vezes quando me apaixonava, e não podia ligar para não soar como um chato ou como um dependente. <br /><br /> Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher também fazia o mesmo. Duas respostas aguardando não formam uma pergunta. Nem um casal. <br /><br />Não compreendo porque o apaixonado não pode dizer que está apaixonado. Se ele declara, é taxado de precipitado e estraga o mistério. Que mistério? Todos os seus conhecidos sabem que ele é apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? É uma convenção que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele já começa mentindo o que sente? O que há de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? <br /><br />Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para não ser um "mala", alguém que não se toca e teima. Não retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posição. Talvez o "mala" seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paixão, não vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai até o fim, descobriu que a cerveja é mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do início - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que não continua não é perfeito.  <br /> <br />O "mala" é a consagração do inconseqüente. Deve sofrer, porém tem realidade para sofrer, não é como o sedutor que sofre do invisível. <br /><br />O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O "mala" não está preocupado com sua reputação, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. <br /><br />As mulheres estão acostumadas com o que é difícil. Se for impossível, melhor. Infelizmente, não acolhem com generosidade o "mala". Observam a figura com ares de repulsa. Até repugnância. O "mala" é a contradição feminina, o que ela deseja no decorrer da relação, não em seu princípio. O "mala" pode ser mala depois, desde que simule resistência nas primeiras semanas. <br /><br />Só que o "mala" não finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. Não está disfarçado de homem sério. É um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. <br /><br />E é justo da insistência intrépida do "mala" que o amor precisa para ser carregado de volta à sinceridade. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>QUE 2007 SEJA O ANO DOS "MALAS"</b><br />Gravura de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><br /><img src="http://content.barewalls.com/closeup/h6130c.jpg"><br /><br />Fiquei nos últimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer ligações. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revelação. Revelação porque já me vi na mesma situação outras vezes quando me apaixonava, e não podia ligar para não soar como um chato ou como um dependente. <br /><br /> Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher também fazia o mesmo. Duas respostas aguardando não formam uma pergunta. Nem um casal. <br /><br />Não compreendo porque o apaixonado não pode dizer que está apaixonado. Se ele declara, é taxado de precipitado e estraga o mistério. Que mistério? Todos os seus conhecidos sabem que ele é apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? É uma convenção que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele já começa mentindo o que sente? O que há de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? <br /><br />Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para não ser um "mala", alguém que não se toca e teima. Não retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posição. Talvez o "mala" seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paixão, não vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai até o fim, descobriu que a cerveja é mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do início - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que não continua não é perfeito.  <br /> <br />O "mala" é a consagração do inconseqüente. Deve sofrer, porém tem realidade para sofrer, não é como o sedutor que sofre do invisível. <br /><br />O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O "mala" não está preocupado com sua reputação, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. <br /><br />As mulheres estão acostumadas com o que é difícil. Se for impossível, melhor. Infelizmente, não acolhem com generosidade o "mala". Observam a figura com ares de repulsa. Até repugnância. O "mala" é a contradição feminina, o que ela deseja no decorrer da relação, não em seu princípio. O "mala" pode ser mala depois, desde que simule resistência nas primeiras semanas. <br /><br />Só que o "mala" não finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. Não está disfarçado de homem sério. É um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. <br /><br />E é justo da insistência intrépida do "mala" que o amor precisa para ser carregado de volta à sinceridade. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/29/2006 08:36:31 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOS</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.divus.cz/images/umelec/jones.jpg"><br /><br />Não é a minha idade que determina que envelheço; é a idade de meus filhos. Costumo absolver minha erosão, dar um desconto às rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, não me ameaçar com comparações do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? <br /><br />Treze anos? Calma, não consegui absorver. Quando ela tinha 12, não parecia tão longe, ainda era possível brincar de gangorra e enganá-la com desculpas. <br /><br />Não mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que não gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, não mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos são os meus olhos dentro dos seus. <br /><br />Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repetição, estou me habituando. É um choque. Antes brigava pela festa de aniversário, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. Não a agrada mais o estardalhaço de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela não quer comemorar, ela se conforma.  <br /><br />De uma forma e de outra, terminou sua infância. Da adolescência vai para a vida adulta, sem volta. Não vou mais pegá-la no colo. Terei que tomar cuidado em não tocar em seus seios na hora de abraçar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, não a olharei de cima. Ela me repreenderá mais do que concordará comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor está cheio de cuidados e pudores. É um amor mais recôndito.<br /><br />Ela será grosseira ao telefone e nem irá reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a ligação de um guri, telefonarei na hora. Fará o possível para que desapareça rápido. Monossilábica, pronunciará bala ou palha diante de minhas sugestões. Usará fones nos ouvidos e vai recorrer à mímica para expressar sua opinião. Dirá que não a entendo mais vezes do que o necessário. E não a entenderei mesmo. <br /><br />Chegou o momento de minha insônia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, até que ela volte das festas. Pais são sonâmbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. Não receberei mais cartões e desenhos com a promessa de amizade eterna. É recomendável guardar um estoque de sua infância para visitar e não se desesperar com a falta de notícias. <br /><br />Deixarei de ser seu ídolo. Serei mais humano e falível. Ela só me elogiará quando não estiver junto, para não me influenciar. <br /><br />Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para praça, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e está debaixo da cama, com alguns anos que não percebi passar em seu rosto. O tempo não voa, a voz voa. <br /><br />Minha filha agora me põe a envelhecer. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOS</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.divus.cz/images/umelec/jones.jpg"><br /><br />Não é a minha idade que determina que envelheço; é a idade de meus filhos. Costumo absolver minha erosão, dar um desconto às rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, não me ameaçar com comparações do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? <br /><br />Treze anos? Calma, não consegui absorver. Quando ela tinha 12, não parecia tão longe, ainda era possível brincar de gangorra e enganá-la com desculpas. <br /><br />Não mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que não gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, não mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos são os meus olhos dentro dos seus. <br /><br />Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repetição, estou me habituando. É um choque. Antes brigava pela festa de aniversário, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. Não a agrada mais o estardalhaço de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela não quer comemorar, ela se conforma.  <br /><br />De uma forma e de outra, terminou sua infância. Da adolescência vai para a vida adulta, sem volta. Não vou mais pegá-la no colo. Terei que tomar cuidado em não tocar em seus seios na hora de abraçar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, não a olharei de cima. Ela me repreenderá mais do que concordará comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor está cheio de cuidados e pudores. É um amor mais recôndito.<br /><br />Ela será grosseira ao telefone e nem irá reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a ligação de um guri, telefonarei na hora. Fará o possível para que desapareça rápido. Monossilábica, pronunciará bala ou palha diante de minhas sugestões. Usará fones nos ouvidos e vai recorrer à mímica para expressar sua opinião. Dirá que não a entendo mais vezes do que o necessário. E não a entenderei mesmo. <br /><br />Chegou o momento de minha insônia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, até que ela volte das festas. Pais são sonâmbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. Não receberei mais cartões e desenhos com a promessa de amizade eterna. É recomendável guardar um estoque de sua infância para visitar e não se desesperar com a falta de notícias. <br /><br />Deixarei de ser seu ídolo. Serei mais humano e falível. Ela só me elogiará quando não estiver junto, para não me influenciar. <br /><br />Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para praça, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e está debaixo da cama, com alguns anos que não percebi passar em seu rosto. O tempo não voa, a voz voa. <br /><br />Minha filha agora me põe a envelhecer. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOS</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.divus.cz/images/umelec/jones.jpg"><br /><br />Não é a minha idade que determina que envelheço; é a idade de meus filhos. Costumo absolver minha erosão, dar um desconto às rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, não me ameaçar com comparações do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? <br /><br />Treze anos? Calma, não consegui absorver. Quando ela tinha 12, não parecia tão longe, ainda era possível brincar de gangorra e enganá-la com desculpas. <br /><br />Não mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que não gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, não mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos são os meus olhos dentro dos seus. <br /><br />Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repetição, estou me habituando. É um choque. Antes brigava pela festa de aniversário, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. Não a agrada mais o estardalhaço de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela não quer comemorar, ela se conforma.  <br /><br />De uma forma e de outra, terminou sua infância. Da adolescência vai para a vida adulta, sem volta. Não vou mais pegá-la no colo. Terei que tomar cuidado em não tocar em seus seios na hora de abraçar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, não a olharei de cima. Ela me repreenderá mais do que concordará comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor está cheio de cuidados e pudores. É um amor mais recôndito.<br /><br />Ela será grosseira ao telefone e nem irá reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a ligação de um guri, telefonarei na hora. Fará o possível para que desapareça rápido. Monossilábica, pronunciará bala ou palha diante de minhas sugestões. Usará fones nos ouvidos e vai recorrer à mímica para expressar sua opinião. Dirá que não a entendo mais vezes do que o necessário. E não a entenderei mesmo. <br /><br />Chegou o momento de minha insônia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, até que ela volte das festas. Pais são sonâmbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. Não receberei mais cartões e desenhos com a promessa de amizade eterna. É recomendável guardar um estoque de sua infância para visitar e não se desesperar com a falta de notícias. <br /><br />Deixarei de ser seu ídolo. Serei mais humano e falível. Ela só me elogiará quando não estiver junto, para não me influenciar. <br /><br />Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para praça, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e está debaixo da cama, com alguns anos que não percebi passar em seu rosto. O tempo não voa, a voz voa. <br /><br />Minha filha agora me põe a envelhecer. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39286530</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/26/2006 11:03:24 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>BRAÇADA DE ABELHAS</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www1.estado.com.br/Estado/contenidos/0000003396/0001698356_DC02BDEB-8426-44E1-A5A7-EF2EE0E0CE2F/filename.jpg"><br /><i>Foto de Evelson de Freitas/AE</i><br /><br />Precisava levar uma rosa para a professora.<br />Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia não. <br />Menos eu, que amava desperfumando.<br /><br />Uma rosa que fosse sapato de abelha, <br />barco de pássaro, cadarço de espinho. <br />Podia ser rosa apenas.<br />Com o talo do tamanho de uma gravata,<br />que não ultrapassasse o cinto.<br /><br />Uma rosa ainda aspergida, luzindo,<br />joelho escapando da saia. <br /><br />Arriscado tomá-la dos jardins e quintais. <br />Havia sempre um conhecido na janela. <br />Um amigo de parente. Um cachorro latindo.<br /><br />Percorria o cemitério antes da escola,<br />para ganhar dois quarteirões de vento.<br />As ruas tortas e as camas<br />sem a pressa dos hospitais.<br />Os acenos entre as letras. O acento<br />de pedra para o lado errado. As datas <br />fotografando o tempo deitado. <br /><br />Em nome de minha professora, <br />roubei várias rosas das lápides.<br />Larápio, mudava de túmulo.<br />O coração morrendo de vergonha.<br />Arrumava a folhagem do vaso para despistar, <br />como quem preenche a falta de um livro <br />distribuindo os que ficaram. <br /><br />Todo ano que passa, estou <br />devendo uma rosa nova a um morto. <br /><br />(Poema especial de Natal publicado no <a href="http://www.estado.com.br">Estado de S. Paulo</a>, Caderno 2, <b>25/12/06</b>)<br /></title>
<description><![CDATA[<b>BRAÇADA DE ABELHAS</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www1.estado.com.br/Estado/contenidos/0000003396/0001698356_DC02BDEB-8426-44E1-A5A7-EF2EE0E0CE2F/filename.jpg"><br /><i>Foto de Evelson de Freitas/AE</i><br /><br />Precisava levar uma rosa para a professora.<br />Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia não. <br />Menos eu, que amava desperfumando.<br /><br />Uma rosa que fosse sapato de abelha, <br />barco de pássaro, cadarço de espinho. <br />Podia ser rosa apenas.<br />Com o talo do tamanho de uma gravata,<br />que não ultrapassasse o cinto.<br /><br />Uma rosa ainda aspergida, luzindo,<br />joelho escapando da saia. <br /><br />Arriscado tomá-la dos jardins e quintais. <br />Havia sempre um conhecido na janela. <br />Um amigo de parente. Um cachorro latindo.<br /><br />Percorria o cemitério antes da escola,<br />para ganhar dois quarteirões de vento.<br />As ruas tortas e as camas<br />sem a pressa dos hospitais.<br />Os acenos entre as letras. O acento<br />de pedra para o lado errado. As datas <br />fotografando o tempo deitado. <br /><br />Em nome de minha professora, <br />roubei várias rosas das lápides.<br />Larápio, mudava de túmulo.<br />O coração morrendo de vergonha.<br />Arrumava a folhagem do vaso para despistar, <br />como quem preenche a falta de um livro <br />distribuindo os que ficaram. <br /><br />Todo ano que passa, estou <br />devendo uma rosa nova a um morto. <br /><br />(Poema especial de Natal publicado no <a href="http://www.estado.com.br">Estado de S. Paulo</a>, Caderno 2, <b>25/12/06</b>)<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>BRAÇADA DE ABELHAS</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www1.estado.com.br/Estado/contenidos/0000003396/0001698356_DC02BDEB-8426-44E1-A5A7-EF2EE0E0CE2F/filename.jpg"><br /><i>Foto de Evelson de Freitas/AE</i><br /><br />Precisava levar uma rosa para a professora.<br />Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia não. <br />Menos eu, que amava desperfumando.<br /><br />Uma rosa que fosse sapato de abelha, <br />barco de pássaro, cadarço de espinho. <br />Podia ser rosa apenas.<br />Com o talo do tamanho de uma gravata,<br />que não ultrapassasse o cinto.<br /><br />Uma rosa ainda aspergida, luzindo,<br />joelho escapando da saia. <br /><br />Arriscado tomá-la dos jardins e quintais. <br />Havia sempre um conhecido na janela. <br />Um amigo de parente. Um cachorro latindo.<br /><br />Percorria o cemitério antes da escola,<br />para ganhar dois quarteirões de vento.<br />As ruas tortas e as camas<br />sem a pressa dos hospitais.<br />Os acenos entre as letras. O acento<br />de pedra para o lado errado. As datas <br />fotografando o tempo deitado. <br /><br />Em nome de minha professora, <br />roubei várias rosas das lápides.<br />Larápio, mudava de túmulo.<br />O coração morrendo de vergonha.<br />Arrumava a folhagem do vaso para despistar, <br />como quem preenche a falta de um livro <br />distribuindo os que ficaram. <br /><br />Todo ano que passa, estou <br />devendo uma rosa nova a um morto. <br /><br />(Poema especial de Natal publicado no <a href="http://www.estado.com.br">Estado de S. Paulo</a>, Caderno 2, <b>25/12/06</b>)<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39284495</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/25/2006 09:31:26 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>MAIS ROSTO </b><br />Pinturas de Paul Klee<br /><br /><i>"Suas mãos iam e vinham várias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos."</i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.leninimports.com/paul_klee_gallery_112.jpg"><br /><br />Eu tenho cabelo curto. Curto é uma forma educada de dizer que não tenho mais cabelo. Tenho a lembrança do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. Só de costas. <br /><br />Quando criança, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, será que esqueceram de voltar?<br /><br />As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateamaníaco sem saber. Era o único loiro de casa, o que gerava ciúme entre os irmãos. Assim como alguém de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos até que resistiram um bom tempo, mas caíram de inveja na maturidade. <br /><br />Quando adolescente, não pensei em economizar o dom. Usei cabelo até cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da época: cordas de um violão atrás e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. <br /><br />Não precisava esforço para definir meu destino capilar: bastava consultar os álbuns de retratos da família. Do lado materno, o avô Leônida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irmãos Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da Itália.<br /><br />Por mais que eu tenha encontrado motivos para não entrar em depressão, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televisão, num dia normal depois do serviço, cocei a cabeça de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. <br /><br />Saí do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa séria, difícil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doença letal.<br /><br />- Ana, estou sem cabelo... Você está casada com um careca. <br /><br />- E daí?, ela respondeu, com alegre indiferença.<br /><br />Achei que não entendeu a gravidade da situação e repeti:<br /><br />- Você está casada com um careca, é propaganda enganosa, pode me devolver.<br /><br />- Que nada, disse. <br /><br />Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, não adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pescoço e beijou minha testa, justo na área extinta. <br /><br />- É melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>MAIS ROSTO </b><br />Pinturas de Paul Klee<br /><br /><i>"Suas mãos iam e vinham várias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos."</i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.leninimports.com/paul_klee_gallery_112.jpg"><br /><br />Eu tenho cabelo curto. Curto é uma forma educada de dizer que não tenho mais cabelo. Tenho a lembrança do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. Só de costas. <br /><br />Quando criança, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, será que esqueceram de voltar?<br /><br />As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateamaníaco sem saber. Era o único loiro de casa, o que gerava ciúme entre os irmãos. Assim como alguém de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos até que resistiram um bom tempo, mas caíram de inveja na maturidade. <br /><br />Quando adolescente, não pensei em economizar o dom. Usei cabelo até cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da época: cordas de um violão atrás e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. <br /><br />Não precisava esforço para definir meu destino capilar: bastava consultar os álbuns de retratos da família. Do lado materno, o avô Leônida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irmãos Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da Itália.<br /><br />Por mais que eu tenha encontrado motivos para não entrar em depressão, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televisão, num dia normal depois do serviço, cocei a cabeça de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. <br /><br />Saí do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa séria, difícil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doença letal.<br /><br />- Ana, estou sem cabelo... Você está casada com um careca. <br /><br />- E daí?, ela respondeu, com alegre indiferença.<br /><br />Achei que não entendeu a gravidade da situação e repeti:<br /><br />- Você está casada com um careca, é propaganda enganosa, pode me devolver.<br /><br />- Que nada, disse. <br /><br />Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, não adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pescoço e beijou minha testa, justo na área extinta. <br /><br />- É melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>MAIS ROSTO </b><br />Pinturas de Paul Klee<br /><br /><i>"Suas mãos iam e vinham várias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos."</i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.leninimports.com/paul_klee_gallery_112.jpg"><br /><br />Eu tenho cabelo curto. Curto é uma forma educada de dizer que não tenho mais cabelo. Tenho a lembrança do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. Só de costas. <br /><br />Quando criança, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, será que esqueceram de voltar?<br /><br />As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateamaníaco sem saber. Era o único loiro de casa, o que gerava ciúme entre os irmãos. Assim como alguém de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos até que resistiram um bom tempo, mas caíram de inveja na maturidade. <br /><br />Quando adolescente, não pensei em economizar o dom. Usei cabelo até cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da época: cordas de um violão atrás e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. <br /><br />Não precisava esforço para definir meu destino capilar: bastava consultar os álbuns de retratos da família. Do lado materno, o avô Leônida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irmãos Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da Itália.<br /><br />Por mais que eu tenha encontrado motivos para não entrar em depressão, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televisão, num dia normal depois do serviço, cocei a cabeça de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. <br /><br />Saí do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa séria, difícil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doença letal.<br /><br />- Ana, estou sem cabelo... Você está casada com um careca. <br /><br />- E daí?, ela respondeu, com alegre indiferença.<br /><br />Achei que não entendeu a gravidade da situação e repeti:<br /><br />- Você está casada com um careca, é propaganda enganosa, pode me devolver.<br /><br />- Que nada, disse. <br /><br />Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, não adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pescoço e beijou minha testa, justo na área extinta. <br /><br />- É melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39277753</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/21/2006 11:14:03 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>IH...ELE NÃO ESTÁ PREPARADO PARA COMPROMISSOS SÉRIOS</b><br />Arte de Marc Chagall<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_200423.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.document.no/weblogg/archives/bilder/chagall.jpg"><br /><br /><i>"Para não perder teu tempo, nem o meu: como alguém apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que não consegue ter compromissos sérios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a história? <br /><br />Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade está muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos últimos tempos. <br /><br />Beijos, Caroline"</i><br /><br />Oi, Caroline<br /><br />É raro o homem terminar uma relação por intensidade do amor. Como quantificar: é forte, é médio, é fraco? Não há bafômetro para o beijo a definir que a vida a dois está embriagada. Das duas uma, está ou não apaixonado. <br /><br />Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que não gosta como antes, que precisa se dedicar à carreira e que não consegue ter compromissos sérios. Ou ele já cometeu a infidelidade ou está envolvido com uma menina. Não se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com alguém que conhece, do seu círculo de amizades. <br /><br />Não iria esperar um ano para tomar essa decisão, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. É óbvio que não adianta questionar, que ele não irá falar. É um escorpião brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e não suporta críticas e discussões de fundo. Para deixá-la ainda mais apaixonada, optou pela "elegância masculina" da revisão e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes é assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.<br /><br />O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. <br /><br />Revela que deseja sair com cópia da chave, caso queira voltar. Se a nova relação não vingar, regressará correndo dizendo que não vive sem sua presença e que pensou melhor a relação. <br /><br />Para ele, não houve extremismo. Não mandou apenas notícias dos seus últimos dias. Sua confissão expressa uma encruzilhada. Não duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, é ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consciência.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>IH...ELE NÃO ESTÁ PREPARADO PARA COMPROMISSOS SÉRIOS</b><br />Arte de Marc Chagall<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_200423.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.document.no/weblogg/archives/bilder/chagall.jpg"><br /><br /><i>"Para não perder teu tempo, nem o meu: como alguém apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que não consegue ter compromissos sérios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a história? <br /><br />Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade está muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos últimos tempos. <br /><br />Beijos, Caroline"</i><br /><br />Oi, Caroline<br /><br />É raro o homem terminar uma relação por intensidade do amor. Como quantificar: é forte, é médio, é fraco? Não há bafômetro para o beijo a definir que a vida a dois está embriagada. Das duas uma, está ou não apaixonado. <br /><br />Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que não gosta como antes, que precisa se dedicar à carreira e que não consegue ter compromissos sérios. Ou ele já cometeu a infidelidade ou está envolvido com uma menina. Não se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com alguém que conhece, do seu círculo de amizades. <br /><br />Não iria esperar um ano para tomar essa decisão, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. É óbvio que não adianta questionar, que ele não irá falar. É um escorpião brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e não suporta críticas e discussões de fundo. Para deixá-la ainda mais apaixonada, optou pela "elegância masculina" da revisão e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes é assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.<br /><br />O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. <br /><br />Revela que deseja sair com cópia da chave, caso queira voltar. Se a nova relação não vingar, regressará correndo dizendo que não vive sem sua presença e que pensou melhor a relação. <br /><br />Para ele, não houve extremismo. Não mandou apenas notícias dos seus últimos dias. Sua confissão expressa uma encruzilhada. Não duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, é ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consciência.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>IH...ELE NÃO ESTÁ PREPARADO PARA COMPROMISSOS SÉRIOS</b><br />Arte de Marc Chagall<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_200423.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.document.no/weblogg/archives/bilder/chagall.jpg"><br /><br /><i>"Para não perder teu tempo, nem o meu: como alguém apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que não consegue ter compromissos sérios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a história? <br /><br />Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade está muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos últimos tempos. <br /><br />Beijos, Caroline"</i><br /><br />Oi, Caroline<br /><br />É raro o homem terminar uma relação por intensidade do amor. Como quantificar: é forte, é médio, é fraco? Não há bafômetro para o beijo a definir que a vida a dois está embriagada. Das duas uma, está ou não apaixonado. <br /><br />Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que não gosta como antes, que precisa se dedicar à carreira e que não consegue ter compromissos sérios. Ou ele já cometeu a infidelidade ou está envolvido com uma menina. Não se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com alguém que conhece, do seu círculo de amizades. <br /><br />Não iria esperar um ano para tomar essa decisão, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. É óbvio que não adianta questionar, que ele não irá falar. É um escorpião brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e não suporta críticas e discussões de fundo. Para deixá-la ainda mais apaixonada, optou pela "elegância masculina" da revisão e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes é assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.<br /><br />O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. <br /><br />Revela que deseja sair com cópia da chave, caso queira voltar. Se a nova relação não vingar, regressará correndo dizendo que não vive sem sua presença e que pensou melhor a relação. <br /><br />Para ele, não houve extremismo. Não mandou apenas notícias dos seus últimos dias. Sua confissão expressa uma encruzilhada. Não duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, é ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consciência.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39271042</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/19/2006 12:23:11 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SAIDEIRA</b><br /><br />Nesta <b>terça (19/12)</b>, participo da última edição de 2006 do <b>SARAU ELÉTRICO</b>. O enredo é infância, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de portão, porta aberta. Ao meu lado como convidado, <b>Rodrigo Rosa</b>, ilustrador do meu livro infantil <i>Filhote de Cruz-credo</i> (Girafinha). <b>Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno e Kátia Suman </b>comandam a conversa. Canja musical de <b>Vanessa Longoni</b>.<br /><br />O encontro acontece às <b>21h</b>, no bar <b>Ocidente</b> (Rua João Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8 <br /> </title>
<description><![CDATA[<b>SAIDEIRA</b><br /><br />Nesta <b>terça (19/12)</b>, participo da última edição de 2006 do <b>SARAU ELÉTRICO</b>. O enredo é infância, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de portão, porta aberta. Ao meu lado como convidado, <b>Rodrigo Rosa</b>, ilustrador do meu livro infantil <i>Filhote de Cruz-credo</i> (Girafinha). <b>Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno e Kátia Suman </b>comandam a conversa. Canja musical de <b>Vanessa Longoni</b>.<br /><br />O encontro acontece às <b>21h</b>, no bar <b>Ocidente</b> (Rua João Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8 <br /> ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SAIDEIRA</b><br /><br />Nesta <b>terça (19/12)</b>, participo da última edição de 2006 do <b>SARAU ELÉTRICO</b>. O enredo é infância, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de portão, porta aberta. Ao meu lado como convidado, <b>Rodrigo Rosa</b>, ilustrador do meu livro infantil <i>Filhote de Cruz-credo</i> (Girafinha). <b>Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno e Kátia Suman </b>comandam a conversa. Canja musical de <b>Vanessa Longoni</b>.<br /><br />O encontro acontece às <b>21h</b>, no bar <b>Ocidente</b> (Rua João Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8 <br /> ]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39269335</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/18/2006 06:48:02 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CAMPEÃO DO MUNDO </b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /> <br /><img src="http://img.mercadolivre.com.br/jm/img?s=MLB&f=38917293_801.jpg&v=P"><img src="http://www.aldiatx.com/img/08-06/17/libertadores.jpg"><br /><br />Nasci numa família de gremistas. Meu pai convenceu os irmãos Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Grêmio como chantagem. Nunca usei: tecido de três listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou lá amarelando com a chuva.  <br /><br />Cresci numa família de gremistas. Com irmãos soprando corneta, eu não torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como só havia uma tevê em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em último caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. <br /><br />Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por não conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. Não era questão de cor, era questão de temperamento. Não segurava a garganta com a entrada da multidão no estádio, os bordões alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. <br /><br />Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. Não havia ninguém para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida adversária. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, várias vezes meu time ganhar. Absoluto silêncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Grêmio.  <br /><br />Ser colorado era uma desesperança. Uma resistência. As estrelas haviam sido preenchidas na geração anterior. Passei toda a década de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Grêmio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, não parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do café de manhã. Sofri humilhação, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafetão de sua mãe. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campeão do Mundo. Olhava com desdém, o despreparo para esconder a inveja. <br /><br />Fui tricampeão brasileiro durante a pré-infância, ou seja, em coma - não contava. Perdi vários campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. <br /><br />No último domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, não telefonei para meus irmãos. Não xinguei os gremistas, não desaforei, não desabafei. Chorei mais soluços do que água. Estava redimido, não precisava provar nada. Ninguém ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vitória por ele. Para ele. Uma vitória sem vingança. Por merecimento.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>CAMPEÃO DO MUNDO </b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /> <br /><img src="http://img.mercadolivre.com.br/jm/img?s=MLB&f=38917293_801.jpg&v=P"><img src="http://www.aldiatx.com/img/08-06/17/libertadores.jpg"><br /><br />Nasci numa família de gremistas. Meu pai convenceu os irmãos Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Grêmio como chantagem. Nunca usei: tecido de três listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou lá amarelando com a chuva.  <br /><br />Cresci numa família de gremistas. Com irmãos soprando corneta, eu não torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como só havia uma tevê em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em último caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. <br /><br />Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por não conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. Não era questão de cor, era questão de temperamento. Não segurava a garganta com a entrada da multidão no estádio, os bordões alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. <br /><br />Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. Não havia ninguém para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida adversária. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, várias vezes meu time ganhar. Absoluto silêncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Grêmio.  <br /><br />Ser colorado era uma desesperança. Uma resistência. As estrelas haviam sido preenchidas na geração anterior. Passei toda a década de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Grêmio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, não parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do café de manhã. Sofri humilhação, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafetão de sua mãe. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campeão do Mundo. Olhava com desdém, o despreparo para esconder a inveja. <br /><br />Fui tricampeão brasileiro durante a pré-infância, ou seja, em coma - não contava. Perdi vários campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. <br /><br />No último domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, não telefonei para meus irmãos. Não xinguei os gremistas, não desaforei, não desabafei. Chorei mais soluços do que água. Estava redimido, não precisava provar nada. Ninguém ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vitória por ele. Para ele. Uma vitória sem vingança. Por merecimento.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CAMPEÃO DO MUNDO </b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /> <br /><img src="http://img.mercadolivre.com.br/jm/img?s=MLB&f=38917293_801.jpg&v=P"><img src="http://www.aldiatx.com/img/08-06/17/libertadores.jpg"><br /><br />Nasci numa família de gremistas. Meu pai convenceu os irmãos Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Grêmio como chantagem. Nunca usei: tecido de três listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou lá amarelando com a chuva.  <br /><br />Cresci numa família de gremistas. Com irmãos soprando corneta, eu não torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como só havia uma tevê em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em último caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. <br /><br />Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por não conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. Não era questão de cor, era questão de temperamento. Não segurava a garganta com a entrada da multidão no estádio, os bordões alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. <br /><br />Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. Não havia ninguém para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida adversária. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, várias vezes meu time ganhar. Absoluto silêncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Grêmio.  <br /><br />Ser colorado era uma desesperança. Uma resistência. As estrelas haviam sido preenchidas na geração anterior. Passei toda a década de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Grêmio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, não parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do café de manhã. Sofri humilhação, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafetão de sua mãe. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campeão do Mundo. Olhava com desdém, o despreparo para esconder a inveja. <br /><br />Fui tricampeão brasileiro durante a pré-infância, ou seja, em coma - não contava. Perdi vários campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. <br /><br />No último domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, não telefonei para meus irmãos. Não xinguei os gremistas, não desaforei, não desabafei. Chorei mais soluços do que água. Estava redimido, não precisava provar nada. Ninguém ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vitória por ele. Para ele. Uma vitória sem vingança. Por merecimento.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39268922</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/18/2006 04:23:08 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UM PATINHO MUITO FEIO</b><br />Carpinejar lança "Filhote de Cruz-Credo" <br /><br /><b>PATRÍCIA ROCHA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2520392.jpg"><br /><i>Rodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabrício Carpinejar  <br />Foto: Rodrigo Rosa, reprodução/ZH</i><br /><br />  <br />Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos não se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de maturação, em que mal saía da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabrício Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia troça da sua aparência: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, não tem o que fazer. <br /><br />Fabrício aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da infância em uma história bem-humorada para todo mundo que dá e recebe apelidos: o livro <b>Filhote de Cruz-Credo</b>, que ele <b>lança amanhã</b>, <b>em Porto Alegre</b>. <br /><br />- Apelido tem que ser como doença de infância. Dá uma vez e depois passa - ensina. <br /><br />A doença de Fabrício começou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que não parecia tão bonitinho quanto o pai e a mãe diziam. Na escola, veio a certeza: até a guria de quem gostava aderia aos apelidos. <br /><br />- Não posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido é uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido não deve ficar quieto esperando o advogado. Ele é o próprio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos também, acolhi melhor os meus. <br /><br />Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abreviação de Fabito, que era como Fabrício se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de infância que diz: <br /><br />- Panqueca! <br /><br />Fabrício gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua história, que terminou em poesia, crônicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustrações de Rodrigo Rosa. <br /><br />- Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza não está em mim, busquei-a no outro.<br /><br /><br /><b>Trecho</b><br /><i>"Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. <br />Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. <br />- Quer mesmo saber? <br />- Sim, quero. <br />- Ué, não reparou que sua cara é toda amassada?"</i><br /><br /><b>O QUE:</b> <b>lançamento e sessão de autógrafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabrício Carpinejar, com ilustrações de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 páginas</b> <br /><b>QUANDO:</b> <b>neste sábado (16/12), às 17h</b><br /><b>ONDE:</b> na <b>Livraria do Arvoredo (Félix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)</b><br /><b>QUANTO:</b> preço sugerido de R$ 27 <br /> <br />(<b>ZERO HORA</b>, <a href="http://www.clicrbs.com.br">SEGUNDO CADERNO</a>, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edição nº 15089)   <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UM PATINHO MUITO FEIO</b><br />Carpinejar lança "Filhote de Cruz-Credo" <br /><br /><b>PATRÍCIA ROCHA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2520392.jpg"><br /><i>Rodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabrício Carpinejar  <br />Foto: Rodrigo Rosa, reprodução/ZH</i><br /><br />  <br />Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos não se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de maturação, em que mal saía da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabrício Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia troça da sua aparência: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, não tem o que fazer. <br /><br />Fabrício aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da infância em uma história bem-humorada para todo mundo que dá e recebe apelidos: o livro <b>Filhote de Cruz-Credo</b>, que ele <b>lança amanhã</b>, <b>em Porto Alegre</b>. <br /><br />- Apelido tem que ser como doença de infância. Dá uma vez e depois passa - ensina. <br /><br />A doença de Fabrício começou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que não parecia tão bonitinho quanto o pai e a mãe diziam. Na escola, veio a certeza: até a guria de quem gostava aderia aos apelidos. <br /><br />- Não posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido é uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido não deve ficar quieto esperando o advogado. Ele é o próprio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos também, acolhi melhor os meus. <br /><br />Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abreviação de Fabito, que era como Fabrício se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de infância que diz: <br /><br />- Panqueca! <br /><br />Fabrício gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua história, que terminou em poesia, crônicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustrações de Rodrigo Rosa. <br /><br />- Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza não está em mim, busquei-a no outro.<br /><br /><br /><b>Trecho</b><br /><i>"Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. <br />Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. <br />- Quer mesmo saber? <br />- Sim, quero. <br />- Ué, não reparou que sua cara é toda amassada?"</i><br /><br /><b>O QUE:</b> <b>lançamento e sessão de autógrafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabrício Carpinejar, com ilustrações de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 páginas</b> <br /><b>QUANDO:</b> <b>neste sábado (16/12), às 17h</b><br /><b>ONDE:</b> na <b>Livraria do Arvoredo (Félix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)</b><br /><b>QUANTO:</b> preço sugerido de R$ 27 <br /> <br />(<b>ZERO HORA</b>, <a href="http://www.clicrbs.com.br">SEGUNDO CADERNO</a>, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edição nº 15089)   <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UM PATINHO MUITO FEIO</b><br />Carpinejar lança "Filhote de Cruz-Credo" <br /><br /><b>PATRÍCIA ROCHA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2520392.jpg"><br /><i>Rodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabrício Carpinejar  <br />Foto: Rodrigo Rosa, reprodução/ZH</i><br /><br />  <br />Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos não se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de maturação, em que mal saía da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabrício Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia troça da sua aparência: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, não tem o que fazer. <br /><br />Fabrício aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da infância em uma história bem-humorada para todo mundo que dá e recebe apelidos: o livro <b>Filhote de Cruz-Credo</b>, que ele <b>lança amanhã</b>, <b>em Porto Alegre</b>. <br /><br />- Apelido tem que ser como doença de infância. Dá uma vez e depois passa - ensina. <br /><br />A doença de Fabrício começou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que não parecia tão bonitinho quanto o pai e a mãe diziam. Na escola, veio a certeza: até a guria de quem gostava aderia aos apelidos. <br /><br />- Não posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido é uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido não deve ficar quieto esperando o advogado. Ele é o próprio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos também, acolhi melhor os meus. <br /><br />Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abreviação de Fabito, que era como Fabrício se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de infância que diz: <br /><br />- Panqueca! <br /><br />Fabrício gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua história, que terminou em poesia, crônicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustrações de Rodrigo Rosa. <br /><br />- Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza não está em mim, busquei-a no outro.<br /><br /><br /><b>Trecho</b><br /><i>"Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. <br />Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. <br />- Quer mesmo saber? <br />- Sim, quero. <br />- Ué, não reparou que sua cara é toda amassada?"</i><br /><br /><b>O QUE:</b> <b>lançamento e sessão de autógrafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabrício Carpinejar, com ilustrações de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 páginas</b> <br /><b>QUANDO:</b> <b>neste sábado (16/12), às 17h</b><br /><b>ONDE:</b> na <b>Livraria do Arvoredo (Félix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)</b><br /><b>QUANTO:</b> preço sugerido de R$ 27 <br /> <br />(<b>ZERO HORA</b>, <a href="http://www.clicrbs.com.br">SEGUNDO CADERNO</a>, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edição nº 15089)   <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39260822</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/15/2006 08:28:53 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FALTA DE TEMPO</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lucienkrief.co.il/pics/large_351.jpg"><br /><br />Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seqüestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. <br /><br />Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho <i>free lancer</i> do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...<br /><br />Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda. <br /><br />Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também. <br /><br />Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.  <br /><br />Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FALTA DE TEMPO</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lucienkrief.co.il/pics/large_351.jpg"><br /><br />Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seqüestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. <br /><br />Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho <i>free lancer</i> do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...<br /><br />Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda. <br /><br />Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também. <br /><br />Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.  <br /><br />Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FALTA DE TEMPO</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lucienkrief.co.il/pics/large_351.jpg"><br /><br />Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seqüestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. <br /><br />Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho <i>free lancer</i> do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...<br /><br />Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda. <br /><br />Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também. <br /><br />Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.  <br /><br />Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39257945</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/14/2006 08:24:57 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PROBLEMAS NO BLOG</b><br /><br />O provedor <b>Globo.Com</b> está com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os comentários. Peço desculpas pelo transtorno. Já pedi conserto. A equipe do blogger não parece ser muito rápida. Ou o problema é mais grave do que eu imaginava. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>PROBLEMAS NO BLOG</b><br /><br />O provedor <b>Globo.Com</b> está com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os comentários. Peço desculpas pelo transtorno. Já pedi conserto. A equipe do blogger não parece ser muito rápida. Ou o problema é mais grave do que eu imaginava. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PROBLEMAS NO BLOG</b><br /><br />O provedor <b>Globo.Com</b> está com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os comentários. Peço desculpas pelo transtorno. Já pedi conserto. A equipe do blogger não parece ser muito rápida. Ou o problema é mais grave do que eu imaginava. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/13/2006 12:16:41 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PAPAI-MAMÃE JÁ TIVERAM FILHOS</b><br />Arte de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.art.net/~coffin/WRITINGS/BEAUTY/hatstand.gif"><br /><br />Já me recomendaram muito não conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mistério. É uma regra do Dom Juan. <br /><br />Não caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique preguiça sob o disfarce de confiança. Na hora em que alguma mulher pede: "nem precisamos falar". Ou quando afirma que "o silêncio diz tudo", abro um parêntese. (Por favor, o silêncio não diz absolutamente nada. É unicamente silêncio. Não é tradutor de quem não fala). <br /><br />É uma espécie de covardia abençoada, uma forma de cada um viver para seu lado e não afiançar a solidão. Não acho que a voz estrague o clima, que o diálogo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta é assassinar a relação. Qual é o problema de se expor, identificar suas taras, ir além da respiração e recomeçar? Deixar rolar serve para bola de futebol. Não para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  <br /><br />Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audiência pública de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compareça na próxima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restrições combinam com remédio, não com a saúde. <br /><br />Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprovação equivocada. Parece que a transa foi tão ruim que não permite comentários. Ou que alcançou sua condição sublime, que perdeu a língua.  <br /><br />Um tabu crer que o sexo foi feito para a concordância, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo não é uma conclusão fechada. Não é um julgamento individual. É uma sentença a dois, um júri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  <br /><br />Sexo não combina com o silêncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavrão. É mais teatro do que livro. Não para ser lido quietinho. Pede a expressão cênica. <br /><br />No sexo, somos atores do próprio desejo. Uns canastrões, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. <br /><br />Vou viver pela boca.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>PAPAI-MAMÃE JÁ TIVERAM FILHOS</b><br />Arte de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.art.net/~coffin/WRITINGS/BEAUTY/hatstand.gif"><br /><br />Já me recomendaram muito não conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mistério. É uma regra do Dom Juan. <br /><br />Não caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique preguiça sob o disfarce de confiança. Na hora em que alguma mulher pede: "nem precisamos falar". Ou quando afirma que "o silêncio diz tudo", abro um parêntese. (Por favor, o silêncio não diz absolutamente nada. É unicamente silêncio. Não é tradutor de quem não fala). <br /><br />É uma espécie de covardia abençoada, uma forma de cada um viver para seu lado e não afiançar a solidão. Não acho que a voz estrague o clima, que o diálogo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta é assassinar a relação. Qual é o problema de se expor, identificar suas taras, ir além da respiração e recomeçar? Deixar rolar serve para bola de futebol. Não para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  <br /><br />Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audiência pública de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compareça na próxima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restrições combinam com remédio, não com a saúde. <br /><br />Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprovação equivocada. Parece que a transa foi tão ruim que não permite comentários. Ou que alcançou sua condição sublime, que perdeu a língua.  <br /><br />Um tabu crer que o sexo foi feito para a concordância, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo não é uma conclusão fechada. Não é um julgamento individual. É uma sentença a dois, um júri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  <br /><br />Sexo não combina com o silêncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavrão. É mais teatro do que livro. Não para ser lido quietinho. Pede a expressão cênica. <br /><br />No sexo, somos atores do próprio desejo. Uns canastrões, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. <br /><br />Vou viver pela boca.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PAPAI-MAMÃE JÁ TIVERAM FILHOS</b><br />Arte de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.art.net/~coffin/WRITINGS/BEAUTY/hatstand.gif"><br /><br />Já me recomendaram muito não conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mistério. É uma regra do Dom Juan. <br /><br />Não caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique preguiça sob o disfarce de confiança. Na hora em que alguma mulher pede: "nem precisamos falar". Ou quando afirma que "o silêncio diz tudo", abro um parêntese. (Por favor, o silêncio não diz absolutamente nada. É unicamente silêncio. Não é tradutor de quem não fala). <br /><br />É uma espécie de covardia abençoada, uma forma de cada um viver para seu lado e não afiançar a solidão. Não acho que a voz estrague o clima, que o diálogo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta é assassinar a relação. Qual é o problema de se expor, identificar suas taras, ir além da respiração e recomeçar? Deixar rolar serve para bola de futebol. Não para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  <br /><br />Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audiência pública de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compareça na próxima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restrições combinam com remédio, não com a saúde. <br /><br />Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprovação equivocada. Parece que a transa foi tão ruim que não permite comentários. Ou que alcançou sua condição sublime, que perdeu a língua.  <br /><br />Um tabu crer que o sexo foi feito para a concordância, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo não é uma conclusão fechada. Não é um julgamento individual. É uma sentença a dois, um júri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  <br /><br />Sexo não combina com o silêncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavrão. É mais teatro do que livro. Não para ser lido quietinho. Pede a expressão cênica. <br /><br />No sexo, somos atores do próprio desejo. Uns canastrões, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. <br /><br />Vou viver pela boca.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39251269</guid>
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<pubDate>12/11/2006 12:36:15 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>MEU PIJAMA MONOCROMÁTICO</b><br />Pintura de Sigmar Polke<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.edition-kloeckner.com/edition/ku/po/banale.jpg"><br /><br />Com os filhos, queremos ressuscitar nossa infância. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e não encontrei um conjunto que servisse. Não era problema de número, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.<br /><br />Não achei um pijama como antigamente. Pijama inconfundível, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o título falso de pijama.<br /><br />Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que não se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu armário. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  <br /><br />Cadê o conjunto monocromático que ninguém duvidava antes de sua natureza sonâmbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o café da manhã. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como único parente possível à malfadada ceroula, calça colada que a mãe me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.<br /><br />Pijama que combinava com os cabelos em pé e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.<br /><br />O pijama representava um segundo lençol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.<br /><br />Agora os pijamas são trajes para sair, vestuário freqüente na praça, na piscina, na lanchonete, sem causar um ruído de estranhamento.<br /><br />Na minha época, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e rápidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.<br /><br />Hoje pijamas são peças comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e estão prontos para sair. Não precisam se arrumar. Já dormem vestidos de escola. Não têm folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e são intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. Até os pássaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  <br /><br />Sou favorável ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nostálgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual é bem mais atraente. Sei que é. Questiono o sacrifício do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hibernação da casa no corpo. <br /><br /><i>Coluna de novembro/2006 do <a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll11.htm">Clube da Calcinha</a></i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>MEU PIJAMA MONOCROMÁTICO</b><br />Pintura de Sigmar Polke<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.edition-kloeckner.com/edition/ku/po/banale.jpg"><br /><br />Com os filhos, queremos ressuscitar nossa infância. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e não encontrei um conjunto que servisse. Não era problema de número, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.<br /><br />Não achei um pijama como antigamente. Pijama inconfundível, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o título falso de pijama.<br /><br />Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que não se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu armário. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  <br /><br />Cadê o conjunto monocromático que ninguém duvidava antes de sua natureza sonâmbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o café da manhã. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como único parente possível à malfadada ceroula, calça colada que a mãe me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.<br /><br />Pijama que combinava com os cabelos em pé e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.<br /><br />O pijama representava um segundo lençol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.<br /><br />Agora os pijamas são trajes para sair, vestuário freqüente na praça, na piscina, na lanchonete, sem causar um ruído de estranhamento.<br /><br />Na minha época, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e rápidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.<br /><br />Hoje pijamas são peças comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e estão prontos para sair. Não precisam se arrumar. Já dormem vestidos de escola. Não têm folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e são intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. Até os pássaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  <br /><br />Sou favorável ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nostálgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual é bem mais atraente. Sei que é. Questiono o sacrifício do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hibernação da casa no corpo. <br /><br /><i>Coluna de novembro/2006 do <a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll11.htm">Clube da Calcinha</a></i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>MEU PIJAMA MONOCROMÁTICO</b><br />Pintura de Sigmar Polke<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.edition-kloeckner.com/edition/ku/po/banale.jpg"><br /><br />Com os filhos, queremos ressuscitar nossa infância. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e não encontrei um conjunto que servisse. Não era problema de número, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.<br /><br />Não achei um pijama como antigamente. Pijama inconfundível, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o título falso de pijama.<br /><br />Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que não se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu armário. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  <br /><br />Cadê o conjunto monocromático que ninguém duvidava antes de sua natureza sonâmbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o café da manhã. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como único parente possível à malfadada ceroula, calça colada que a mãe me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.<br /><br />Pijama que combinava com os cabelos em pé e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.<br /><br />O pijama representava um segundo lençol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.<br /><br />Agora os pijamas são trajes para sair, vestuário freqüente na praça, na piscina, na lanchonete, sem causar um ruído de estranhamento.<br /><br />Na minha época, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e rápidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.<br /><br />Hoje pijamas são peças comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e estão prontos para sair. Não precisam se arrumar. Já dormem vestidos de escola. Não têm folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e são intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. Até os pássaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  <br /><br />Sou favorável ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nostálgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual é bem mais atraente. Sei que é. Questiono o sacrifício do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hibernação da casa no corpo. <br /><br /><i>Coluna de novembro/2006 do <a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll11.htm">Clube da Calcinha</a></i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>12/4/2006 07:38:10 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CANALHA ROMÂNTICO EM SOROCABA</b><br /><br /><img src="http://www.koeln-art.de/bilder/gross/jones_beklakt.jpg"align=right>O <b>Sesc de Sorocaba (SP)</b> é palco do show <a href="http://www.brazilbizz.com.br/">"Canalha Romântico"</a> nesta <b>terça-feira</b>, <b>5/12</b>, a partir das <b>20h</b>. Narrando as agruras e delícias de um casamento, o espetáculo consolida minha parceria com o músico paulista <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>. Apresentaremos letras inéditas como "Telhados" e "O Homem Precisa".  <br /><br />O público poderá conferir onze músicas de Chuí, parte do recém-lançado CD "Nunca vi Mandacaru". Farei a leitura de dez crônicas, cinco delas do meu mais recente livro "O amor esquece de começar" (Bertrand Brasil) e cinco de "O homem quando chora", com publicação prevista para 2007.<br /><br /><i>SERVIÇO:<br /><br />O quê: Canalha Romântico- espetáculo com a participação do músico Fernado <br />Chuí e do escritor Fabrício Carpinejar<br /><br />Quando: dia 5/12 (terça-feira), 20h<br /><br />Onde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Emília, tel: (15) <br />33329933).<br /><br /><b>Entrada franca</b></i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>CANALHA ROMÂNTICO EM SOROCABA</b><br /><br /><img src="http://www.koeln-art.de/bilder/gross/jones_beklakt.jpg"align=right>O <b>Sesc de Sorocaba (SP)</b> é palco do show <a href="http://www.brazilbizz.com.br/">"Canalha Romântico"</a> nesta <b>terça-feira</b>, <b>5/12</b>, a partir das <b>20h</b>. Narrando as agruras e delícias de um casamento, o espetáculo consolida minha parceria com o músico paulista <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>. Apresentaremos letras inéditas como "Telhados" e "O Homem Precisa".  <br /><br />O público poderá conferir onze músicas de Chuí, parte do recém-lançado CD "Nunca vi Mandacaru". Farei a leitura de dez crônicas, cinco delas do meu mais recente livro "O amor esquece de começar" (Bertrand Brasil) e cinco de "O homem quando chora", com publicação prevista para 2007.<br /><br /><i>SERVIÇO:<br /><br />O quê: Canalha Romântico- espetáculo com a participação do músico Fernado <br />Chuí e do escritor Fabrício Carpinejar<br /><br />Quando: dia 5/12 (terça-feira), 20h<br /><br />Onde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Emília, tel: (15) <br />33329933).<br /><br /><b>Entrada franca</b></i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CANALHA ROMÂNTICO EM SOROCABA</b><br /><br /><img src="http://www.koeln-art.de/bilder/gross/jones_beklakt.jpg"align=right>O <b>Sesc de Sorocaba (SP)</b> é palco do show <a href="http://www.brazilbizz.com.br/">"Canalha Romântico"</a> nesta <b>terça-feira</b>, <b>5/12</b>, a partir das <b>20h</b>. Narrando as agruras e delícias de um casamento, o espetáculo consolida minha parceria com o músico paulista <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>. Apresentaremos letras inéditas como "Telhados" e "O Homem Precisa".  <br /><br />O público poderá conferir onze músicas de Chuí, parte do recém-lançado CD "Nunca vi Mandacaru". Farei a leitura de dez crônicas, cinco delas do meu mais recente livro "O amor esquece de começar" (Bertrand Brasil) e cinco de "O homem quando chora", com publicação prevista para 2007.<br /><br /><i>SERVIÇO:<br /><br />O quê: Canalha Romântico- espetáculo com a participação do músico Fernado <br />Chuí e do escritor Fabrício Carpinejar<br /><br />Quando: dia 5/12 (terça-feira), 20h<br /><br />Onde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Emília, tel: (15) <br />33329933).<br /><br /><b>Entrada franca</b></i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/4/2006 07:35:20 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/VI20061202.jpg"><br /><b>Zero Hora, <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=6841&template=502.dwt&start=1§ion=Vida&source=ind&channel=9&id=&titanterior=&content=&menu=21&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=">Caderno Vida</a>, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edição nº 15076</b><br /><br /><i><b>"A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora."</b></i><br /><br /><b>POR FAVOR, PARE AGORA</b><br />Carpinejar não quis enfrentar a luta contra o vício sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante <br /><br /><b>LEANDRO RODRIGUES</b><br /><br /> <i>Foto(s): Adriana Franciosi/ZH</i><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491301.jpg"><br /><i>O poeta Fabrício Carpinejar acredita que durante este verão vencerá a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana</i>  <br /><br /><br /> Com frases como essa, em um e-mail enviado no começo de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, a tomar uma decisão: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: é irreversível, o cigarro está com os dias contados. <br /><br />- Até agora, o máximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, não segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para não recair. Vou conseguir isso nas férias de verão, com o apoio e a fiscalização da Mariana - diz o poeta. <br /><br />Carpinejar não quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a difícil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da ausência do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade não tardou a surgir. <br /><br />- Abordei isso no blog para não me sentir tão só nessa luta. Criei uma novela da minha experiência. E também para mostrar a quem não fuma que não é fácil, isso é um vício. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. <br /><br />Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, após 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolução da síndrome da abstinência da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As mãos começavam a tremer, e os delírios o acometeram à noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fumaça. <br /><br />Pneumologistas asseguram que esses efeitos não são exagero ou "fiasco" dele. Eles alertam que o cigarro é muito potente. Uma máquina perfeita para viciar: pequeno, barato, de fácil acionamento e rápido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absorção da nicotina pelo cérebro. <br /><br />- Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstinência nos primeiros dias, mas é difícil. Nada oferece tanta nicotina em tão pouco tempo - afirma José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). <br /><br />A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Conceição, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda médica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. <br /><br />- Vamos ver o que será nesse verão, com as minhas férias. Se não der certo, vou procurar ajuda médica. O importante é que eu já decidi, não vou recuar - promete. <br /><br />( leandro.rodrigues@zerohora.com.br )<br /> <br /><b>Tentativas </b><br /><b>O que você pode fazer em casa antes de procurar um médico:</b><br /><br /><b>*</b> Marque o dia D para largar o cigarro, faça dele um momento especial, marque algo diferente para fazer <br /><br /><b>*</b> Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A idéia é quebrar as associações que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situações e ficando longe de fumantes <br /><br /><b>*</b> Você poderá ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentração e ter dores de cabeça por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no máximo, duas semanas <br /><br /><b>*</b> Se sentir muita vontade, você pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. Não fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a atenção. Saiba que essa vontade forte não dura mais do que cinco minutos <br /><br /><b>*</b> Que tal guardar o dinheiro que você gastaria com o cigarro e contá-lo no final de cada semana? Pode usá-lo para fazer algo diferente <br /><br /><b>*</b> Voltou a fumar? Saiba que isso não é fracasso e nem significa que você não vai parar de fumar. Você nunca volta à estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um médico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos <br /><br />Fonte: <i>Instituto Nacional do Câncer</i><br /><br /><b>DAR UM BASTA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491302.jpg"><br />Foto(s): Adriana Franciosi/ZH <br /> <br />A possibilidade de surgir um remédio que libere o fumante do vício está fora de cogitação no momento. É a determinação de abandonar o tabagismo, a consciência absoluta dos males do cigarro que fará a diferença. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. Não há solução mágica. <br /><br />- A primeira coisa que fazemos é avaliar o grau de motivação para largar o cigarro e o grau de dependência. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez só ou gradualmente, e quando vai começar. A isso agregamos a medicação - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. <br /><br />Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasiões onde o cigarro é aceso. Há "gatilhos" para cada pessoa que devem ser identificados. Uns não conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e aí por diante. Nessa fase de mudança, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura começa a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos é feito durante três meses. <br /><br />Neste mês, na França, será lançado um medicamento que pode deixar para trás o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neurônio. Em caso de recaída, o fumante não sentirá o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no cérebro estarão "tampados". No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. <br /><br />- A julgar pelos resultados dos ensaios clínicos, esse remédio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas.<br /><br /><b>Os benefícios do chega </b><br /><br /><b>*</b> Após 20 minutos: a pressão e a pulsação voltam ao normal <br /><br /><b>*</b> Após duas horas: não há mais nicotina circulando no sangue <br /><br /><b>*</b> Após oito horas: o nível de oxigênio no sangue fica normal <br /><br /><b>*</b> Entre 12 e 24 horas: os pulmões funcionam melhor <br /><br /><b>*</b> Após dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida <br /><br /><b>*</b> Após três semanas: a respiração se torna mais fácil, e a circulação melhora <br /><br /><b>*</b> Após um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade <br /><br /><b>*</b> Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto será igual ao de pessoas que nunca fumaram <br /><br /><b>Fonte: Instituto Nacional do Câncer</b><br /><br /><a href="http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3361.dwt&tp=§ion=Blogs&&blog=39&tipo=1&coldir=1">Faça o teste sobre seu nível de dependência do cigarro </a><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/VI20061202.jpg"><br /><b>Zero Hora, <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=6841&template=502.dwt&start=1§ion=Vida&source=ind&channel=9&id=&titanterior=&content=&menu=21&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=">Caderno Vida</a>, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edição nº 15076</b><br /><br /><i><b>"A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora."</b></i><br /><br /><b>POR FAVOR, PARE AGORA</b><br />Carpinejar não quis enfrentar a luta contra o vício sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante <br /><br /><b>LEANDRO RODRIGUES</b><br /><br /> <i>Foto(s): Adriana Franciosi/ZH</i><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491301.jpg"><br /><i>O poeta Fabrício Carpinejar acredita que durante este verão vencerá a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana</i>  <br /><br /><br /> Com frases como essa, em um e-mail enviado no começo de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, a tomar uma decisão: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: é irreversível, o cigarro está com os dias contados. <br /><br />- Até agora, o máximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, não segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para não recair. Vou conseguir isso nas férias de verão, com o apoio e a fiscalização da Mariana - diz o poeta. <br /><br />Carpinejar não quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a difícil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da ausência do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade não tardou a surgir. <br /><br />- Abordei isso no blog para não me sentir tão só nessa luta. Criei uma novela da minha experiência. E também para mostrar a quem não fuma que não é fácil, isso é um vício. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. <br /><br />Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, após 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolução da síndrome da abstinência da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As mãos começavam a tremer, e os delírios o acometeram à noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fumaça. <br /><br />Pneumologistas asseguram que esses efeitos não são exagero ou "fiasco" dele. Eles alertam que o cigarro é muito potente. Uma máquina perfeita para viciar: pequeno, barato, de fácil acionamento e rápido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absorção da nicotina pelo cérebro. <br /><br />- Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstinência nos primeiros dias, mas é difícil. Nada oferece tanta nicotina em tão pouco tempo - afirma José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). <br /><br />A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Conceição, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda médica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. <br /><br />- Vamos ver o que será nesse verão, com as minhas férias. Se não der certo, vou procurar ajuda médica. O importante é que eu já decidi, não vou recuar - promete. <br /><br />( leandro.rodrigues@zerohora.com.br )<br /> <br /><b>Tentativas </b><br /><b>O que você pode fazer em casa antes de procurar um médico:</b><br /><br /><b>*</b> Marque o dia D para largar o cigarro, faça dele um momento especial, marque algo diferente para fazer <br /><br /><b>*</b> Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A idéia é quebrar as associações que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situações e ficando longe de fumantes <br /><br /><b>*</b> Você poderá ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentração e ter dores de cabeça por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no máximo, duas semanas <br /><br /><b>*</b> Se sentir muita vontade, você pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. Não fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a atenção. Saiba que essa vontade forte não dura mais do que cinco minutos <br /><br /><b>*</b> Que tal guardar o dinheiro que você gastaria com o cigarro e contá-lo no final de cada semana? Pode usá-lo para fazer algo diferente <br /><br /><b>*</b> Voltou a fumar? Saiba que isso não é fracasso e nem significa que você não vai parar de fumar. Você nunca volta à estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um médico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos <br /><br />Fonte: <i>Instituto Nacional do Câncer</i><br /><br /><b>DAR UM BASTA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491302.jpg"><br />Foto(s): Adriana Franciosi/ZH <br /> <br />A possibilidade de surgir um remédio que libere o fumante do vício está fora de cogitação no momento. É a determinação de abandonar o tabagismo, a consciência absoluta dos males do cigarro que fará a diferença. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. Não há solução mágica. <br /><br />- A primeira coisa que fazemos é avaliar o grau de motivação para largar o cigarro e o grau de dependência. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez só ou gradualmente, e quando vai começar. A isso agregamos a medicação - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. <br /><br />Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasiões onde o cigarro é aceso. Há "gatilhos" para cada pessoa que devem ser identificados. Uns não conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e aí por diante. Nessa fase de mudança, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura começa a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos é feito durante três meses. <br /><br />Neste mês, na França, será lançado um medicamento que pode deixar para trás o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neurônio. Em caso de recaída, o fumante não sentirá o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no cérebro estarão "tampados". No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. <br /><br />- A julgar pelos resultados dos ensaios clínicos, esse remédio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas.<br /><br /><b>Os benefícios do chega </b><br /><br /><b>*</b> Após 20 minutos: a pressão e a pulsação voltam ao normal <br /><br /><b>*</b> Após duas horas: não há mais nicotina circulando no sangue <br /><br /><b>*</b> Após oito horas: o nível de oxigênio no sangue fica normal <br /><br /><b>*</b> Entre 12 e 24 horas: os pulmões funcionam melhor <br /><br /><b>*</b> Após dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida <br /><br /><b>*</b> Após três semanas: a respiração se torna mais fácil, e a circulação melhora <br /><br /><b>*</b> Após um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade <br /><br /><b>*</b> Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto será igual ao de pessoas que nunca fumaram <br /><br /><b>Fonte: Instituto Nacional do Câncer</b><br /><br /><a href="http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3361.dwt&tp=§ion=Blogs&&blog=39&tipo=1&coldir=1">Faça o teste sobre seu nível de dependência do cigarro </a><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/VI20061202.jpg"><br /><b>Zero Hora, <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=6841&template=502.dwt&start=1§ion=Vida&source=ind&channel=9&id=&titanterior=&content=&menu=21&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=">Caderno Vida</a>, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edição nº 15076</b><br /><br /><i><b>"A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora."</b></i><br /><br /><b>POR FAVOR, PARE AGORA</b><br />Carpinejar não quis enfrentar a luta contra o vício sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante <br /><br /><b>LEANDRO RODRIGUES</b><br /><br /> <i>Foto(s): Adriana Franciosi/ZH</i><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491301.jpg"><br /><i>O poeta Fabrício Carpinejar acredita que durante este verão vencerá a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana</i>  <br /><br /><br /> Com frases como essa, em um e-mail enviado no começo de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, a tomar uma decisão: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: é irreversível, o cigarro está com os dias contados. <br /><br />- Até agora, o máximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, não segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para não recair. Vou conseguir isso nas férias de verão, com o apoio e a fiscalização da Mariana - diz o poeta. <br /><br />Carpinejar não quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a difícil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da ausência do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade não tardou a surgir. <br /><br />- Abordei isso no blog para não me sentir tão só nessa luta. Criei uma novela da minha experiência. E também para mostrar a quem não fuma que não é fácil, isso é um vício. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. <br /><br />Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, após 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolução da síndrome da abstinência da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As mãos começavam a tremer, e os delírios o acometeram à noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fumaça. <br /><br />Pneumologistas asseguram que esses efeitos não são exagero ou "fiasco" dele. Eles alertam que o cigarro é muito potente. Uma máquina perfeita para viciar: pequeno, barato, de fácil acionamento e rápido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absorção da nicotina pelo cérebro. <br /><br />- Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstinência nos primeiros dias, mas é difícil. Nada oferece tanta nicotina em tão pouco tempo - afirma José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). <br /><br />A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Conceição, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda médica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. <br /><br />- Vamos ver o que será nesse verão, com as minhas férias. Se não der certo, vou procurar ajuda médica. O importante é que eu já decidi, não vou recuar - promete. <br /><br />( leandro.rodrigues@zerohora.com.br )<br /> <br /><b>Tentativas </b><br /><b>O que você pode fazer em casa antes de procurar um médico:</b><br /><br /><b>*</b> Marque o dia D para largar o cigarro, faça dele um momento especial, marque algo diferente para fazer <br /><br /><b>*</b> Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A idéia é quebrar as associações que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situações e ficando longe de fumantes <br /><br /><b>*</b> Você poderá ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentração e ter dores de cabeça por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no máximo, duas semanas <br /><br /><b>*</b> Se sentir muita vontade, você pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. Não fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a atenção. Saiba que essa vontade forte não dura mais do que cinco minutos <br /><br /><b>*</b> Que tal guardar o dinheiro que você gastaria com o cigarro e contá-lo no final de cada semana? Pode usá-lo para fazer algo diferente <br /><br /><b>*</b> Voltou a fumar? Saiba que isso não é fracasso e nem significa que você não vai parar de fumar. Você nunca volta à estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um médico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos <br /><br />Fonte: <i>Instituto Nacional do Câncer</i><br /><br /><b>DAR UM BASTA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491302.jpg"><br />Foto(s): Adriana Franciosi/ZH <br /> <br />A possibilidade de surgir um remédio que libere o fumante do vício está fora de cogitação no momento. É a determinação de abandonar o tabagismo, a consciência absoluta dos males do cigarro que fará a diferença. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. Não há solução mágica. <br /><br />- A primeira coisa que fazemos é avaliar o grau de motivação para largar o cigarro e o grau de dependência. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez só ou gradualmente, e quando vai começar. A isso agregamos a medicação - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. <br /><br />Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasiões onde o cigarro é aceso. Há "gatilhos" para cada pessoa que devem ser identificados. Uns não conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e aí por diante. Nessa fase de mudança, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura começa a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos é feito durante três meses. <br /><br />Neste mês, na França, será lançado um medicamento que pode deixar para trás o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neurônio. Em caso de recaída, o fumante não sentirá o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no cérebro estarão "tampados". No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. <br /><br />- A julgar pelos resultados dos ensaios clínicos, esse remédio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas.<br /><br /><b>Os benefícios do chega </b><br /><br /><b>*</b> Após 20 minutos: a pressão e a pulsação voltam ao normal <br /><br /><b>*</b> Após duas horas: não há mais nicotina circulando no sangue <br /><br /><b>*</b> Após oito horas: o nível de oxigênio no sangue fica normal <br /><br /><b>*</b> Entre 12 e 24 horas: os pulmões funcionam melhor <br /><br /><b>*</b> Após dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida <br /><br /><b>*</b> Após três semanas: a respiração se torna mais fácil, e a circulação melhora <br /><br /><b>*</b> Após um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade <br /><br /><b>*</b> Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto será igual ao de pessoas que nunca fumaram <br /><br /><b>Fonte: Instituto Nacional do Câncer</b><br /><br /><a href="http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3361.dwt&tp=§ion=Blogs&&blog=39&tipo=1&coldir=1">Faça o teste sobre seu nível de dependência do cigarro </a><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39233411</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/3/2006 10:12:10 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UM VELHO TANGO 78 ROTAÇÕES </b><br />Márcia Denser raspa o álbum de uma família incestuosa em Caim - Sagrados Laços Frouxos <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar*</b><br /><i>Especial para o Estado</i><br /><br /><img src="http://www.estado.com.br/editorias/2006/12/03/2.12.imagem_marcia.jpg"><br /><br />Só uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: Márcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da década de 70 e início de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (<i>O Tango Fantasma </i>e <b>Diana Caçadora</b>), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Aliás, fazia sexo para pensar e não esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, tão independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer físico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.<br /><br />Márcia pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. Não tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lança <b>Caim - Sagrados Laços Frouxos</b>.<br /><br />Diana Marini torna-se Júlia. Uma transformação que implica em serenidade, consistência psicológica, sem nunca perder o enfrentamento. <br /><br />O livro é construído como um diálogo teatral, dilacerado, entre Júlia e sua irmã Amanda, prestes a dar à luz. O nascimento do filho é antecedido por um ajuste de contas. Não é a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da família para uma nova criança impõe a revisão do álbum de família. <br /><br />Não há pausa, respiro. Não agüentam a proximidade, muito menos agüentam igualmente se distanciar. Com a separação, resta a culpa; com a convivência, a raiva.<br /><br />Um verniz do cinema cênico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na expressão do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma trégua que não chega. As dúvidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Afloração, defloração. Movimentos contínuos de recuo, choques e disputas. Provocações, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perdão, ninguém sai ileso. Isso é o que demonstra Denser. <br /><br />As conversas são de ordem intelectual. Não copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convicções. Denser não empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo à parte, uma paródia desafiadora de idéias ou um pandemônio de desejos descontrolados. <br /><br />As histórias de quarto-cozinha são reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. São como gêmeas da vergonha (ou do medo). Desde o bisavô Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irmãos, com filhos deficientes e tabus.<br /><br />A marca de Caim está no lábio leporino, "sinal de nascença" dos integrantes da família. O lábio é uma cicatriz antes de ser boca. Uma memória coletiva sobrepujando a individual. Uma purgação, uma condenação perpétua igual ao anti-herói bíblico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.<br /><br />Júlia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. É Diana Marini em forma no sarcasmo: "Quando você me fala em destino me dá vontade de sacar a pasta de dente." Há uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ciúme que sente da irmã. Julga as aparências de sua margem confortável e troça da estabilidade e das instituições por não se enxergar dentro delas.<br /><br />Não existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os papéis de vítimas e algozes. Oferecem versões, não verdades. Em cinco capítulos, Márcia Denser cria uma atmosfera de paranóia e desconfiança. Opiniões tendenciosas, mutáveis de acordo com o fôlego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de Júlia e Amanda segue a sina e não modifica o futuro.<br /><br />Um dos méritos da obra é a sobreposição psicológica. Além de diferentes relatos de outras épocas, Denser se põe muito na personagem. Transfere-se para confundir. Citações de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explicações dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da própria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identificação, já que quanto mais se parece com Denser menos é Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa literária, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. "Que prazer indescritível imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e não eu a escrevê-lo."<br /><br />Como um velho tango 78 rotações, os ruídos fazem parte da música. Os ruídos e as elipses são a música desse perturbador romance. Afinal, não há parto sem dor.<br /><br /><i>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br />(SERVIÇO)<br /><b>Caim - Sagrados Laços Frouxos, Márcia Denser, Record, 144 págs., R$ 31,90</b><br /> <br />Publicado em <b><a href="http://www.estado.com.br">O Estado de São Paulo</a>, Caderno 2/Cultura, 3/12/06</b><br /></title>
<description><![CDATA[<b>UM VELHO TANGO 78 ROTAÇÕES </b><br />Márcia Denser raspa o álbum de uma família incestuosa em Caim - Sagrados Laços Frouxos <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar*</b><br /><i>Especial para o Estado</i><br /><br /><img src="http://www.estado.com.br/editorias/2006/12/03/2.12.imagem_marcia.jpg"><br /><br />Só uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: Márcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da década de 70 e início de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (<i>O Tango Fantasma </i>e <b>Diana Caçadora</b>), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Aliás, fazia sexo para pensar e não esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, tão independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer físico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.<br /><br />Márcia pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. Não tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lança <b>Caim - Sagrados Laços Frouxos</b>.<br /><br />Diana Marini torna-se Júlia. Uma transformação que implica em serenidade, consistência psicológica, sem nunca perder o enfrentamento. <br /><br />O livro é construído como um diálogo teatral, dilacerado, entre Júlia e sua irmã Amanda, prestes a dar à luz. O nascimento do filho é antecedido por um ajuste de contas. Não é a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da família para uma nova criança impõe a revisão do álbum de família. <br /><br />Não há pausa, respiro. Não agüentam a proximidade, muito menos agüentam igualmente se distanciar. Com a separação, resta a culpa; com a convivência, a raiva.<br /><br />Um verniz do cinema cênico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na expressão do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma trégua que não chega. As dúvidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Afloração, defloração. Movimentos contínuos de recuo, choques e disputas. Provocações, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perdão, ninguém sai ileso. Isso é o que demonstra Denser. <br /><br />As conversas são de ordem intelectual. Não copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convicções. Denser não empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo à parte, uma paródia desafiadora de idéias ou um pandemônio de desejos descontrolados. <br /><br />As histórias de quarto-cozinha são reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. São como gêmeas da vergonha (ou do medo). Desde o bisavô Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irmãos, com filhos deficientes e tabus.<br /><br />A marca de Caim está no lábio leporino, "sinal de nascença" dos integrantes da família. O lábio é uma cicatriz antes de ser boca. Uma memória coletiva sobrepujando a individual. Uma purgação, uma condenação perpétua igual ao anti-herói bíblico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.<br /><br />Júlia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. É Diana Marini em forma no sarcasmo: "Quando você me fala em destino me dá vontade de sacar a pasta de dente." Há uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ciúme que sente da irmã. Julga as aparências de sua margem confortável e troça da estabilidade e das instituições por não se enxergar dentro delas.<br /><br />Não existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os papéis de vítimas e algozes. Oferecem versões, não verdades. Em cinco capítulos, Márcia Denser cria uma atmosfera de paranóia e desconfiança. Opiniões tendenciosas, mutáveis de acordo com o fôlego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de Júlia e Amanda segue a sina e não modifica o futuro.<br /><br />Um dos méritos da obra é a sobreposição psicológica. Além de diferentes relatos de outras épocas, Denser se põe muito na personagem. Transfere-se para confundir. Citações de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explicações dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da própria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identificação, já que quanto mais se parece com Denser menos é Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa literária, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. "Que prazer indescritível imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e não eu a escrevê-lo."<br /><br />Como um velho tango 78 rotações, os ruídos fazem parte da música. Os ruídos e as elipses são a música desse perturbador romance. Afinal, não há parto sem dor.<br /><br /><i>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br />(SERVIÇO)<br /><b>Caim - Sagrados Laços Frouxos, Márcia Denser, Record, 144 págs., R$ 31,90</b><br /> <br />Publicado em <b><a href="http://www.estado.com.br">O Estado de São Paulo</a>, Caderno 2/Cultura, 3/12/06</b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UM VELHO TANGO 78 ROTAÇÕES </b><br />Márcia Denser raspa o álbum de uma família incestuosa em Caim - Sagrados Laços Frouxos <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar*</b><br /><i>Especial para o Estado</i><br /><br /><img src="http://www.estado.com.br/editorias/2006/12/03/2.12.imagem_marcia.jpg"><br /><br />Só uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: Márcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da década de 70 e início de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (<i>O Tango Fantasma </i>e <b>Diana Caçadora</b>), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Aliás, fazia sexo para pensar e não esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, tão independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer físico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.<br /><br />Márcia pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. Não tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lança <b>Caim - Sagrados Laços Frouxos</b>.<br /><br />Diana Marini torna-se Júlia. Uma transformação que implica em serenidade, consistência psicológica, sem nunca perder o enfrentamento. <br /><br />O livro é construído como um diálogo teatral, dilacerado, entre Júlia e sua irmã Amanda, prestes a dar à luz. O nascimento do filho é antecedido por um ajuste de contas. Não é a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da família para uma nova criança impõe a revisão do álbum de família. <br /><br />Não há pausa, respiro. Não agüentam a proximidade, muito menos agüentam igualmente se distanciar. Com a separação, resta a culpa; com a convivência, a raiva.<br /><br />Um verniz do cinema cênico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na expressão do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma trégua que não chega. As dúvidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Afloração, defloração. Movimentos contínuos de recuo, choques e disputas. Provocações, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perdão, ninguém sai ileso. Isso é o que demonstra Denser. <br /><br />As conversas são de ordem intelectual. Não copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convicções. Denser não empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo à parte, uma paródia desafiadora de idéias ou um pandemônio de desejos descontrolados. <br /><br />As histórias de quarto-cozinha são reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. São como gêmeas da vergonha (ou do medo). Desde o bisavô Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irmãos, com filhos deficientes e tabus.<br /><br />A marca de Caim está no lábio leporino, "sinal de nascença" dos integrantes da família. O lábio é uma cicatriz antes de ser boca. Uma memória coletiva sobrepujando a individual. Uma purgação, uma condenação perpétua igual ao anti-herói bíblico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.<br /><br />Júlia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. É Diana Marini em forma no sarcasmo: "Quando você me fala em destino me dá vontade de sacar a pasta de dente." Há uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ciúme que sente da irmã. Julga as aparências de sua margem confortável e troça da estabilidade e das instituições por não se enxergar dentro delas.<br /><br />Não existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os papéis de vítimas e algozes. Oferecem versões, não verdades. Em cinco capítulos, Márcia Denser cria uma atmosfera de paranóia e desconfiança. Opiniões tendenciosas, mutáveis de acordo com o fôlego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de Júlia e Amanda segue a sina e não modifica o futuro.<br /><br />Um dos méritos da obra é a sobreposição psicológica. Além de diferentes relatos de outras épocas, Denser se põe muito na personagem. Transfere-se para confundir. Citações de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explicações dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da própria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identificação, já que quanto mais se parece com Denser menos é Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa literária, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. "Que prazer indescritível imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e não eu a escrevê-lo."<br /><br />Como um velho tango 78 rotações, os ruídos fazem parte da música. Os ruídos e as elipses são a música desse perturbador romance. Afinal, não há parto sem dor.<br /><br /><i>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br />(SERVIÇO)<br /><b>Caim - Sagrados Laços Frouxos, Márcia Denser, Record, 144 págs., R$ 31,90</b><br /> <br />Publicado em <b><a href="http://www.estado.com.br">O Estado de São Paulo</a>, Caderno 2/Cultura, 3/12/06</b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/3/2006 09:52:48 PM</pubDate>
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<title><b>UMA AVE-MARIA </b><br />Arte de Gerhard Richter<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://kunstonline.dk/indhold/pics/gerhard_richter_6.jpg"><br /><br />Quando ligo para um amigo, cedo da manhã ou tarde da noite, e escuto sua dicção anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. Não consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e é tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da ligação. Não prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no afã de não incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor juízo, e não percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, terá um pesadelo. Se acordar depois, será um pesadelo. Faço de conta que não telefonei. Torno-me um trote, um telefonema anônimo. Sou uma criança assustada com a própria respiração. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. <br /><br />No final da aula, recebi a notícia de que uma de minhas alunas de <i>Poesia</i> havia falecido. Teve uma parada cardíaca aos 50 anos. Saudável, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os cílios não seriam capazes de conter a inclinação de riacho. Seu pescoço a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exercícios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela recém havia ingressado na oficina. Compareceu a três aulas. Estava ali ao alcance de meu braço, de minhas pernas, de um giro da cabeça. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que não sabia como chegar. <br /><br />Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As mãos arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa está limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela não esqueceu a bolsa, não esqueceu o caderno, não esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro até a porta e tudo é ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. Não tenho para quem devolver minhas anotações ao lado de seus versos. Não entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um olá, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ipê na calçada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque não suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo já era tarde. Estava me dedicando seus últimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. <br /><br />Hoje tocou o telefone de madrugada. Alguém me ouviu e desligou rapidamente.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UMA AVE-MARIA </b><br />Arte de Gerhard Richter<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://kunstonline.dk/indhold/pics/gerhard_richter_6.jpg"><br /><br />Quando ligo para um amigo, cedo da manhã ou tarde da noite, e escuto sua dicção anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. Não consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e é tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da ligação. Não prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no afã de não incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor juízo, e não percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, terá um pesadelo. Se acordar depois, será um pesadelo. Faço de conta que não telefonei. Torno-me um trote, um telefonema anônimo. Sou uma criança assustada com a própria respiração. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. <br /><br />No final da aula, recebi a notícia de que uma de minhas alunas de <i>Poesia</i> havia falecido. Teve uma parada cardíaca aos 50 anos. Saudável, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os cílios não seriam capazes de conter a inclinação de riacho. Seu pescoço a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exercícios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela recém havia ingressado na oficina. Compareceu a três aulas. Estava ali ao alcance de meu braço, de minhas pernas, de um giro da cabeça. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que não sabia como chegar. <br /><br />Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As mãos arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa está limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela não esqueceu a bolsa, não esqueceu o caderno, não esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro até a porta e tudo é ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. Não tenho para quem devolver minhas anotações ao lado de seus versos. Não entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um olá, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ipê na calçada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque não suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo já era tarde. Estava me dedicando seus últimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. <br /><br />Hoje tocou o telefone de madrugada. Alguém me ouviu e desligou rapidamente.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UMA AVE-MARIA </b><br />Arte de Gerhard Richter<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://kunstonline.dk/indhold/pics/gerhard_richter_6.jpg"><br /><br />Quando ligo para um amigo, cedo da manhã ou tarde da noite, e escuto sua dicção anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. Não consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e é tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da ligação. Não prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no afã de não incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor juízo, e não percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, terá um pesadelo. Se acordar depois, será um pesadelo. Faço de conta que não telefonei. Torno-me um trote, um telefonema anônimo. Sou uma criança assustada com a própria respiração. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. <br /><br />No final da aula, recebi a notícia de que uma de minhas alunas de <i>Poesia</i> havia falecido. Teve uma parada cardíaca aos 50 anos. Saudável, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os cílios não seriam capazes de conter a inclinação de riacho. Seu pescoço a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exercícios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela recém havia ingressado na oficina. Compareceu a três aulas. Estava ali ao alcance de meu braço, de minhas pernas, de um giro da cabeça. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que não sabia como chegar. <br /><br />Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As mãos arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa está limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela não esqueceu a bolsa, não esqueceu o caderno, não esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro até a porta e tudo é ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. Não tenho para quem devolver minhas anotações ao lado de seus versos. Não entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um olá, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ipê na calçada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque não suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo já era tarde. Estava me dedicando seus últimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. <br /><br />Hoje tocou o telefone de madrugada. Alguém me ouviu e desligou rapidamente.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/30/2006 01:10:05 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ÚLTIMO DIA</b><br /><br />Hoje é o último dia (29/11) de inscrições para o processo seletivo do curso de <b>Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</b>, <i>HORÁRIO NOTURNO</i>. As provas vão rolar no dia <b>2 de dezembro</b>, das <b>9h30 às 12h</b> (redação) e das <b>14h30 às 17h30</b> (questões discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realização somente da redação. Inscreva-se <a href="http://www.unisinos.br/vestibular/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=29">aqui</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>ÚLTIMO DIA</b><br /><br />Hoje é o último dia (29/11) de inscrições para o processo seletivo do curso de <b>Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</b>, <i>HORÁRIO NOTURNO</i>. As provas vão rolar no dia <b>2 de dezembro</b>, das <b>9h30 às 12h</b> (redação) e das <b>14h30 às 17h30</b> (questões discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realização somente da redação. Inscreva-se <a href="http://www.unisinos.br/vestibular/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=29">aqui</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ÚLTIMO DIA</b><br /><br />Hoje é o último dia (29/11) de inscrições para o processo seletivo do curso de <b>Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</b>, <i>HORÁRIO NOTURNO</i>. As provas vão rolar no dia <b>2 de dezembro</b>, das <b>9h30 às 12h</b> (redação) e das <b>14h30 às 17h30</b> (questões discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realização somente da redação. Inscreva-se <a href="http://www.unisinos.br/vestibular/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=29">aqui</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/29/2006 11:29:45 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIM</b><br />Arte de Allen Jones<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_192850.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.openeyegallery.co.uk/images/58ac1d190374f7181be34963c4572d88.jpg"><br /><br /><i>"Prezado Fabrício, <br /><br />Seus préstimos me foram muitíssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a questão que passo a expor.<br /><br />Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abraços dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.<br /><br />A ex-mulher dele tem criado inúmeros problemas com os filhos. <br /><br />Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele estão ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois não vão à nossa casa, negam-se a me conhecer.<br /><br />Além disso, é incrível a rejeição social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que não se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhecíamos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles não querem a presença dele.<br /><br />Disso tudo parece que sou uma pessoa execrável, mas isso não é verdade. Eu trabalho duro, venho de uma família decente, cuido das minhas filhas. O único "pecado" que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam até apreço e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.<br /><br />Além de tudo isso (falatório, problemas com filhos e rejeição de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E não aceito, até hoje, saber que ele, durante o período em que já estávamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.<br /><br />Houve coisas, Fabrício, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.<br /><br />Eu não aceito isso, não sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confusão que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, não tenho paz!<br /><br />Um abraço,<br /><br />Silvia"</i><br /><br />Olá, Sílvia!<br /><br />Revolto-me com mães que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separação. Que abusam da inocência das crianças para gerar ressentimento. Que não são capazes de separar a maternidade da filiação, a paternidade da responsabilidade com os filhos.<br /><br />Vamos por partes, com calma. <br /><br />Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no início do relacionamento, mas não significa que roubou o marido de ninguém. Ele se deu a você. Ele permitiu que você entrasse na identidade dele. A sedução e a escolha foram mútuas. <br /><br />Portanto, ele deve defendê-la de toda e qualquer rejeição.Não lamentar apenas as cisões, e sim mostrar aos filhos quem é a sua nova mulher, abrir espaço, salvaguardá-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, não o contrário. <br /><br />Posso garantir: não destruiu a família dele, ampliou a família. Existem suas crianças e as crianças dele. É uma nova relação de força e aproximação. <br /><br />Se os amigos se afastam, ele também precisa se afastar dos amigos e não ir a compromissos que excluam o casal. Isso é ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confiança e a possibilidade de convivência. Ele não pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, porém determinado e taxativo. <br /><br />Indigno é alguém que não luta por seu amor, mesmo que as circunstâncias sejam desfavoráveis. <br /><br />É natural que se veja sufocada de culpa. Está asfixiada de cobranças, sem encontrar saída para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confusão não lhe dará paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convicção. <br /><br />Não é ele que está empregando o pretexto dos filhos para não sair de perto da ex-mulher? Faço uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele não está discordando. <br /><br />Será que o constrangimento não parte do seu marido? Não pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos demônios do passado. <br /><br />Pense bem: quando você se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de família? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha não existe com você. Terão que criar uma outra vida juntos.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIM</b><br />Arte de Allen Jones<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_192850.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.openeyegallery.co.uk/images/58ac1d190374f7181be34963c4572d88.jpg"><br /><br /><i>"Prezado Fabrício, <br /><br />Seus préstimos me foram muitíssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a questão que passo a expor.<br /><br />Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abraços dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.<br /><br />A ex-mulher dele tem criado inúmeros problemas com os filhos. <br /><br />Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele estão ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois não vão à nossa casa, negam-se a me conhecer.<br /><br />Além disso, é incrível a rejeição social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que não se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhecíamos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles não querem a presença dele.<br /><br />Disso tudo parece que sou uma pessoa execrável, mas isso não é verdade. Eu trabalho duro, venho de uma família decente, cuido das minhas filhas. O único "pecado" que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam até apreço e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.<br /><br />Além de tudo isso (falatório, problemas com filhos e rejeição de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E não aceito, até hoje, saber que ele, durante o período em que já estávamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.<br /><br />Houve coisas, Fabrício, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.<br /><br />Eu não aceito isso, não sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confusão que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, não tenho paz!<br /><br />Um abraço,<br /><br />Silvia"</i><br /><br />Olá, Sílvia!<br /><br />Revolto-me com mães que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separação. Que abusam da inocência das crianças para gerar ressentimento. Que não são capazes de separar a maternidade da filiação, a paternidade da responsabilidade com os filhos.<br /><br />Vamos por partes, com calma. <br /><br />Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no início do relacionamento, mas não significa que roubou o marido de ninguém. Ele se deu a você. Ele permitiu que você entrasse na identidade dele. A sedução e a escolha foram mútuas. <br /><br />Portanto, ele deve defendê-la de toda e qualquer rejeição.Não lamentar apenas as cisões, e sim mostrar aos filhos quem é a sua nova mulher, abrir espaço, salvaguardá-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, não o contrário. <br /><br />Posso garantir: não destruiu a família dele, ampliou a família. Existem suas crianças e as crianças dele. É uma nova relação de força e aproximação. <br /><br />Se os amigos se afastam, ele também precisa se afastar dos amigos e não ir a compromissos que excluam o casal. Isso é ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confiança e a possibilidade de convivência. Ele não pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, porém determinado e taxativo. <br /><br />Indigno é alguém que não luta por seu amor, mesmo que as circunstâncias sejam desfavoráveis. <br /><br />É natural que se veja sufocada de culpa. Está asfixiada de cobranças, sem encontrar saída para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confusão não lhe dará paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convicção. <br /><br />Não é ele que está empregando o pretexto dos filhos para não sair de perto da ex-mulher? Faço uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele não está discordando. <br /><br />Será que o constrangimento não parte do seu marido? Não pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos demônios do passado. <br /><br />Pense bem: quando você se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de família? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha não existe com você. Terão que criar uma outra vida juntos.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIM</b><br />Arte de Allen Jones<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_192850.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.openeyegallery.co.uk/images/58ac1d190374f7181be34963c4572d88.jpg"><br /><br /><i>"Prezado Fabrício, <br /><br />Seus préstimos me foram muitíssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a questão que passo a expor.<br /><br />Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abraços dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.<br /><br />A ex-mulher dele tem criado inúmeros problemas com os filhos. <br /><br />Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele estão ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois não vão à nossa casa, negam-se a me conhecer.<br /><br />Além disso, é incrível a rejeição social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que não se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhecíamos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles não querem a presença dele.<br /><br />Disso tudo parece que sou uma pessoa execrável, mas isso não é verdade. Eu trabalho duro, venho de uma família decente, cuido das minhas filhas. O único "pecado" que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam até apreço e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.<br /><br />Além de tudo isso (falatório, problemas com filhos e rejeição de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E não aceito, até hoje, saber que ele, durante o período em que já estávamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.<br /><br />Houve coisas, Fabrício, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.<br /><br />Eu não aceito isso, não sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confusão que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, não tenho paz!<br /><br />Um abraço,<br /><br />Silvia"</i><br /><br />Olá, Sílvia!<br /><br />Revolto-me com mães que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separação. Que abusam da inocência das crianças para gerar ressentimento. Que não são capazes de separar a maternidade da filiação, a paternidade da responsabilidade com os filhos.<br /><br />Vamos por partes, com calma. <br /><br />Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no início do relacionamento, mas não significa que roubou o marido de ninguém. Ele se deu a você. Ele permitiu que você entrasse na identidade dele. A sedução e a escolha foram mútuas. <br /><br />Portanto, ele deve defendê-la de toda e qualquer rejeição.Não lamentar apenas as cisões, e sim mostrar aos filhos quem é a sua nova mulher, abrir espaço, salvaguardá-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, não o contrário. <br /><br />Posso garantir: não destruiu a família dele, ampliou a família. Existem suas crianças e as crianças dele. É uma nova relação de força e aproximação. <br /><br />Se os amigos se afastam, ele também precisa se afastar dos amigos e não ir a compromissos que excluam o casal. Isso é ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confiança e a possibilidade de convivência. Ele não pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, porém determinado e taxativo. <br /><br />Indigno é alguém que não luta por seu amor, mesmo que as circunstâncias sejam desfavoráveis. <br /><br />É natural que se veja sufocada de culpa. Está asfixiada de cobranças, sem encontrar saída para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confusão não lhe dará paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convicção. <br /><br />Não é ele que está empregando o pretexto dos filhos para não sair de perto da ex-mulher? Faço uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele não está discordando. <br /><br />Será que o constrangimento não parte do seu marido? Não pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos demônios do passado. <br /><br />Pense bem: quando você se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de família? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha não existe com você. Terão que criar uma outra vida juntos.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/24/2006 09:44:24 PM</pubDate>
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<title><b>FRANQUEZA PARA MACHUCAR</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.liverpoolmuseums.org.uk/walker/collections/20c/graphics/large/jones.jpg"><br /><br />Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça. <br /><br />Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades. <br /><br />Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa. <br /><br />Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. <br /><br />Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça. <br /><br />Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte. <br /><br />Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo. <br /><br />Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. <br /><br />Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque. <br /><br />Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores. <br /><br />Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. <br /><br />Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. <br /><br />Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos: <br />- Ainda tem uma barriguinha. <br /><br />Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão. <br /><br />Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.<br />- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.  <br />- Melhor ficar parado, ela diz, categórica.  <br />A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras. <br /><br />Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar. <br /><br />Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. <br /><br />Intimidade é gentileza. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FRANQUEZA PARA MACHUCAR</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.liverpoolmuseums.org.uk/walker/collections/20c/graphics/large/jones.jpg"><br /><br />Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça. <br /><br />Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades. <br /><br />Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa. <br /><br />Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. <br /><br />Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça. <br /><br />Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte. <br /><br />Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo. <br /><br />Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. <br /><br />Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque. <br /><br />Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores. <br /><br />Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. <br /><br />Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. <br /><br />Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos: <br />- Ainda tem uma barriguinha. <br /><br />Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão. <br /><br />Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.<br />- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.  <br />- Melhor ficar parado, ela diz, categórica.  <br />A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras. <br /><br />Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar. <br /><br />Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. <br /><br />Intimidade é gentileza. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FRANQUEZA PARA MACHUCAR</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.liverpoolmuseums.org.uk/walker/collections/20c/graphics/large/jones.jpg"><br /><br />Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça. <br /><br />Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades. <br /><br />Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa. <br /><br />Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. <br /><br />Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça. <br /><br />Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte. <br /><br />Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo. <br /><br />Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. <br /><br />Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque. <br /><br />Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores. <br /><br />Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. <br /><br />Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. <br /><br />Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos: <br />- Ainda tem uma barriguinha. <br /><br />Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão. <br /><br />Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.<br />- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.  <br />- Melhor ficar parado, ela diz, categórica.  <br />A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras. <br /><br />Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar. <br /><br />Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. <br /><br />Intimidade é gentileza. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>11/24/2006 10:56:32 AM</pubDate>
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<title><img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/11/img_foto1150.jpg"><br /><br /><br />É neste <b>domingo (26/11)</b>, a <b>partir das 15h</b>, o lançamento de meu livro infantil <a href="http://www.girafinha.com.br/girafinha/site/">"Filhote de cruz-credo" (Girafa)</a>, ilustrado pelo amigo <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>. Será na <b>Fnac Pinheiro (Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros)</b>, em <b>São Paulo</b>. A atriz Kiara Terra, do grupo <i>História Aberta</i>, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha infância espera por vocês. <br /> <br />A sessão de autógrafos de Porto Alegre (RS) está prevista para <b>16/12</b>, às <b>17h</b>, na <b>Livraria do Arvoredo</b> (Rua Felix da Cunha, 1213).<br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/11/img_foto1150.jpg"><br /><br /><br />É neste <b>domingo (26/11)</b>, a <b>partir das 15h</b>, o lançamento de meu livro infantil <a href="http://www.girafinha.com.br/girafinha/site/">"Filhote de cruz-credo" (Girafa)</a>, ilustrado pelo amigo <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>. Será na <b>Fnac Pinheiro (Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros)</b>, em <b>São Paulo</b>. A atriz Kiara Terra, do grupo <i>História Aberta</i>, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha infância espera por vocês. <br /> <br />A sessão de autógrafos de Porto Alegre (RS) está prevista para <b>16/12</b>, às <b>17h</b>, na <b>Livraria do Arvoredo</b> (Rua Felix da Cunha, 1213).<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/11/img_foto1150.jpg"><br /><br /><br />É neste <b>domingo (26/11)</b>, a <b>partir das 15h</b>, o lançamento de meu livro infantil <a href="http://www.girafinha.com.br/girafinha/site/">"Filhote de cruz-credo" (Girafa)</a>, ilustrado pelo amigo <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>. Será na <b>Fnac Pinheiro (Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros)</b>, em <b>São Paulo</b>. A atriz Kiara Terra, do grupo <i>História Aberta</i>, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha infância espera por vocês. <br /> <br />A sessão de autógrafos de Porto Alegre (RS) está prevista para <b>16/12</b>, às <b>17h</b>, na <b>Livraria do Arvoredo</b> (Rua Felix da Cunha, 1213).<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>11/24/2006 08:02:23 AM</pubDate>
</item>

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<title><b>DESABAFO</b><br />Pintura de Allen Jones<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://barquisimeto.intercable.net.ve/racely/jones-allen.jpg"><br /><br />Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele?<br /><br />Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir. <br /><br />É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade.<br /><br />Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro. <br /><br />Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. <br /><br />Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.<br /><br />Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto. <br /><br />Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele. <br /><br />O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. <br /><br />Amor nunca dirá: <i>que os outros se danem</i>. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos. <br /><br />Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.<br /><br />Não confie nisso que chamam de paixão. Não é amor.  É uma maneira certa de nunca chegar a ele. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DESABAFO</b><br />Pintura de Allen Jones<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://barquisimeto.intercable.net.ve/racely/jones-allen.jpg"><br /><br />Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele?<br /><br />Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir. <br /><br />É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade.<br /><br />Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro. <br /><br />Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. <br /><br />Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.<br /><br />Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto. <br /><br />Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele. <br /><br />O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. <br /><br />Amor nunca dirá: <i>que os outros se danem</i>. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos. <br /><br />Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.<br /><br />Não confie nisso que chamam de paixão. Não é amor.  É uma maneira certa de nunca chegar a ele. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DESABAFO</b><br />Pintura de Allen Jones<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://barquisimeto.intercable.net.ve/racely/jones-allen.jpg"><br /><br />Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele?<br /><br />Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir. <br /><br />É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade.<br /><br />Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro. <br /><br />Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. <br /><br />Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.<br /><br />Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto. <br /><br />Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele. <br /><br />O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. <br /><br />Amor nunca dirá: <i>que os outros se danem</i>. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos. <br /><br />Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.<br /><br />Não confie nisso que chamam de paixão. Não é amor.  É uma maneira certa de nunca chegar a ele. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>11/22/2006 08:51:58 PM</pubDate>
</item>

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<title><b>LANCHERIA CAFÉ DA MANHÃ</b><br />Pintura de Emil Nolde<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dentist.dk/nolde/storpix/6767.jpg"><br /><br />Quando não tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas às rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. <br /><br />Vou comprar frutas, mais lento. Tenho dó das que estão estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que não me junto a elas. Presto atenção às palavras do cobrador de ônibus, como se ele fosse uma mensageiro involuntário. Estou sempre esperando uma senha, um símbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, árvores. <br /><br />Qualquer aparição faz sentido: um cão estranho lambendo minha mão, um gato olhando para trás na linha dos muros, um pássaro que atravessa as janelas de casa por dentro. <br /><br />Os olhos se embaralham em cartas de tarô. Fio-me na adivinhação e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. <br /><br />Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. Não é a residência materna, como era de se esperar. É o boteco <i>Café da Manhã</i>, que não muda seu cardápio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balcão. Nada de mesas, nada de observar as calçadas no mesmo nível. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimentação dos atendentes. Sou um solitário acompanhado. Um solitário acompanhado de solitários em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou não, vejo-me como um guarda-chuva. É fácil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali não!: sou um chapéu que não perde a forma e não se mistura com os demais nos ganchos.<br /><br />Peço um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos são os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: é isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. <br /><br />Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e não deixei de freqüentar. É minha igreja, meu confessionário. Estou em paz - prevejo o que acontecerá nos próximos minutos. O suco não vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio até as bordas. Posso me servir do próprio cansaço da polpa. <br /><br />Só dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes não envelhecem, não há como riscá-las e diminuí-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que não cresci. <br /><br />Pago R$ 6 para reencontrar a minha solidão. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>LANCHERIA CAFÉ DA MANHÃ</b><br />Pintura de Emil Nolde<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dentist.dk/nolde/storpix/6767.jpg"><br /><br />Quando não tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas às rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. <br /><br />Vou comprar frutas, mais lento. Tenho dó das que estão estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que não me junto a elas. Presto atenção às palavras do cobrador de ônibus, como se ele fosse uma mensageiro involuntário. Estou sempre esperando uma senha, um símbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, árvores. <br /><br />Qualquer aparição faz sentido: um cão estranho lambendo minha mão, um gato olhando para trás na linha dos muros, um pássaro que atravessa as janelas de casa por dentro. <br /><br />Os olhos se embaralham em cartas de tarô. Fio-me na adivinhação e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. <br /><br />Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. Não é a residência materna, como era de se esperar. É o boteco <i>Café da Manhã</i>, que não muda seu cardápio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balcão. Nada de mesas, nada de observar as calçadas no mesmo nível. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimentação dos atendentes. Sou um solitário acompanhado. Um solitário acompanhado de solitários em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou não, vejo-me como um guarda-chuva. É fácil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali não!: sou um chapéu que não perde a forma e não se mistura com os demais nos ganchos.<br /><br />Peço um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos são os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: é isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. <br /><br />Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e não deixei de freqüentar. É minha igreja, meu confessionário. Estou em paz - prevejo o que acontecerá nos próximos minutos. O suco não vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio até as bordas. Posso me servir do próprio cansaço da polpa. <br /><br />Só dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes não envelhecem, não há como riscá-las e diminuí-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que não cresci. <br /><br />Pago R$ 6 para reencontrar a minha solidão. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>LANCHERIA CAFÉ DA MANHÃ</b><br />Pintura de Emil Nolde<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dentist.dk/nolde/storpix/6767.jpg"><br /><br />Quando não tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas às rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. <br /><br />Vou comprar frutas, mais lento. Tenho dó das que estão estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que não me junto a elas. Presto atenção às palavras do cobrador de ônibus, como se ele fosse uma mensageiro involuntário. Estou sempre esperando uma senha, um símbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, árvores. <br /><br />Qualquer aparição faz sentido: um cão estranho lambendo minha mão, um gato olhando para trás na linha dos muros, um pássaro que atravessa as janelas de casa por dentro. <br /><br />Os olhos se embaralham em cartas de tarô. Fio-me na adivinhação e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. <br /><br />Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. Não é a residência materna, como era de se esperar. É o boteco <i>Café da Manhã</i>, que não muda seu cardápio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balcão. Nada de mesas, nada de observar as calçadas no mesmo nível. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimentação dos atendentes. Sou um solitário acompanhado. Um solitário acompanhado de solitários em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou não, vejo-me como um guarda-chuva. É fácil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali não!: sou um chapéu que não perde a forma e não se mistura com os demais nos ganchos.<br /><br />Peço um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos são os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: é isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. <br /><br />Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e não deixei de freqüentar. É minha igreja, meu confessionário. Estou em paz - prevejo o que acontecerá nos próximos minutos. O suco não vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio até as bordas. Posso me servir do próprio cansaço da polpa. <br /><br />Só dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes não envelhecem, não há como riscá-las e diminuí-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que não cresci. <br /><br />Pago R$ 6 para reencontrar a minha solidão. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39204581</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/22/2006 10:18:16 AM</pubDate>
</item>

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<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIM</b><br />Colagem de Jean Dubuffet <br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_190540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.hu/budapest/ludwig/images/0047_t2397_maxi.jpg"><br /><br /><i>"Oie, Carpinejar! Tudo bom?<br /><br />A sua fama de conselheiro amoroso está chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, peço seus conselhos para este coração sofredor.<br /><br />Minha história começa praticamente há um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. <br /><br />Ela, psicóloga, 23 anos na época. Começamos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paixão à primeira vista. <br /><br />Ela não queria nada sério. Tive de ficar numa marcação cerrada durante um mês e meio, colocando idéias na cabeça dela de que era melhor assumir o namoro. Na véspera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente já não assumia o namoro. Dito e feito: começamos a namorar naquela data festiva. Foi um ótimo presente, já que eu estava praticamente há dois anos sem um namoro sério, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. <br /><br />Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.<br /><br />A gente gosta praticamente das mesmas coisas, dividíamos os mesmos sonhos. Eu estava no começo de carreira em engenharia, ela também estava no começo de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que tínhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que estávamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-relâmpago, que a família dela não aceitava. No meu caso, a família dela me adorava. <br /><br />Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela.<br /><br />Começamos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela é de Áries e eu, de Escorpião. É briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu também não nego fogo. Se eu tinha alguma discussão no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde começou. Se fosse tão simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discussão feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo até o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, começa a minha aflição. <br /><br />Eu começo a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha já praticamente desistido dela. Há três domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu não pedi a chance de tentar reconquistá-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha única rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'Não sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de você, mas não sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na terça, mandei flores para ela. Ela não ligou de imediato para mim, mas também não estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha carência afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que está com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Também não posso te negar que estou na mesma situação que ela, já que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para não ficar uma coisa mais séria. <br /><br />Cara! Juro a você: não sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de você, mas ainda assim fica com outro? Será que é isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou não? Cara... Preciso dos seus conselhos com urgência! <br /><br />SOCORRO!<br /><br />Abraços,<br /><br />Rubens"</i><br /><br />Nossa, Rubens, quanto sofrimento à toa. <br /><br />Eu não aconselho afirmar que é a mulher de sua vida, faz um depósito exagerado na relação. O certo é chamá-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de várias fases de sua vida, tanto melhor. <br /><br />Iniciou o namoro no papel submisso e não houve mudança de postura. É sempre o que vai atrás, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela é quem manda e desmanda, define a direção e o curso da história. Deveria ter ocorrido alguma inversão de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas razões. Corre no encalço dela como um louco e sua lâmina desorientada de palavras. Viraste um grude, que é o personagem mais abominado pela história feminina de todos os tempos. Aceitável sacrificar o orgulho por um amor, mas não a inteligência da sedução e a autonomia. <br /><br />Desperdiça energia à toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: "namoricos fajutos", "tapar um buraco de minha carência afetiva", etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. <br /><br />Não é mais paixão, é sadismo. Digo mais: vocês criaram uma atração de gato-rato, uma fixação pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beijá-lo, mais você a quer. Não é romance, e sim uma relação de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decisões; o poder é charme, é posse, é sexual. Não acho que ele o ama ainda... O que identifico é tortura. <br /><br />Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: "Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela".Desde quando o número de mulheres que amou significa que tem ou não domínio? Um dedo com aliança pode superar uma mão de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e não encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona só para carro. Corpo é qualidade. <br /><br />Eu desencanaria para salvar a estima. É ela que necessita reconquistá-lo, não o contrário. Deixaria que ela sofresse um pouco. Não necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIM</b><br />Colagem de Jean Dubuffet <br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_190540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.hu/budapest/ludwig/images/0047_t2397_maxi.jpg"><br /><br /><i>"Oie, Carpinejar! Tudo bom?<br /><br />A sua fama de conselheiro amoroso está chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, peço seus conselhos para este coração sofredor.<br /><br />Minha história começa praticamente há um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. <br /><br />Ela, psicóloga, 23 anos na época. Começamos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paixão à primeira vista. <br /><br />Ela não queria nada sério. Tive de ficar numa marcação cerrada durante um mês e meio, colocando idéias na cabeça dela de que era melhor assumir o namoro. Na véspera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente já não assumia o namoro. Dito e feito: começamos a namorar naquela data festiva. Foi um ótimo presente, já que eu estava praticamente há dois anos sem um namoro sério, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. <br /><br />Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.<br /><br />A gente gosta praticamente das mesmas coisas, dividíamos os mesmos sonhos. Eu estava no começo de carreira em engenharia, ela também estava no começo de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que tínhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que estávamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-relâmpago, que a família dela não aceitava. No meu caso, a família dela me adorava. <br /><br />Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela.<br /><br />Começamos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela é de Áries e eu, de Escorpião. É briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu também não nego fogo. Se eu tinha alguma discussão no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde começou. Se fosse tão simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discussão feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo até o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, começa a minha aflição. <br /><br />Eu começo a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha já praticamente desistido dela. Há três domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu não pedi a chance de tentar reconquistá-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha única rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'Não sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de você, mas não sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na terça, mandei flores para ela. Ela não ligou de imediato para mim, mas também não estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha carência afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que está com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Também não posso te negar que estou na mesma situação que ela, já que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para não ficar uma coisa mais séria. <br /><br />Cara! Juro a você: não sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de você, mas ainda assim fica com outro? Será que é isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou não? Cara... Preciso dos seus conselhos com urgência! <br /><br />SOCORRO!<br /><br />Abraços,<br /><br />Rubens"</i><br /><br />Nossa, Rubens, quanto sofrimento à toa. <br /><br />Eu não aconselho afirmar que é a mulher de sua vida, faz um depósito exagerado na relação. O certo é chamá-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de várias fases de sua vida, tanto melhor. <br /><br />Iniciou o namoro no papel submisso e não houve mudança de postura. É sempre o que vai atrás, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela é quem manda e desmanda, define a direção e o curso da história. Deveria ter ocorrido alguma inversão de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas razões. Corre no encalço dela como um louco e sua lâmina desorientada de palavras. Viraste um grude, que é o personagem mais abominado pela história feminina de todos os tempos. Aceitável sacrificar o orgulho por um amor, mas não a inteligência da sedução e a autonomia. <br /><br />Desperdiça energia à toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: "namoricos fajutos", "tapar um buraco de minha carência afetiva", etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. <br /><br />Não é mais paixão, é sadismo. Digo mais: vocês criaram uma atração de gato-rato, uma fixação pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beijá-lo, mais você a quer. Não é romance, e sim uma relação de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decisões; o poder é charme, é posse, é sexual. Não acho que ele o ama ainda... O que identifico é tortura. <br /><br />Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: "Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela".Desde quando o número de mulheres que amou significa que tem ou não domínio? Um dedo com aliança pode superar uma mão de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e não encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona só para carro. Corpo é qualidade. <br /><br />Eu desencanaria para salvar a estima. É ela que necessita reconquistá-lo, não o contrário. Deixaria que ela sofresse um pouco. Não necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIM</b><br />Colagem de Jean Dubuffet <br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_190540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.hu/budapest/ludwig/images/0047_t2397_maxi.jpg"><br /><br /><i>"Oie, Carpinejar! Tudo bom?<br /><br />A sua fama de conselheiro amoroso está chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, peço seus conselhos para este coração sofredor.<br /><br />Minha história começa praticamente há um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. <br /><br />Ela, psicóloga, 23 anos na época. Começamos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paixão à primeira vista. <br /><br />Ela não queria nada sério. Tive de ficar numa marcação cerrada durante um mês e meio, colocando idéias na cabeça dela de que era melhor assumir o namoro. Na véspera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente já não assumia o namoro. Dito e feito: começamos a namorar naquela data festiva. Foi um ótimo presente, já que eu estava praticamente há dois anos sem um namoro sério, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. <br /><br />Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.<br /><br />A gente gosta praticamente das mesmas coisas, dividíamos os mesmos sonhos. Eu estava no começo de carreira em engenharia, ela também estava no começo de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que tínhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que estávamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-relâmpago, que a família dela não aceitava. No meu caso, a família dela me adorava. <br /><br />Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela.<br /><br />Começamos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela é de Áries e eu, de Escorpião. É briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu também não nego fogo. Se eu tinha alguma discussão no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde começou. Se fosse tão simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discussão feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo até o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, começa a minha aflição. <br /><br />Eu começo a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha já praticamente desistido dela. Há três domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu não pedi a chance de tentar reconquistá-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha única rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'Não sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de você, mas não sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na terça, mandei flores para ela. Ela não ligou de imediato para mim, mas também não estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha carência afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que está com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Também não posso te negar que estou na mesma situação que ela, já que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para não ficar uma coisa mais séria. <br /><br />Cara! Juro a você: não sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de você, mas ainda assim fica com outro? Será que é isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou não? Cara... Preciso dos seus conselhos com urgência! <br /><br />SOCORRO!<br /><br />Abraços,<br /><br />Rubens"</i><br /><br />Nossa, Rubens, quanto sofrimento à toa. <br /><br />Eu não aconselho afirmar que é a mulher de sua vida, faz um depósito exagerado na relação. O certo é chamá-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de várias fases de sua vida, tanto melhor. <br /><br />Iniciou o namoro no papel submisso e não houve mudança de postura. É sempre o que vai atrás, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela é quem manda e desmanda, define a direção e o curso da história. Deveria ter ocorrido alguma inversão de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas razões. Corre no encalço dela como um louco e sua lâmina desorientada de palavras. Viraste um grude, que é o personagem mais abominado pela história feminina de todos os tempos. Aceitável sacrificar o orgulho por um amor, mas não a inteligência da sedução e a autonomia. <br /><br />Desperdiça energia à toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: "namoricos fajutos", "tapar um buraco de minha carência afetiva", etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. <br /><br />Não é mais paixão, é sadismo. Digo mais: vocês criaram uma atração de gato-rato, uma fixação pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beijá-lo, mais você a quer. Não é romance, e sim uma relação de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decisões; o poder é charme, é posse, é sexual. Não acho que ele o ama ainda... O que identifico é tortura. <br /><br />Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: "Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela".Desde quando o número de mulheres que amou significa que tem ou não domínio? Um dedo com aliança pode superar uma mão de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e não encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona só para carro. Corpo é qualidade. <br /><br />Eu desencanaria para salvar a estima. É ela que necessita reconquistá-lo, não o contrário. Deixaria que ela sofresse um pouco. Não necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39194348</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/18/2006 09:33:56 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>VELHO-DO-SACO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.veredart.com/vered_artist_index_images/dubuffet_page_images/DUBUFFET,-JEAN.jpg"><br /><br />Tremia de horror do Velho-do-saco. <br /><br />O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclopédia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, não funcionava o aviãozinho. Se não desejava comer, alguém inventava de apertar a campainha e meu estômago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A mãe suspirava diante da mudança de atitude. <br /><br />O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava.<br /><br /> - Crianças, ora bolas!<br /><br />A mãe respondia a seco, sem o mínimo de complacência. Atitude esquisita para quem se mostrava sensível e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manhã na igreja. Demonstrava indiferença com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  <br /><br />O Velho-do-saco foi o primeiro seqüestrador que eu tive conhecimento. Sonhei várias vezes com ele e ainda desfruto de condições de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? <br /><br />Ele se parece com todo mundo, por isso é o Velho-do-saco. Ele se disfarça dele mesmo, o que deveria confundir a localização pela polícia. Agiu impunemente durante a infância inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda não aconteceu. Fui uma criança que acompanhava o noticiário policial. Não pude constatar os efeitos colaterais desse hábito precoce. <br /><br />O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bagé com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua ausência de binóculo. <br /><br />De noite, os irmãos lembravam comigo das escalações dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obrigação noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o silêncio era o único jeito de enganá-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respiração e os dentes do coração mastigando o ar. Os dentes tortos do coração. Os dentes de leite do coração que nunca cederam lugar aos permanentes. <br /><br />Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.<br /><br />Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no armário, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. <br /><br />Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engraçada: <i>Vicente tem medo de aula de capoeira</i>. <br /><br />É um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>VELHO-DO-SACO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.veredart.com/vered_artist_index_images/dubuffet_page_images/DUBUFFET,-JEAN.jpg"><br /><br />Tremia de horror do Velho-do-saco. <br /><br />O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclopédia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, não funcionava o aviãozinho. Se não desejava comer, alguém inventava de apertar a campainha e meu estômago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A mãe suspirava diante da mudança de atitude. <br /><br />O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava.<br /><br /> - Crianças, ora bolas!<br /><br />A mãe respondia a seco, sem o mínimo de complacência. Atitude esquisita para quem se mostrava sensível e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manhã na igreja. Demonstrava indiferença com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  <br /><br />O Velho-do-saco foi o primeiro seqüestrador que eu tive conhecimento. Sonhei várias vezes com ele e ainda desfruto de condições de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? <br /><br />Ele se parece com todo mundo, por isso é o Velho-do-saco. Ele se disfarça dele mesmo, o que deveria confundir a localização pela polícia. Agiu impunemente durante a infância inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda não aconteceu. Fui uma criança que acompanhava o noticiário policial. Não pude constatar os efeitos colaterais desse hábito precoce. <br /><br />O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bagé com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua ausência de binóculo. <br /><br />De noite, os irmãos lembravam comigo das escalações dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obrigação noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o silêncio era o único jeito de enganá-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respiração e os dentes do coração mastigando o ar. Os dentes tortos do coração. Os dentes de leite do coração que nunca cederam lugar aos permanentes. <br /><br />Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.<br /><br />Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no armário, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. <br /><br />Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engraçada: <i>Vicente tem medo de aula de capoeira</i>. <br /><br />É um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>VELHO-DO-SACO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.veredart.com/vered_artist_index_images/dubuffet_page_images/DUBUFFET,-JEAN.jpg"><br /><br />Tremia de horror do Velho-do-saco. <br /><br />O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclopédia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, não funcionava o aviãozinho. Se não desejava comer, alguém inventava de apertar a campainha e meu estômago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A mãe suspirava diante da mudança de atitude. <br /><br />O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava.<br /><br /> - Crianças, ora bolas!<br /><br />A mãe respondia a seco, sem o mínimo de complacência. Atitude esquisita para quem se mostrava sensível e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manhã na igreja. Demonstrava indiferença com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  <br /><br />O Velho-do-saco foi o primeiro seqüestrador que eu tive conhecimento. Sonhei várias vezes com ele e ainda desfruto de condições de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? <br /><br />Ele se parece com todo mundo, por isso é o Velho-do-saco. Ele se disfarça dele mesmo, o que deveria confundir a localização pela polícia. Agiu impunemente durante a infância inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda não aconteceu. Fui uma criança que acompanhava o noticiário policial. Não pude constatar os efeitos colaterais desse hábito precoce. <br /><br />O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bagé com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua ausência de binóculo. <br /><br />De noite, os irmãos lembravam comigo das escalações dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obrigação noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o silêncio era o único jeito de enganá-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respiração e os dentes do coração mastigando o ar. Os dentes tortos do coração. Os dentes de leite do coração que nunca cederam lugar aos permanentes. <br /><br />Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.<br /><br />Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no armário, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. <br /><br />Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engraçada: <i>Vicente tem medo de aula de capoeira</i>. <br /><br />É um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>11/16/2006 09:51:46 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SERÁ QUE TE CONHEÇO?</b><br />Arte de Marisol Escobar<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.colorado.edu/cuartmuseum/images/3_101.jpg"><br /><br />Não diga a uma mulher: "eu te conheço". Conhecendo há tempo ou recém conhecendo. É tudo o que uma mulher não precisa ouvir. <br /><br />Imagino que não é por mal. Que diz: "eu te conheço", como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. "Eu te conheço" não é para ofender, mas ofende. Não se guarda uma mulher na memória, uma mulher se guarda no desejo. <br /><br />"Eu te conheço" parece que é um sinal de continuidade e permanência. O homem expressa sua preocupação em fixá-la, não perder de vista, acompanhá-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas características. Funciona como uma bóia, uma bengala, um apoio. <br /> <br />Apesar disso, não diga. Morra afogado, mas não diga. Caia no silêncio, mas não diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no convívio do trabalho. Morda a língua, não diga. Cerre os dentes, não diga. Dito uma vez virá sempre poluir a boca. <br /><br />"Eu te conheço" significa que ela está se repetindo. A mulher não se repete, ela apenas não terminou o assunto. <br /><br />Significa que ela está esgotada de mistérios. Sem mistério, não há vontade de descobrir mais. <br /><br />Significa que ela é previsível, soa como uma censura e advertência de que ela está fazendo sempre igual. <br /><br />Significa que ela não tem mais nada a acrescentar. Que não é surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. <br /><br />"Eu te conheço" não é o fim do amor, é o desamor. Uma obediência à fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intuição e o inesperado. O casal faz tão-somente mímica entre si. <br /><br />"Eu te conheço" é encerrar alguém dentro de uma imagem, de uma projeção, de uma expectativa. É ter a lembrança do corpo ao invés do corpo. <br /><br />"Eu te conheço" é covarde. É desistir da sedução, abandonar a cintura. <br /><br />Não a conheça, desconheça sua mulher com toda a convicção. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da mão nos cabelos. <br /><br />"Eu te conheço" torna qualquer pergunta depois desnecessária. <br /><br />Não se defenda com "eu te conheço", desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. <br /><br />"Eu te conheço" traz segurança e conforto, não a verdade, a verdade muda de idéia a cada gesto.<br /><br />Pensaria muito antes de dizer "eu te conheço". Pensaria uma vida. <br /><br />"Eu te conheço" é arrogância de saber mais do que o próprio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>SERÁ QUE TE CONHEÇO?</b><br />Arte de Marisol Escobar<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.colorado.edu/cuartmuseum/images/3_101.jpg"><br /><br />Não diga a uma mulher: "eu te conheço". Conhecendo há tempo ou recém conhecendo. É tudo o que uma mulher não precisa ouvir. <br /><br />Imagino que não é por mal. Que diz: "eu te conheço", como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. "Eu te conheço" não é para ofender, mas ofende. Não se guarda uma mulher na memória, uma mulher se guarda no desejo. <br /><br />"Eu te conheço" parece que é um sinal de continuidade e permanência. O homem expressa sua preocupação em fixá-la, não perder de vista, acompanhá-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas características. Funciona como uma bóia, uma bengala, um apoio. <br /> <br />Apesar disso, não diga. Morra afogado, mas não diga. Caia no silêncio, mas não diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no convívio do trabalho. Morda a língua, não diga. Cerre os dentes, não diga. Dito uma vez virá sempre poluir a boca. <br /><br />"Eu te conheço" significa que ela está se repetindo. A mulher não se repete, ela apenas não terminou o assunto. <br /><br />Significa que ela está esgotada de mistérios. Sem mistério, não há vontade de descobrir mais. <br /><br />Significa que ela é previsível, soa como uma censura e advertência de que ela está fazendo sempre igual. <br /><br />Significa que ela não tem mais nada a acrescentar. Que não é surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. <br /><br />"Eu te conheço" não é o fim do amor, é o desamor. Uma obediência à fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intuição e o inesperado. O casal faz tão-somente mímica entre si. <br /><br />"Eu te conheço" é encerrar alguém dentro de uma imagem, de uma projeção, de uma expectativa. É ter a lembrança do corpo ao invés do corpo. <br /><br />"Eu te conheço" é covarde. É desistir da sedução, abandonar a cintura. <br /><br />Não a conheça, desconheça sua mulher com toda a convicção. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da mão nos cabelos. <br /><br />"Eu te conheço" torna qualquer pergunta depois desnecessária. <br /><br />Não se defenda com "eu te conheço", desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. <br /><br />"Eu te conheço" traz segurança e conforto, não a verdade, a verdade muda de idéia a cada gesto.<br /><br />Pensaria muito antes de dizer "eu te conheço". Pensaria uma vida. <br /><br />"Eu te conheço" é arrogância de saber mais do que o próprio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SERÁ QUE TE CONHEÇO?</b><br />Arte de Marisol Escobar<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.colorado.edu/cuartmuseum/images/3_101.jpg"><br /><br />Não diga a uma mulher: "eu te conheço". Conhecendo há tempo ou recém conhecendo. É tudo o que uma mulher não precisa ouvir. <br /><br />Imagino que não é por mal. Que diz: "eu te conheço", como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. "Eu te conheço" não é para ofender, mas ofende. Não se guarda uma mulher na memória, uma mulher se guarda no desejo. <br /><br />"Eu te conheço" parece que é um sinal de continuidade e permanência. O homem expressa sua preocupação em fixá-la, não perder de vista, acompanhá-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas características. Funciona como uma bóia, uma bengala, um apoio. <br /> <br />Apesar disso, não diga. Morra afogado, mas não diga. Caia no silêncio, mas não diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no convívio do trabalho. Morda a língua, não diga. Cerre os dentes, não diga. Dito uma vez virá sempre poluir a boca. <br /><br />"Eu te conheço" significa que ela está se repetindo. A mulher não se repete, ela apenas não terminou o assunto. <br /><br />Significa que ela está esgotada de mistérios. Sem mistério, não há vontade de descobrir mais. <br /><br />Significa que ela é previsível, soa como uma censura e advertência de que ela está fazendo sempre igual. <br /><br />Significa que ela não tem mais nada a acrescentar. Que não é surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. <br /><br />"Eu te conheço" não é o fim do amor, é o desamor. Uma obediência à fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intuição e o inesperado. O casal faz tão-somente mímica entre si. <br /><br />"Eu te conheço" é encerrar alguém dentro de uma imagem, de uma projeção, de uma expectativa. É ter a lembrança do corpo ao invés do corpo. <br /><br />"Eu te conheço" é covarde. É desistir da sedução, abandonar a cintura. <br /><br />Não a conheça, desconheça sua mulher com toda a convicção. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da mão nos cabelos. <br /><br />"Eu te conheço" torna qualquer pergunta depois desnecessária. <br /><br />Não se defenda com "eu te conheço", desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. <br /><br />"Eu te conheço" traz segurança e conforto, não a verdade, a verdade muda de idéia a cada gesto.<br /><br />Pensaria muito antes de dizer "eu te conheço". Pensaria uma vida. <br /><br />"Eu te conheço" é arrogância de saber mais do que o próprio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>11/14/2006 10:18:33 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SOU UM CARACTERE CHINÊS</b><br />Arte de Paul Klee <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><img src="http://www.lacasagiratoria.com/imagenes/2005/050809.jpg"><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><br />Na escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combinação. Apenas cinco são desenhos que geram a compreensão imediata. Os outros 20 mil são lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. <br /><br />A escrita chinesa é casada. Os ideogramas dormem juntos. <br /><br />Eu sou um caractere chinês. <br /><br />Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, romântico e incurável. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma única mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente crédulo. Já ouvi que sou ingênuo. Tentei ser ranzinza, cético e calhorda. Não funcionou, porque não me interessa a realidade, interessa-me se é possível. Sendo possível, insisto. <br /><br />Não sirvo para imitar. Não sirvo para emprestar, dou e não reclamo. Dou.<br /> <br />Sou dos homens o pior. O que não se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela não estiver em mim. <br /><br />Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilusão de estar casado. Minha voz é casada, meus braços são casados, minhas pernas são casadas. <br /><br />Sou tão casado que subestimo a separação. Separação não existe. O máximo que acontece é se afastar. Não há como apagar o que se avançou. Não há como riscar o caminho da boca. A boca não deixa pegadas. Não há como eliminar o que já faz parte do seu movimento, do seu caráter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se é observar de longe, não abandonar. <br /><br />Quem não é casado por dentro nunca será casado por fora. É uma escolha, não um estado civil. Um homem casado não depende de uma aliança para mostrar compromisso. Ele é a aliança.  <br /><br />Olho o céu com paciência. O azul não me cansa. Uma ave voando não significa que está partindo. Uma ave voando pode estar regressando. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>SOU UM CARACTERE CHINÊS</b><br />Arte de Paul Klee <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><img src="http://www.lacasagiratoria.com/imagenes/2005/050809.jpg"><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><br />Na escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combinação. Apenas cinco são desenhos que geram a compreensão imediata. Os outros 20 mil são lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. <br /><br />A escrita chinesa é casada. Os ideogramas dormem juntos. <br /><br />Eu sou um caractere chinês. <br /><br />Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, romântico e incurável. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma única mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente crédulo. Já ouvi que sou ingênuo. Tentei ser ranzinza, cético e calhorda. Não funcionou, porque não me interessa a realidade, interessa-me se é possível. Sendo possível, insisto. <br /><br />Não sirvo para imitar. Não sirvo para emprestar, dou e não reclamo. Dou.<br /> <br />Sou dos homens o pior. O que não se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela não estiver em mim. <br /><br />Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilusão de estar casado. Minha voz é casada, meus braços são casados, minhas pernas são casadas. <br /><br />Sou tão casado que subestimo a separação. Separação não existe. O máximo que acontece é se afastar. Não há como apagar o que se avançou. Não há como riscar o caminho da boca. A boca não deixa pegadas. Não há como eliminar o que já faz parte do seu movimento, do seu caráter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se é observar de longe, não abandonar. <br /><br />Quem não é casado por dentro nunca será casado por fora. É uma escolha, não um estado civil. Um homem casado não depende de uma aliança para mostrar compromisso. Ele é a aliança.  <br /><br />Olho o céu com paciência. O azul não me cansa. Uma ave voando não significa que está partindo. Uma ave voando pode estar regressando. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SOU UM CARACTERE CHINÊS</b><br />Arte de Paul Klee <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><img src="http://www.lacasagiratoria.com/imagenes/2005/050809.jpg"><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><br />Na escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combinação. Apenas cinco são desenhos que geram a compreensão imediata. Os outros 20 mil são lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. <br /><br />A escrita chinesa é casada. Os ideogramas dormem juntos. <br /><br />Eu sou um caractere chinês. <br /><br />Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, romântico e incurável. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma única mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente crédulo. Já ouvi que sou ingênuo. Tentei ser ranzinza, cético e calhorda. Não funcionou, porque não me interessa a realidade, interessa-me se é possível. Sendo possível, insisto. <br /><br />Não sirvo para imitar. Não sirvo para emprestar, dou e não reclamo. Dou.<br /> <br />Sou dos homens o pior. O que não se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela não estiver em mim. <br /><br />Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilusão de estar casado. Minha voz é casada, meus braços são casados, minhas pernas são casadas. <br /><br />Sou tão casado que subestimo a separação. Separação não existe. O máximo que acontece é se afastar. Não há como apagar o que se avançou. Não há como riscar o caminho da boca. A boca não deixa pegadas. Não há como eliminar o que já faz parte do seu movimento, do seu caráter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se é observar de longe, não abandonar. <br /><br />Quem não é casado por dentro nunca será casado por fora. É uma escolha, não um estado civil. Um homem casado não depende de uma aliança para mostrar compromisso. Ele é a aliança.  <br /><br />Olho o céu com paciência. O azul não me cansa. Uma ave voando não significa que está partindo. Uma ave voando pode estar regressando. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>11/13/2006 12:09:01 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br /><br /><img src="http://www.siblog.blogger.com.br/carpin5bx.jpg"><br /><br /><i>"Um apelido só fica se a gente não gosta. Quando se começa a brigar para não ter aquele apelido, aí sim as pessoas vão nos chamar daquele nome. A melhor tática para não ficar com um apelido que não se gosta é não revidar, não implicar e até aceitar. O apelido é do contra. <br /><br />Calçava botas ortopédicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os pés chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. <br /><br />As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. <br /><br />Naquele tempo, ninguém tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunferência. <br /><br />Confiava que jogava bem futebol, que as crianças saíam da minha frente porque não conseguiam alcançar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontapé da minha bota metálica e dentuça. Fazia gol, ninguém queria se machucar."</i><br /><br />Já chegou nas livrarias meu novo livro infantil: <b>Filhote de cruz-credo</b>, lançamento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustrações são de <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a história de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adaptação na escola. <br /><br /><b>A SESSÃO DE AUTÓGRAFOS SERÁ NA FNAC/PINHEIROS EM SÃO PAULO, no domingo (26/11), <b>a partir das 15h30</b>, com contação de histórias pela atriz Kiara Terra, do <i>História Aberta</i></b><br /><br /><i>FNAC - Espaço Infantil<br />Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros<br />São Paulo Telefone: 45013000</i><br /><br /><i>Editora Girafinha:<br />(11) 3258 88 78</i><br /><br /><img src="http://www.siciliano.com.br/capas/8599520237.jpg"><br /><b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br />Autor: Fabrício Carpinejar<br />Ilustrações: Rodrigo Rosa<br />ISBN: 8599520237<br />Editora: A GIRAFA EDITORA<br />Número de páginas: 40<br />Encadernação: Brochura<br />Edição: 2006<br />Preço: R$ 27,00  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br /><br /><img src="http://www.siblog.blogger.com.br/carpin5bx.jpg"><br /><br /><i>"Um apelido só fica se a gente não gosta. Quando se começa a brigar para não ter aquele apelido, aí sim as pessoas vão nos chamar daquele nome. A melhor tática para não ficar com um apelido que não se gosta é não revidar, não implicar e até aceitar. O apelido é do contra. <br /><br />Calçava botas ortopédicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os pés chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. <br /><br />As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. <br /><br />Naquele tempo, ninguém tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunferência. <br /><br />Confiava que jogava bem futebol, que as crianças saíam da minha frente porque não conseguiam alcançar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontapé da minha bota metálica e dentuça. Fazia gol, ninguém queria se machucar."</i><br /><br />Já chegou nas livrarias meu novo livro infantil: <b>Filhote de cruz-credo</b>, lançamento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustrações são de <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a história de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adaptação na escola. <br /><br /><b>A SESSÃO DE AUTÓGRAFOS SERÁ NA FNAC/PINHEIROS EM SÃO PAULO, no domingo (26/11), <b>a partir das 15h30</b>, com contação de histórias pela atriz Kiara Terra, do <i>História Aberta</i></b><br /><br /><i>FNAC - Espaço Infantil<br />Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros<br />São Paulo Telefone: 45013000</i><br /><br /><i>Editora Girafinha:<br />(11) 3258 88 78</i><br /><br /><img src="http://www.siciliano.com.br/capas/8599520237.jpg"><br /><b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br />Autor: Fabrício Carpinejar<br />Ilustrações: Rodrigo Rosa<br />ISBN: 8599520237<br />Editora: A GIRAFA EDITORA<br />Número de páginas: 40<br />Encadernação: Brochura<br />Edição: 2006<br />Preço: R$ 27,00  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br /><br /><img src="http://www.siblog.blogger.com.br/carpin5bx.jpg"><br /><br /><i>"Um apelido só fica se a gente não gosta. Quando se começa a brigar para não ter aquele apelido, aí sim as pessoas vão nos chamar daquele nome. A melhor tática para não ficar com um apelido que não se gosta é não revidar, não implicar e até aceitar. O apelido é do contra. <br /><br />Calçava botas ortopédicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os pés chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. <br /><br />As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. <br /><br />Naquele tempo, ninguém tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunferência. <br /><br />Confiava que jogava bem futebol, que as crianças saíam da minha frente porque não conseguiam alcançar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontapé da minha bota metálica e dentuça. Fazia gol, ninguém queria se machucar."</i><br /><br />Já chegou nas livrarias meu novo livro infantil: <b>Filhote de cruz-credo</b>, lançamento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustrações são de <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a história de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adaptação na escola. <br /><br /><b>A SESSÃO DE AUTÓGRAFOS SERÁ NA FNAC/PINHEIROS EM SÃO PAULO, no domingo (26/11), <b>a partir das 15h30</b>, com contação de histórias pela atriz Kiara Terra, do <i>História Aberta</i></b><br /><br /><i>FNAC - Espaço Infantil<br />Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros<br />São Paulo Telefone: 45013000</i><br /><br /><i>Editora Girafinha:<br />(11) 3258 88 78</i><br /><br /><img src="http://www.siciliano.com.br/capas/8599520237.jpg"><br /><b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br />Autor: Fabrício Carpinejar<br />Ilustrações: Rodrigo Rosa<br />ISBN: 8599520237<br />Editora: A GIRAFA EDITORA<br />Número de páginas: 40<br />Encadernação: Brochura<br />Edição: 2006<br />Preço: R$ 27,00  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/12/2006 02:08:32 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDA</b><br />Pintura de Richard Diebenkorn<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lesliesacks.com/gallery/artistPages/diebenkorn/225/tn_die904a.jpg"><br /><br />Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores. <br /><br />Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro. <br /><br />Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas. <br /><br />Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas. <br /><br />Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente. <br /><br />As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. <br /><br />Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDA</b><br />Pintura de Richard Diebenkorn<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lesliesacks.com/gallery/artistPages/diebenkorn/225/tn_die904a.jpg"><br /><br />Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores. <br /><br />Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro. <br /><br />Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas. <br /><br />Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas. <br /><br />Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente. <br /><br />As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. <br /><br />Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDA</b><br />Pintura de Richard Diebenkorn<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lesliesacks.com/gallery/artistPages/diebenkorn/225/tn_die904a.jpg"><br /><br />Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores. <br /><br />Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro. <br /><br />Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas. <br /><br />Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas. <br /><br />Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente. <br /><br />As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. <br /><br />Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39177440</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/11/2006 12:26:34 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DESPEDIDA DE ANA</b><br /><i>Não queria escrever este texto. Este texto é uma derrota.</i><br /><br />Gravura de Klimt<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://cv.uoc.es/~991_04_005_01_web/fitxer/klimt.gif"><br /><br />Você mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Você me deu um ventre e um filho. Você me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos até o sol. Você soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pião. Você, tão você, tão eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele não precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo dói sem um lugar certo para soprar? Você põe os travesseiros na janela, para a vizinhança invejar o nosso cheiro. Para a vizinhança sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros são o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estará fechada. <br /><br />Você me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, você completou o que faltava. <br /><br />Você se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Você liga o secador e não escuta o telefone. Não me escuta agora gritando por você. <br /><br />Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o café na xícara. A toalha de mesa não me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. <br /><br />Minha mão esquerda está castrada. As palavras não têm sentido. A língua portuguesa morreu para um homem. <br /><br />Vejo você mesmo quando não a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para não descer as escadas e pegar o jornal. Você: invisível. Que se levantava de noite várias vezes para atender o pequeno e eu não notava. Que se levantava em mim várias vezes para acomodar minha respiração e eu não notava. Você: de sono leve como uma fruta madura. <br /><br />Você: de uma pureza devassa. A única mulher que me fez bonito. Que me fez sair da infância. Que puxou minha cadeira para sentar. Você, só poderia pintar as unhas para você, pintar as mãos, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. <br /><br />Eu não era nada sem você. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas já não me aceitam, perdi o tamanho e o número.  <br /><br />Você, tão você, tão eu. Nenhuma mulher soube mais do que você. Teve mais orgulho de mim do que você. Teve mais pena de mim do que você. Teve mais cansaço. Teve mais alegria. Você. Sempre você, no passado e daqui por diante. Minha amiga terrível, que explicou a  verdade o que ela não havia vivido, que ensinou a paternidade a dar três beijos e uma história. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome inédita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. <br /><br />Você que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. Não vivia qualquer coisa antes de sua leitura. <br /><br />Você, que todos falam que é uma mulher forte, e é forte porque não podia ser fraca. Ninguém a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Você que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. <br /><br />Eu não li o que estava escrito em meu próprio corpo. Você mudou minha literatura - pena que o homem não acompanhou.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DESPEDIDA DE ANA</b><br /><i>Não queria escrever este texto. Este texto é uma derrota.</i><br /><br />Gravura de Klimt<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://cv.uoc.es/~991_04_005_01_web/fitxer/klimt.gif"><br /><br />Você mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Você me deu um ventre e um filho. Você me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos até o sol. Você soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pião. Você, tão você, tão eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele não precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo dói sem um lugar certo para soprar? Você põe os travesseiros na janela, para a vizinhança invejar o nosso cheiro. Para a vizinhança sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros são o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estará fechada. <br /><br />Você me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, você completou o que faltava. <br /><br />Você se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Você liga o secador e não escuta o telefone. Não me escuta agora gritando por você. <br /><br />Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o café na xícara. A toalha de mesa não me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. <br /><br />Minha mão esquerda está castrada. As palavras não têm sentido. A língua portuguesa morreu para um homem. <br /><br />Vejo você mesmo quando não a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para não descer as escadas e pegar o jornal. Você: invisível. Que se levantava de noite várias vezes para atender o pequeno e eu não notava. Que se levantava em mim várias vezes para acomodar minha respiração e eu não notava. Você: de sono leve como uma fruta madura. <br /><br />Você: de uma pureza devassa. A única mulher que me fez bonito. Que me fez sair da infância. Que puxou minha cadeira para sentar. Você, só poderia pintar as unhas para você, pintar as mãos, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. <br /><br />Eu não era nada sem você. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas já não me aceitam, perdi o tamanho e o número.  <br /><br />Você, tão você, tão eu. Nenhuma mulher soube mais do que você. Teve mais orgulho de mim do que você. Teve mais pena de mim do que você. Teve mais cansaço. Teve mais alegria. Você. Sempre você, no passado e daqui por diante. Minha amiga terrível, que explicou a  verdade o que ela não havia vivido, que ensinou a paternidade a dar três beijos e uma história. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome inédita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. <br /><br />Você que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. Não vivia qualquer coisa antes de sua leitura. <br /><br />Você, que todos falam que é uma mulher forte, e é forte porque não podia ser fraca. Ninguém a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Você que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. <br /><br />Eu não li o que estava escrito em meu próprio corpo. Você mudou minha literatura - pena que o homem não acompanhou.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DESPEDIDA DE ANA</b><br /><i>Não queria escrever este texto. Este texto é uma derrota.</i><br /><br />Gravura de Klimt<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://cv.uoc.es/~991_04_005_01_web/fitxer/klimt.gif"><br /><br />Você mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Você me deu um ventre e um filho. Você me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos até o sol. Você soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pião. Você, tão você, tão eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele não precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo dói sem um lugar certo para soprar? Você põe os travesseiros na janela, para a vizinhança invejar o nosso cheiro. Para a vizinhança sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros são o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estará fechada. <br /><br />Você me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, você completou o que faltava. <br /><br />Você se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Você liga o secador e não escuta o telefone. Não me escuta agora gritando por você. <br /><br />Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o café na xícara. A toalha de mesa não me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. <br /><br />Minha mão esquerda está castrada. As palavras não têm sentido. A língua portuguesa morreu para um homem. <br /><br />Vejo você mesmo quando não a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para não descer as escadas e pegar o jornal. Você: invisível. Que se levantava de noite várias vezes para atender o pequeno e eu não notava. Que se levantava em mim várias vezes para acomodar minha respiração e eu não notava. Você: de sono leve como uma fruta madura. <br /><br />Você: de uma pureza devassa. A única mulher que me fez bonito. Que me fez sair da infância. Que puxou minha cadeira para sentar. Você, só poderia pintar as unhas para você, pintar as mãos, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. <br /><br />Eu não era nada sem você. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas já não me aceitam, perdi o tamanho e o número.  <br /><br />Você, tão você, tão eu. Nenhuma mulher soube mais do que você. Teve mais orgulho de mim do que você. Teve mais pena de mim do que você. Teve mais cansaço. Teve mais alegria. Você. Sempre você, no passado e daqui por diante. Minha amiga terrível, que explicou a  verdade o que ela não havia vivido, que ensinou a paternidade a dar três beijos e uma história. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome inédita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. <br /><br />Você que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. Não vivia qualquer coisa antes de sua leitura. <br /><br />Você, que todos falam que é uma mulher forte, e é forte porque não podia ser fraca. Ninguém a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Você que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. <br /><br />Eu não li o que estava escrito em meu próprio corpo. Você mudou minha literatura - pena que o homem não acompanhou.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39172537</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/9/2006 09:56:28 AM</pubDate>
</item>

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<title><b>QUANDO NÃO SE ESPERA</b><br />Arte de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dutchmuseumshop.com/afbeeldingen/poster/giacometti/giacometti-homme-qui-marche.jpg"><br /><br />Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido. <br /><br />Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. <br /><br />Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar. <br /><br />Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra. <br /><br />A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha. <br /><br />Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro. <br /><br />Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. <br /><br />A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>QUANDO NÃO SE ESPERA</b><br />Arte de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dutchmuseumshop.com/afbeeldingen/poster/giacometti/giacometti-homme-qui-marche.jpg"><br /><br />Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido. <br /><br />Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. <br /><br />Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar. <br /><br />Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra. <br /><br />A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha. <br /><br />Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro. <br /><br />Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. <br /><br />A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>QUANDO NÃO SE ESPERA</b><br />Arte de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dutchmuseumshop.com/afbeeldingen/poster/giacometti/giacometti-homme-qui-marche.jpg"><br /><br />Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido. <br /><br />Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. <br /><br />Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar. <br /><br />Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra. <br /><br />A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha. <br /><br />Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro. <br /><br />Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. <br /><br />A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/7/2006 11:50:59 AM</pubDate>
</item>

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<title><b>RINDO NO AMOR, NÃO DO AMOR</b><br />Pinturas de Nicolas De Staël<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://odalisamelie.club-blog.fr/odalisamelie/images/nu_couch_bleu_1.jpg"><br /><br />O riso não costuma reinar no sexo. Já ouvi que é inibidor num espaço de concentração, tensão, num espaço para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a música. Entrelaçados pela corrente sanguínea do vento, pelo toque, pela expansão das unhas e cheiro selvagem dos lençóis. Como se não fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo sério, um segredo lento. <br /><br />Um riso dela: o homem pensa que ela está zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele está troçando de suas imperfeições e de sua experiência. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfiança. O humor lança suspeita. Que o amor deve ser sério como um drama. Trágico. <br /><br />Não foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoroço festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega mútua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mistério de estar pleno e sem volta. <br /><br />Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pescoço dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos braços, sem a ameaça da dúvida, sem remédio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo não pedia beijo, pedia soluço, sol no dia seguinte.  <br /><br />Não havia a gravidade da chuva, havia a graça da garoa. Não havia a maldade do meio-dia, havia o perdão da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. <br /><br />Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as pétalas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da névoa e os altos frutos. <br /><br />Gargalhavam quando não sussurravam e nada diminuía o prazer. Desnecessária qualquer explicação sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta ausência de explicação. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez abençoada pelas sombras. <br /><br />Uma oferta. Uma paixão. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir é trocar a despedida pela véspera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. <br /><br />Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. <br /><br />Amar na alegria é amar casando. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>RINDO NO AMOR, NÃO DO AMOR</b><br />Pinturas de Nicolas De Staël<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://odalisamelie.club-blog.fr/odalisamelie/images/nu_couch_bleu_1.jpg"><br /><br />O riso não costuma reinar no sexo. Já ouvi que é inibidor num espaço de concentração, tensão, num espaço para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a música. Entrelaçados pela corrente sanguínea do vento, pelo toque, pela expansão das unhas e cheiro selvagem dos lençóis. Como se não fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo sério, um segredo lento. <br /><br />Um riso dela: o homem pensa que ela está zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele está troçando de suas imperfeições e de sua experiência. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfiança. O humor lança suspeita. Que o amor deve ser sério como um drama. Trágico. <br /><br />Não foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoroço festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega mútua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mistério de estar pleno e sem volta. <br /><br />Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pescoço dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos braços, sem a ameaça da dúvida, sem remédio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo não pedia beijo, pedia soluço, sol no dia seguinte.  <br /><br />Não havia a gravidade da chuva, havia a graça da garoa. Não havia a maldade do meio-dia, havia o perdão da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. <br /><br />Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as pétalas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da névoa e os altos frutos. <br /><br />Gargalhavam quando não sussurravam e nada diminuía o prazer. Desnecessária qualquer explicação sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta ausência de explicação. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez abençoada pelas sombras. <br /><br />Uma oferta. Uma paixão. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir é trocar a despedida pela véspera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. <br /><br />Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. <br /><br />Amar na alegria é amar casando. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>RINDO NO AMOR, NÃO DO AMOR</b><br />Pinturas de Nicolas De Staël<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://odalisamelie.club-blog.fr/odalisamelie/images/nu_couch_bleu_1.jpg"><br /><br />O riso não costuma reinar no sexo. Já ouvi que é inibidor num espaço de concentração, tensão, num espaço para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a música. Entrelaçados pela corrente sanguínea do vento, pelo toque, pela expansão das unhas e cheiro selvagem dos lençóis. Como se não fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo sério, um segredo lento. <br /><br />Um riso dela: o homem pensa que ela está zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele está troçando de suas imperfeições e de sua experiência. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfiança. O humor lança suspeita. Que o amor deve ser sério como um drama. Trágico. <br /><br />Não foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoroço festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega mútua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mistério de estar pleno e sem volta. <br /><br />Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pescoço dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos braços, sem a ameaça da dúvida, sem remédio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo não pedia beijo, pedia soluço, sol no dia seguinte.  <br /><br />Não havia a gravidade da chuva, havia a graça da garoa. Não havia a maldade do meio-dia, havia o perdão da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. <br /><br />Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as pétalas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da névoa e os altos frutos. <br /><br />Gargalhavam quando não sussurravam e nada diminuía o prazer. Desnecessária qualquer explicação sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta ausência de explicação. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez abençoada pelas sombras. <br /><br />Uma oferta. Uma paixão. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir é trocar a despedida pela véspera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. <br /><br />Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. <br /><br />Amar na alegria é amar casando. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39164012</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/6/2006 08:01:08 AM</pubDate>
</item>

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<title><b>EMPAREDADO</b><br /><br />Sou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no <a href="http://www.digestivocultural.com.br/">site</a>, conduzida por Julio Daio Borges. <br /><br /><b>A LITERATURA NÃO SUBSTITUI A VIDA</b><br /><i>Segunda-feira, 6/11/2006</i><br /><br /><b>Por Julio Daio Borges </b><br />   <br /><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1.jpg"><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1b.jpg"><br /><i>Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto</i><br /><br />Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore - até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.<br /><br />Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) - sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). <br /><br />O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de "marqueteiro", tem uma resposta na ponta da língua: "Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho". Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser "o Wando da poesia". Carpinejar conclui, ainda, que é um "feio carismático" e alerta que "a literatura não substitui a vida". (JDB)<br /><br /><b>1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é "melhor" do que a sua mãe mas "pior" do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você - ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu? </b><br /><br />As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). <br /><br /><b>2. No embalo da pergunta anterior, como "se fez" poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? "Poeta", pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)? </b><br /><br />Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo "escritor" na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. <br /><br /><b>3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?</b><br /><br />Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente. <br /><br /><b>4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que "qualquer um consegue"... Queria ouvir sua opinião.</b><br /><br />Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um "sangue azul". Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores. <br /><br /><b>5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff - você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações - por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?</b><br /><br />Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios). <br /><br /><b>6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma "unanimidade poética" como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra - do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, "o contínuo de si mesmo"? </b><br /><br />Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. <br /><br /><b>7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 - de certo modo, a sua geração - com a crítica estabelecida ("Que crítica estabelecida?", perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como "rebelde sem causa"?</b><br /><br />Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.<br /><br /><b>8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu "consultório sentimental", e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?</b><br /><br />Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela. <br /><br /><b>9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava "carpinejando"... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?</b><br /><br />Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo. <br /><br /><b>10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que "intelecto" é também "vontade" (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contrário de você - reclamam demais e fazem de menos...) </b><br /><br />Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>EMPAREDADO</b><br /><br />Sou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no <a href="http://www.digestivocultural.com.br/">site</a>, conduzida por Julio Daio Borges. <br /><br /><b>A LITERATURA NÃO SUBSTITUI A VIDA</b><br /><i>Segunda-feira, 6/11/2006</i><br /><br /><b>Por Julio Daio Borges </b><br />   <br /><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1.jpg"><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1b.jpg"><br /><i>Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto</i><br /><br />Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore - até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.<br /><br />Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) - sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). <br /><br />O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de "marqueteiro", tem uma resposta na ponta da língua: "Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho". Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser "o Wando da poesia". Carpinejar conclui, ainda, que é um "feio carismático" e alerta que "a literatura não substitui a vida". (JDB)<br /><br /><b>1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é "melhor" do que a sua mãe mas "pior" do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você - ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu? </b><br /><br />As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). <br /><br /><b>2. No embalo da pergunta anterior, como "se fez" poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? "Poeta", pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)? </b><br /><br />Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo "escritor" na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. <br /><br /><b>3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?</b><br /><br />Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente. <br /><br /><b>4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que "qualquer um consegue"... Queria ouvir sua opinião.</b><br /><br />Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um "sangue azul". Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores. <br /><br /><b>5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff - você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações - por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?</b><br /><br />Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios). <br /><br /><b>6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma "unanimidade poética" como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra - do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, "o contínuo de si mesmo"? </b><br /><br />Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. <br /><br /><b>7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 - de certo modo, a sua geração - com a crítica estabelecida ("Que crítica estabelecida?", perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como "rebelde sem causa"?</b><br /><br />Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.<br /><br /><b>8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu "consultório sentimental", e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?</b><br /><br />Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela. <br /><br /><b>9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava "carpinejando"... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?</b><br /><br />Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo. <br /><br /><b>10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que "intelecto" é também "vontade" (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contrário de você - reclamam demais e fazem de menos...) </b><br /><br />Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>EMPAREDADO</b><br /><br />Sou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no <a href="http://www.digestivocultural.com.br/">site</a>, conduzida por Julio Daio Borges. <br /><br /><b>A LITERATURA NÃO SUBSTITUI A VIDA</b><br /><i>Segunda-feira, 6/11/2006</i><br /><br /><b>Por Julio Daio Borges </b><br />   <br /><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1.jpg"><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1b.jpg"><br /><i>Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto</i><br /><br />Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore - até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.<br /><br />Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) - sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). <br /><br />O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de "marqueteiro", tem uma resposta na ponta da língua: "Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho". Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser "o Wando da poesia". Carpinejar conclui, ainda, que é um "feio carismático" e alerta que "a literatura não substitui a vida". (JDB)<br /><br /><b>1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é "melhor" do que a sua mãe mas "pior" do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você - ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu? </b><br /><br />As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). <br /><br /><b>2. No embalo da pergunta anterior, como "se fez" poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? "Poeta", pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)? </b><br /><br />Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo "escritor" na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. <br /><br /><b>3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?</b><br /><br />Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente. <br /><br /><b>4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que "qualquer um consegue"... Queria ouvir sua opinião.</b><br /><br />Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um "sangue azul". Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores. <br /><br /><b>5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff - você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações - por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?</b><br /><br />Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios). <br /><br /><b>6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma "unanimidade poética" como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra - do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, "o contínuo de si mesmo"? </b><br /><br />Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. <br /><br /><b>7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 - de certo modo, a sua geração - com a crítica estabelecida ("Que crítica estabelecida?", perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como "rebelde sem causa"?</b><br /><br />Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.<br /><br /><b>8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu "consultório sentimental", e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?</b><br /><br />Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela. <br /><br /><b>9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava "carpinejando"... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?</b><br /><br />Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo. <br /><br /><b>10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que "intelecto" é também "vontade" (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contrário de você - reclamam demais e fazem de menos...) </b><br /><br />Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>11/6/2006 12:26:16 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>RELÂMPAGOS DA FEIRA DO LIVRO</b><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/image0605.jpg"><br />- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sessão de autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre, na <b>noite de sábado (4/11)</b>. Não cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pescoço. Eu assinava e ele desenhava. Criou vários tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pescoço de girafa, com chapéu de árvore... <br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/showfabro2.jpg"><br />- Na <b>noite de sexta (3/11)</b>, eu e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí </a>contracenando no espetáculo "Poesia Explícita ao Vivo", apelidado carinhosamente de "Canalha Romântico". Foi minha primeira apresentação ao seu lado. Emocionante alternar canção e poesia. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>RELÂMPAGOS DA FEIRA DO LIVRO</b><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/image0605.jpg"><br />- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sessão de autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre, na <b>noite de sábado (4/11)</b>. Não cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pescoço. Eu assinava e ele desenhava. Criou vários tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pescoço de girafa, com chapéu de árvore... <br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/showfabro2.jpg"><br />- Na <b>noite de sexta (3/11)</b>, eu e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí </a>contracenando no espetáculo "Poesia Explícita ao Vivo", apelidado carinhosamente de "Canalha Romântico". Foi minha primeira apresentação ao seu lado. Emocionante alternar canção e poesia. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>RELÂMPAGOS DA FEIRA DO LIVRO</b><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/image0605.jpg"><br />- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sessão de autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre, na <b>noite de sábado (4/11)</b>. Não cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pescoço. Eu assinava e ele desenhava. Criou vários tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pescoço de girafa, com chapéu de árvore... <br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/showfabro2.jpg"><br />- Na <b>noite de sexta (3/11)</b>, eu e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí </a>contracenando no espetáculo "Poesia Explícita ao Vivo", apelidado carinhosamente de "Canalha Romântico". Foi minha primeira apresentação ao seu lado. Emocionante alternar canção e poesia. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>11/5/2006 12:01:41 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>NA RECEPÇÃO DA POUSADA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.gnosis.art.pl/iluminatornia/sztuka_o_inspiracji/paul_klee/paul_klee_martwa_natura_bez_tytulu_1940.jpg"><br /><br />Esperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto não faz silêncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol está próximo? <br /><br />Quatro horas da manhã e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta aliança.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obrigação. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone até 6h.  <br /><br />Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um café, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha coleção de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recompôs. Homenzarrão. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e não cansar. <br /><br />Pergunto se é casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de música. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. <br /><br />Agora ele ri. Agora defino: rir é seu soluço. Confessa que montou uma coleção de 283 óculos. Não falou 300. Não falou 250. Foi preciso na numeração. Duzentos e oitenta e três.  Afora o que comprava, vários amigos encontravam peças extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camelô a lojas, vestia óculos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. <br /><br />Adorava quando sua mulher pedia para tirá-los e enxergar seus olhos. <br /><br />- Ela sempre brincava comigo, que era fácil confundir a verdade com os óculos.<br /><br />Adorava quando sua mulher cismava que ele não teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. <br /><br />- Bagaceiro, eu? <br /><br />Emoldurou grande parte dos óculos e cobriu sua casa com a coleção. O escritório povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. <br /><br />Mas isso o que falo é passado, ou uma dívida do passado. Jogou fora a coleção, como o resto de sua mobília. Ele está viúvo há um ano. Desculpa, ele está viúvo há 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: <br /><br />- Que coincidência, que coincidência, que coincidência.  <br /><br />Tive pena de mim por não falar mais nada. <br /><br />Pôs a perder a coleção porque não fazia sentido. Não fazia sentido juntar durante décadas o que ele não necessitava. <br /><br />- Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>NA RECEPÇÃO DA POUSADA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.gnosis.art.pl/iluminatornia/sztuka_o_inspiracji/paul_klee/paul_klee_martwa_natura_bez_tytulu_1940.jpg"><br /><br />Esperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto não faz silêncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol está próximo? <br /><br />Quatro horas da manhã e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta aliança.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obrigação. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone até 6h.  <br /><br />Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um café, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha coleção de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recompôs. Homenzarrão. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e não cansar. <br /><br />Pergunto se é casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de música. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. <br /><br />Agora ele ri. Agora defino: rir é seu soluço. Confessa que montou uma coleção de 283 óculos. Não falou 300. Não falou 250. Foi preciso na numeração. Duzentos e oitenta e três.  Afora o que comprava, vários amigos encontravam peças extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camelô a lojas, vestia óculos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. <br /><br />Adorava quando sua mulher pedia para tirá-los e enxergar seus olhos. <br /><br />- Ela sempre brincava comigo, que era fácil confundir a verdade com os óculos.<br /><br />Adorava quando sua mulher cismava que ele não teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. <br /><br />- Bagaceiro, eu? <br /><br />Emoldurou grande parte dos óculos e cobriu sua casa com a coleção. O escritório povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. <br /><br />Mas isso o que falo é passado, ou uma dívida do passado. Jogou fora a coleção, como o resto de sua mobília. Ele está viúvo há um ano. Desculpa, ele está viúvo há 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: <br /><br />- Que coincidência, que coincidência, que coincidência.  <br /><br />Tive pena de mim por não falar mais nada. <br /><br />Pôs a perder a coleção porque não fazia sentido. Não fazia sentido juntar durante décadas o que ele não necessitava. <br /><br />- Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>NA RECEPÇÃO DA POUSADA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.gnosis.art.pl/iluminatornia/sztuka_o_inspiracji/paul_klee/paul_klee_martwa_natura_bez_tytulu_1940.jpg"><br /><br />Esperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto não faz silêncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol está próximo? <br /><br />Quatro horas da manhã e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta aliança.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obrigação. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone até 6h.  <br /><br />Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um café, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha coleção de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recompôs. Homenzarrão. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e não cansar. <br /><br />Pergunto se é casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de música. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. <br /><br />Agora ele ri. Agora defino: rir é seu soluço. Confessa que montou uma coleção de 283 óculos. Não falou 300. Não falou 250. Foi preciso na numeração. Duzentos e oitenta e três.  Afora o que comprava, vários amigos encontravam peças extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camelô a lojas, vestia óculos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. <br /><br />Adorava quando sua mulher pedia para tirá-los e enxergar seus olhos. <br /><br />- Ela sempre brincava comigo, que era fácil confundir a verdade com os óculos.<br /><br />Adorava quando sua mulher cismava que ele não teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. <br /><br />- Bagaceiro, eu? <br /><br />Emoldurou grande parte dos óculos e cobriu sua casa com a coleção. O escritório povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. <br /><br />Mas isso o que falo é passado, ou uma dívida do passado. Jogou fora a coleção, como o resto de sua mobília. Ele está viúvo há um ano. Desculpa, ele está viúvo há 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: <br /><br />- Que coincidência, que coincidência, que coincidência.  <br /><br />Tive pena de mim por não falar mais nada. <br /><br />Pôs a perder a coleção porque não fazia sentido. Não fazia sentido juntar durante décadas o que ele não necessitava. <br /><br />- Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39160593</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/4/2006 06:18:19 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>REVELAÇÕES</b><br /><br />Mariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. <a href="http://carpinejar.zip.net/ ">Veja lá</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>REVELAÇÕES</b><br /><br />Mariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. <a href="http://carpinejar.zip.net/ ">Veja lá</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>REVELAÇÕES</b><br /><br />Mariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. <a href="http://carpinejar.zip.net/ ">Veja lá</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/4/2006 06:00:19 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>NOVO CARPIM</b><br />De <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a> e Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/carpimnovo2Bblog.0.jpg"><br /></title>
<description><![CDATA[<b>NOVO CARPIM</b><br />De <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a> e Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/carpimnovo2Bblog.0.jpg"><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>NOVO CARPIM</b><br />De <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a> e Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/carpimnovo2Bblog.0.jpg"><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39160530</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/4/2006 05:57:34 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UMA VEZ NO RESTAURANTE</b><br />Pintura de Miró<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://sobek.colorado.edu/~gimenez/miro/miroe.jpg"><br /><br />A mãe adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. <br />Era garçom do restaurante Ouriço. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios. <br /><br />A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado. <br /> <br />O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não incomodar. <br /><br />Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta. <br /><br />Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. <br /><br />O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.<br /><br />Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.<br /><br />No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilhaço produziu o batimento desordenado de um coração para transplante. O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. <br /><br />Saiu ralhando:<br />- Não mexe mais em nada! <br /><br />Ingenuidade crer no silêncio:<br />- Pai, o que eu vou fazer com os braços? <br />- Que braços?<br />- Não posso mexer em nada. <br /><br />A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas. <br /><br />- Meu pai é malabarista.<br />- Meu pai nunca erra. <br />- Meu pai é famoso, todos chamam ele.<br /><br />A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto. <br /><br />- Por favor, vou perder o emprego. <br /><br />O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras. <br /><br />- Tá bom tá bom, depois a gente conversa. <br /><br />O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. <br /><br />A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranqüilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. <br /><br />A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:<br /><br />- Viu? Sou que nem meu pai...<br /><br />Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UMA VEZ NO RESTAURANTE</b><br />Pintura de Miró<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://sobek.colorado.edu/~gimenez/miro/miroe.jpg"><br /><br />A mãe adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. <br />Era garçom do restaurante Ouriço. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios. <br /><br />A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado. <br /> <br />O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não incomodar. <br /><br />Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta. <br /><br />Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. <br /><br />O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.<br /><br />Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.<br /><br />No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilhaço produziu o batimento desordenado de um coração para transplante. O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. <br /><br />Saiu ralhando:<br />- Não mexe mais em nada! <br /><br />Ingenuidade crer no silêncio:<br />- Pai, o que eu vou fazer com os braços? <br />- Que braços?<br />- Não posso mexer em nada. <br /><br />A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas. <br /><br />- Meu pai é malabarista.<br />- Meu pai nunca erra. <br />- Meu pai é famoso, todos chamam ele.<br /><br />A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto. <br /><br />- Por favor, vou perder o emprego. <br /><br />O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras. <br /><br />- Tá bom tá bom, depois a gente conversa. <br /><br />O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. <br /><br />A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranqüilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. <br /><br />A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:<br /><br />- Viu? Sou que nem meu pai...<br /><br />Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UMA VEZ NO RESTAURANTE</b><br />Pintura de Miró<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://sobek.colorado.edu/~gimenez/miro/miroe.jpg"><br /><br />A mãe adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. <br />Era garçom do restaurante Ouriço. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios. <br /><br />A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado. <br /> <br />O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não incomodar. <br /><br />Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta. <br /><br />Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. <br /><br />O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.<br /><br />Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.<br /><br />No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilhaço produziu o batimento desordenado de um coração para transplante. O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. <br /><br />Saiu ralhando:<br />- Não mexe mais em nada! <br /><br />Ingenuidade crer no silêncio:<br />- Pai, o que eu vou fazer com os braços? <br />- Que braços?<br />- Não posso mexer em nada. <br /><br />A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas. <br /><br />- Meu pai é malabarista.<br />- Meu pai nunca erra. <br />- Meu pai é famoso, todos chamam ele.<br /><br />A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto. <br /><br />- Por favor, vou perder o emprego. <br /><br />O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras. <br /><br />- Tá bom tá bom, depois a gente conversa. <br /><br />O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. <br /><br />A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranqüilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. <br /><br />A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:<br /><br />- Viu? Sou que nem meu pai...<br /><br />Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39150223</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/31/2006 06:05:26 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title>São Paulo, sábado, 28 de outubro de 2006 <br /><a href="http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/dicas/di28100615.htm">Folha de São Paulo</a>, Folhinha, 28/10/06<br /> <br /><b>POEMAS INÉDITOS</b><br />Arte de Joseph Cornell<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><b>MEU FILHO COMIGO</b><br /><br />Meu filho, não terminamos<br />de conversar mesmo dormindo.<br />Nossas tosses continuam o assunto.<br /><br />Uma responde à outra.<br />Uma completa a outra.<br />São tosses educadas,<br /><br />que não ofendem a noite. <br />Somos tremendamente <br />felizes na doença. <br /><br /><b>MINHA FILHA SEM MIM</b><br /><br />Minhas mãos não são mãos.<br />Mas pente, quando ajeito teu cabelo<br />no portão da escola. Mas relógio,<br /><br />a controlar tuas refeições. <br />Mas faca, a fatiar o pão na mesa. <br />Mas gancho, a segurar teu casaco<br /><br />para que corra no parque. Pai troca<br />as mãos pelos pés de propósito,<br />sempre atrasado em comparação com a mãe.  <br /></title>
<description><![CDATA[São Paulo, sábado, 28 de outubro de 2006 <br /><a href="http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/dicas/di28100615.htm">Folha de São Paulo</a>, Folhinha, 28/10/06<br /> <br /><b>POEMAS INÉDITOS</b><br />Arte de Joseph Cornell<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><b>MEU FILHO COMIGO</b><br /><br />Meu filho, não terminamos<br />de conversar mesmo dormindo.<br />Nossas tosses continuam o assunto.<br /><br />Uma responde à outra.<br />Uma completa a outra.<br />São tosses educadas,<br /><br />que não ofendem a noite. <br />Somos tremendamente <br />felizes na doença. <br /><br /><b>MINHA FILHA SEM MIM</b><br /><br />Minhas mãos não são mãos.<br />Mas pente, quando ajeito teu cabelo<br />no portão da escola. Mas relógio,<br /><br />a controlar tuas refeições. <br />Mas faca, a fatiar o pão na mesa. <br />Mas gancho, a segurar teu casaco<br /><br />para que corra no parque. Pai troca<br />as mãos pelos pés de propósito,<br />sempre atrasado em comparação com a mãe.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[São Paulo, sábado, 28 de outubro de 2006 <br /><a href="http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/dicas/di28100615.htm">Folha de São Paulo</a>, Folhinha, 28/10/06<br /> <br /><b>POEMAS INÉDITOS</b><br />Arte de Joseph Cornell<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><b>MEU FILHO COMIGO</b><br /><br />Meu filho, não terminamos<br />de conversar mesmo dormindo.<br />Nossas tosses continuam o assunto.<br /><br />Uma responde à outra.<br />Uma completa a outra.<br />São tosses educadas,<br /><br />que não ofendem a noite. <br />Somos tremendamente <br />felizes na doença. <br /><br /><b>MINHA FILHA SEM MIM</b><br /><br />Minhas mãos não são mãos.<br />Mas pente, quando ajeito teu cabelo<br />no portão da escola. Mas relógio,<br /><br />a controlar tuas refeições. <br />Mas faca, a fatiar o pão na mesa. <br />Mas gancho, a segurar teu casaco<br /><br />para que corra no parque. Pai troca<br />as mãos pelos pés de propósito,<br />sempre atrasado em comparação com a mãe.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39140860</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/28/2006 09:36:10 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELE NÃO PERDOA MEU PASSADO!</b><br />Colagem de Peter Blake<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_183641.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bbc.co.uk/radio3/programmes/images/peterblake.jpg"><br /><br /><i>"Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namorá-lo, saí com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. <br /><br />Ele ficou sabendo disso por intermédio de outras pessoas, e, no começo, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda não gostava dele, achava que não tinha nada a ver ficar sabendo disso, e também porque eu não quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseqüente e não estava nem aí pra nada. Saía mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, não me preocupava com a minha imagem.<br /><br />Acontece que agora - não sei se você já passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. Não quero mais saber de ninguém, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que já fiz anteriormente. Não sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que só piora as coisas. Tenho medo de perdê-lo. Ele é tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso está me impedindo de ser realmente feliz com ele.<br /><br />Me ajude.<br /><br />Mirela"</i><br /><br />Olá, Mirela!<br /><br />Você tem uma história, sua bagagem não é resultado do sobrenatural e do Espírito Santo. Ao começar um namoro, não se apaga a memória. É uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas façanhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou trágicas: elas aconteceram e ensinaram. A amnésia não significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz é não se proibir, permitir se conhecer, tentar. <br /><br />Sou contrário, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisição combina com a Idade Média. Uma violência sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar alguém. Descartar as lembranças não preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveniência. <br /><br />O único cuidado é evitar comparações, não transformar a memória em indiscrição ou grosseria. Inadmissível elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquecíveis na intimidade. Isso é tortura. <br /><br />Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei lá, nada é capaz de interferir o que estão construindo juntos. Ele não precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. <br /><br />Não é nenhum crime transar! Ele não transou antes de conhecer você?<br /><br />Predomina a teoria machista, o homem pode transar com inúmeras mulheres na pré-história da relação, que só alimenta sua virilidade. Já a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma mão, senão é promíscua. Por favor, com toda a experiência adquirida, o casal tem condições de se dar mais e melhor. O amor não é puritano, não é preconceituoso, não condena. É fiel à verdade.<br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELE NÃO PERDOA MEU PASSADO!</b><br />Colagem de Peter Blake<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_183641.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bbc.co.uk/radio3/programmes/images/peterblake.jpg"><br /><br /><i>"Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namorá-lo, saí com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. <br /><br />Ele ficou sabendo disso por intermédio de outras pessoas, e, no começo, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda não gostava dele, achava que não tinha nada a ver ficar sabendo disso, e também porque eu não quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseqüente e não estava nem aí pra nada. Saía mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, não me preocupava com a minha imagem.<br /><br />Acontece que agora - não sei se você já passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. Não quero mais saber de ninguém, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que já fiz anteriormente. Não sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que só piora as coisas. Tenho medo de perdê-lo. Ele é tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso está me impedindo de ser realmente feliz com ele.<br /><br />Me ajude.<br /><br />Mirela"</i><br /><br />Olá, Mirela!<br /><br />Você tem uma história, sua bagagem não é resultado do sobrenatural e do Espírito Santo. Ao começar um namoro, não se apaga a memória. É uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas façanhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou trágicas: elas aconteceram e ensinaram. A amnésia não significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz é não se proibir, permitir se conhecer, tentar. <br /><br />Sou contrário, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisição combina com a Idade Média. Uma violência sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar alguém. Descartar as lembranças não preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveniência. <br /><br />O único cuidado é evitar comparações, não transformar a memória em indiscrição ou grosseria. Inadmissível elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquecíveis na intimidade. Isso é tortura. <br /><br />Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei lá, nada é capaz de interferir o que estão construindo juntos. Ele não precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. <br /><br />Não é nenhum crime transar! Ele não transou antes de conhecer você?<br /><br />Predomina a teoria machista, o homem pode transar com inúmeras mulheres na pré-história da relação, que só alimenta sua virilidade. Já a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma mão, senão é promíscua. Por favor, com toda a experiência adquirida, o casal tem condições de se dar mais e melhor. O amor não é puritano, não é preconceituoso, não condena. É fiel à verdade.<br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELE NÃO PERDOA MEU PASSADO!</b><br />Colagem de Peter Blake<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_183641.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bbc.co.uk/radio3/programmes/images/peterblake.jpg"><br /><br /><i>"Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namorá-lo, saí com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. <br /><br />Ele ficou sabendo disso por intermédio de outras pessoas, e, no começo, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda não gostava dele, achava que não tinha nada a ver ficar sabendo disso, e também porque eu não quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseqüente e não estava nem aí pra nada. Saía mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, não me preocupava com a minha imagem.<br /><br />Acontece que agora - não sei se você já passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. Não quero mais saber de ninguém, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que já fiz anteriormente. Não sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que só piora as coisas. Tenho medo de perdê-lo. Ele é tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso está me impedindo de ser realmente feliz com ele.<br /><br />Me ajude.<br /><br />Mirela"</i><br /><br />Olá, Mirela!<br /><br />Você tem uma história, sua bagagem não é resultado do sobrenatural e do Espírito Santo. Ao começar um namoro, não se apaga a memória. É uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas façanhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou trágicas: elas aconteceram e ensinaram. A amnésia não significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz é não se proibir, permitir se conhecer, tentar. <br /><br />Sou contrário, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisição combina com a Idade Média. Uma violência sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar alguém. Descartar as lembranças não preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveniência. <br /><br />O único cuidado é evitar comparações, não transformar a memória em indiscrição ou grosseria. Inadmissível elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquecíveis na intimidade. Isso é tortura. <br /><br />Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei lá, nada é capaz de interferir o que estão construindo juntos. Ele não precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. <br /><br />Não é nenhum crime transar! Ele não transou antes de conhecer você?<br /><br />Predomina a teoria machista, o homem pode transar com inúmeras mulheres na pré-história da relação, que só alimenta sua virilidade. Já a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma mão, senão é promíscua. Por favor, com toda a experiência adquirida, o casal tem condições de se dar mais e melhor. O amor não é puritano, não é preconceituoso, não condena. É fiel à verdade.<br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39138407</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/27/2006 02:01:36 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O SUL</b><br /><br />Acabo de ser informado que receberei o <b>Prêmio Sul, Nacional e os Livros 2006</b>, da Rede Pampa, categoria <b>Iniciativa cultural</b>, pela abertura do <a href="http://www.unisinos.br/formacao_especifica/escritores/"> Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</a>. É uma premiação que dedico aos alunos e professores.  <br /><br />Para completar a felicidade, Maria Carpi, digníssima mãe, ganhou na categoria Poesia com seu lançamento "O Herói Desvalido" (Bertrand Brasil).<br /><br />A cerimônia de entrega do troféu acontece na <b>terça (31/10)</b>, às <b>21h</b>, na <b>Associação Leopoldina Juvenil</b>, em Porto Alegre (RS). <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O SUL</b><br /><br />Acabo de ser informado que receberei o <b>Prêmio Sul, Nacional e os Livros 2006</b>, da Rede Pampa, categoria <b>Iniciativa cultural</b>, pela abertura do <a href="http://www.unisinos.br/formacao_especifica/escritores/"> Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</a>. É uma premiação que dedico aos alunos e professores.  <br /><br />Para completar a felicidade, Maria Carpi, digníssima mãe, ganhou na categoria Poesia com seu lançamento "O Herói Desvalido" (Bertrand Brasil).<br /><br />A cerimônia de entrega do troféu acontece na <b>terça (31/10)</b>, às <b>21h</b>, na <b>Associação Leopoldina Juvenil</b>, em Porto Alegre (RS). <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O SUL</b><br /><br />Acabo de ser informado que receberei o <b>Prêmio Sul, Nacional e os Livros 2006</b>, da Rede Pampa, categoria <b>Iniciativa cultural</b>, pela abertura do <a href="http://www.unisinos.br/formacao_especifica/escritores/"> Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</a>. É uma premiação que dedico aos alunos e professores.  <br /><br />Para completar a felicidade, Maria Carpi, digníssima mãe, ganhou na categoria Poesia com seu lançamento "O Herói Desvalido" (Bertrand Brasil).<br /><br />A cerimônia de entrega do troféu acontece na <b>terça (31/10)</b>, às <b>21h</b>, na <b>Associação Leopoldina Juvenil</b>, em Porto Alegre (RS). <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39138405</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/27/2006 01:59:46 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>LEITE EMPEDRADO</b><br />Pintura "Léa e Maura", de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mnba.gov.br/2_colecoes/8_pintura_br/2_p_guignard.jpg"><br /><br />Elas não eram gêmeas. Deus não repete a mesma letra. <br /><br />Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus é um autor inédito. Janaína e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A mãe Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a memória dos hóspedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. Não prestou atenção em quem veio primeiro. Janaína ou Jamela? Dois minutos é pouco para uma vida, muito para uma morte. Não pensou nos nomes. Já estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Janaína. Morreram afogadas no açude. Não eram gêmeas. Nada no mundo é gêmeo: a alegria, a dor, a esperança, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o terço gritando. Janaína e Jamela nasceram no dia dos finados. Provocação? Acreditou que Jamela e Janaína eram a Jamela e Janaína afogadas. O leite empedrou como se fosse lápide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de lápide, sem vala de pétala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso é pior do que dor de dente. O seio preso é um dente sufocando a língua. Cheiro trancado é fedor. A fé fede. Janaína e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade não havia. A única certeza é que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete não controlou, gritando de dor. O grito é uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irmãs gêmeas mortas. Jamela gostava de ser Janaína e Janaína gostava de ser Jamela, para enlouquecer a mãe. Mas Jamela se agravava em Janaína pela cova abaixo da boca e Janaína se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Boécio andava de caminhão pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almoçar. A mãe chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus não explica o que não escreveu. Festa de aniversário não havia. Janaína e Jamela visitavam o cemitério. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irmãs mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte é bem mais durável, não discorda, não quebra, não amolece. A mãe rezava um terço de trás para diante, revezando as novenas com Jamela e Janaína. Quem reza terço se acostuma a algemar as mãos. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas são as que morreram. Cidade pequena é assim: tudo termina cedo para começar mais tarde. Jamela e Janaína são tão fortes que cresceram sem existir. <br /><br />Só Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferença entre uma e outra. <br /><br />Da antologia <b>"Contos sobre tela" (Edições Pinakotheke, 142 páginas)</b>, organização Marcelo Moutinho, vários autores.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>LEITE EMPEDRADO</b><br />Pintura "Léa e Maura", de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mnba.gov.br/2_colecoes/8_pintura_br/2_p_guignard.jpg"><br /><br />Elas não eram gêmeas. Deus não repete a mesma letra. <br /><br />Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus é um autor inédito. Janaína e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A mãe Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a memória dos hóspedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. Não prestou atenção em quem veio primeiro. Janaína ou Jamela? Dois minutos é pouco para uma vida, muito para uma morte. Não pensou nos nomes. Já estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Janaína. Morreram afogadas no açude. Não eram gêmeas. Nada no mundo é gêmeo: a alegria, a dor, a esperança, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o terço gritando. Janaína e Jamela nasceram no dia dos finados. Provocação? Acreditou que Jamela e Janaína eram a Jamela e Janaína afogadas. O leite empedrou como se fosse lápide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de lápide, sem vala de pétala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso é pior do que dor de dente. O seio preso é um dente sufocando a língua. Cheiro trancado é fedor. A fé fede. Janaína e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade não havia. A única certeza é que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete não controlou, gritando de dor. O grito é uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irmãs gêmeas mortas. Jamela gostava de ser Janaína e Janaína gostava de ser Jamela, para enlouquecer a mãe. Mas Jamela se agravava em Janaína pela cova abaixo da boca e Janaína se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Boécio andava de caminhão pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almoçar. A mãe chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus não explica o que não escreveu. Festa de aniversário não havia. Janaína e Jamela visitavam o cemitério. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irmãs mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte é bem mais durável, não discorda, não quebra, não amolece. A mãe rezava um terço de trás para diante, revezando as novenas com Jamela e Janaína. Quem reza terço se acostuma a algemar as mãos. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas são as que morreram. Cidade pequena é assim: tudo termina cedo para começar mais tarde. Jamela e Janaína são tão fortes que cresceram sem existir. <br /><br />Só Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferença entre uma e outra. <br /><br />Da antologia <b>"Contos sobre tela" (Edições Pinakotheke, 142 páginas)</b>, organização Marcelo Moutinho, vários autores.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>LEITE EMPEDRADO</b><br />Pintura "Léa e Maura", de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mnba.gov.br/2_colecoes/8_pintura_br/2_p_guignard.jpg"><br /><br />Elas não eram gêmeas. Deus não repete a mesma letra. <br /><br />Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus é um autor inédito. Janaína e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A mãe Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a memória dos hóspedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. Não prestou atenção em quem veio primeiro. Janaína ou Jamela? Dois minutos é pouco para uma vida, muito para uma morte. Não pensou nos nomes. Já estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Janaína. Morreram afogadas no açude. Não eram gêmeas. Nada no mundo é gêmeo: a alegria, a dor, a esperança, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o terço gritando. Janaína e Jamela nasceram no dia dos finados. Provocação? Acreditou que Jamela e Janaína eram a Jamela e Janaína afogadas. O leite empedrou como se fosse lápide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de lápide, sem vala de pétala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso é pior do que dor de dente. O seio preso é um dente sufocando a língua. Cheiro trancado é fedor. A fé fede. Janaína e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade não havia. A única certeza é que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete não controlou, gritando de dor. O grito é uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irmãs gêmeas mortas. Jamela gostava de ser Janaína e Janaína gostava de ser Jamela, para enlouquecer a mãe. Mas Jamela se agravava em Janaína pela cova abaixo da boca e Janaína se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Boécio andava de caminhão pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almoçar. A mãe chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus não explica o que não escreveu. Festa de aniversário não havia. Janaína e Jamela visitavam o cemitério. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irmãs mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte é bem mais durável, não discorda, não quebra, não amolece. A mãe rezava um terço de trás para diante, revezando as novenas com Jamela e Janaína. Quem reza terço se acostuma a algemar as mãos. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas são as que morreram. Cidade pequena é assim: tudo termina cedo para começar mais tarde. Jamela e Janaína são tão fortes que cresceram sem existir. <br /><br />Só Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferença entre uma e outra. <br /><br />Da antologia <b>"Contos sobre tela" (Edições Pinakotheke, 142 páginas)</b>, organização Marcelo Moutinho, vários autores.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>10/26/2006 07:50:43 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SÚBITA COMPREENSÃO</b><br />Pintura de Guayasamin<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://i18.ebayimg.com/04/i/07/e4/c6/de_1_b.JPG"><br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i>. Ele usa todo o céu da boca para a declaração <br /><br />Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua saúde, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu desânimo, o estresse, a irritação excessiva. De onde partiu essa generosidade? <br /><br />Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. Não é esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de colocá-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrifício, renuncia o egoísmo para agradá-la. Finalmente se põe no lugar da mulher e vislumbra uma saída.  <br /><br />Com fala mansa e cordial, adverte que você precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agradável passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo egoísta, que não percebeu seu cansaço antes e pede desculpa pela lentidão de raciocínio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. <br /><br />Recomenda até uma viagem de férias, para Maceió, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. "Eu cuido da casa, fica tranqüila", avisa. Promete que as plantinhas não irão morrer de sede, tem cabimento?<br /><br />A impressão inicial é que teve um estalo, bateu a cabeça, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hibernação masculina. <br /><br />O que cheira mal é que a frase surge unicamente na crise e na tensão. Na briga e na despedida. Não será ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. Não será ouvida no início do relacionamento. Aparece nos créditos finais do amor, quando o filme já foi visto. <br /><br />A expressão é uma paulada, um genérico do "quero continuar seu amigo". Triste escutá-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. <br /><br />O que ele está pedindo para que faça quer fazer para si e não tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. É um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: "tem razão", para em seguida soltar os demônios, aprontar, fazer a pose de vítima e não se responsabilizar pela separação. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. <br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i> deve ser lido "é melhor nos separarmos, que tenho outros projetos". <b><i>Só quero que seja feliz</i></b> deve ser interpretado "quero minha felicidade, que não combina com a sua". <i><b>Só quero que seja feliz</b></i> é uma ordem de despejo entregue com educação. <br /><br />Nunca somos felizes pelos outros. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>SÚBITA COMPREENSÃO</b><br />Pintura de Guayasamin<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://i18.ebayimg.com/04/i/07/e4/c6/de_1_b.JPG"><br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i>. Ele usa todo o céu da boca para a declaração <br /><br />Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua saúde, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu desânimo, o estresse, a irritação excessiva. De onde partiu essa generosidade? <br /><br />Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. Não é esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de colocá-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrifício, renuncia o egoísmo para agradá-la. Finalmente se põe no lugar da mulher e vislumbra uma saída.  <br /><br />Com fala mansa e cordial, adverte que você precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agradável passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo egoísta, que não percebeu seu cansaço antes e pede desculpa pela lentidão de raciocínio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. <br /><br />Recomenda até uma viagem de férias, para Maceió, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. "Eu cuido da casa, fica tranqüila", avisa. Promete que as plantinhas não irão morrer de sede, tem cabimento?<br /><br />A impressão inicial é que teve um estalo, bateu a cabeça, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hibernação masculina. <br /><br />O que cheira mal é que a frase surge unicamente na crise e na tensão. Na briga e na despedida. Não será ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. Não será ouvida no início do relacionamento. Aparece nos créditos finais do amor, quando o filme já foi visto. <br /><br />A expressão é uma paulada, um genérico do "quero continuar seu amigo". Triste escutá-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. <br /><br />O que ele está pedindo para que faça quer fazer para si e não tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. É um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: "tem razão", para em seguida soltar os demônios, aprontar, fazer a pose de vítima e não se responsabilizar pela separação. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. <br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i> deve ser lido "é melhor nos separarmos, que tenho outros projetos". <b><i>Só quero que seja feliz</i></b> deve ser interpretado "quero minha felicidade, que não combina com a sua". <i><b>Só quero que seja feliz</b></i> é uma ordem de despejo entregue com educação. <br /><br />Nunca somos felizes pelos outros. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SÚBITA COMPREENSÃO</b><br />Pintura de Guayasamin<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://i18.ebayimg.com/04/i/07/e4/c6/de_1_b.JPG"><br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i>. Ele usa todo o céu da boca para a declaração <br /><br />Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua saúde, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu desânimo, o estresse, a irritação excessiva. De onde partiu essa generosidade? <br /><br />Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. Não é esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de colocá-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrifício, renuncia o egoísmo para agradá-la. Finalmente se põe no lugar da mulher e vislumbra uma saída.  <br /><br />Com fala mansa e cordial, adverte que você precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agradável passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo egoísta, que não percebeu seu cansaço antes e pede desculpa pela lentidão de raciocínio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. <br /><br />Recomenda até uma viagem de férias, para Maceió, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. "Eu cuido da casa, fica tranqüila", avisa. Promete que as plantinhas não irão morrer de sede, tem cabimento?<br /><br />A impressão inicial é que teve um estalo, bateu a cabeça, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hibernação masculina. <br /><br />O que cheira mal é que a frase surge unicamente na crise e na tensão. Na briga e na despedida. Não será ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. Não será ouvida no início do relacionamento. Aparece nos créditos finais do amor, quando o filme já foi visto. <br /><br />A expressão é uma paulada, um genérico do "quero continuar seu amigo". Triste escutá-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. <br /><br />O que ele está pedindo para que faça quer fazer para si e não tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. É um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: "tem razão", para em seguida soltar os demônios, aprontar, fazer a pose de vítima e não se responsabilizar pela separação. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. <br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i> deve ser lido "é melhor nos separarmos, que tenho outros projetos". <b><i>Só quero que seja feliz</i></b> deve ser interpretado "quero minha felicidade, que não combina com a sua". <i><b>Só quero que seja feliz</b></i> é uma ordem de despejo entregue com educação. <br /><br />Nunca somos felizes pelos outros. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/25/2006 02:30:29 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>REDIAL</b><br />Para <a href="http://falsamagra.zip.net/index.html">Aninha</a>, em nosso aniversário<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://spaightwoodgalleries.com/Media/Chagall/Chagall_House_Village.jpg"><br /><br />Eu ligo <i>umas</i> doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma tragédia ou uma bonança que dará no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invisível. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. <br /><br />Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solidão ao meu lado precisa me incluir. Não permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalculável. Toma uma decisão delicadíssima numa reunião e lá vem seu marido interromper e perguntar de repente se está tudo bem com ênfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordinário ocorreu desde a última vez que conversamos, mas extraordinário é arrumar linguagem sem a ação. A linguagem torna-se ação. <br /><br />Peço exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela não me socorre na hora. Descrevo o que comi no almoço, faço fofoca da família, aviso da última contratação do Internacional. Ou seja, temas inadiáveis. Sou como uma mãe novata, que detalha os primeiros sons do bebê com assombro. Ainda estou nascendo em mim. <br /><br />Há momentos insuportáveis, em que embeiço um favor quando ela não pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa é autoritária: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paciência com relatórios do nada. <br /><br />Herdei de minha mãe o dom aos assuntos secundários. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, comentários fugazes para chegar ao motivo da ligação. Aliás, é raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esqueço o que desejava. Não ligo para passar recados e urgências. Ligo para estar junto. Uma das contradições é que uso a concisão somente ao receber chamadas e me perco ao fazê-las. <br /><br />Não digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promoção imperdível de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela já tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estará em casa e me mandará subir. <br /><br />Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declaração que escapa. Uma observação que esqueci e temo que seja enterrada. Já desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  <br /><br />Minha independência é da boca para fora, não sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  Não é insegurança, carência e couro do divã. As vozes dentro de mim não são tão atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>REDIAL</b><br />Para <a href="http://falsamagra.zip.net/index.html">Aninha</a>, em nosso aniversário<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://spaightwoodgalleries.com/Media/Chagall/Chagall_House_Village.jpg"><br /><br />Eu ligo <i>umas</i> doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma tragédia ou uma bonança que dará no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invisível. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. <br /><br />Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solidão ao meu lado precisa me incluir. Não permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalculável. Toma uma decisão delicadíssima numa reunião e lá vem seu marido interromper e perguntar de repente se está tudo bem com ênfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordinário ocorreu desde a última vez que conversamos, mas extraordinário é arrumar linguagem sem a ação. A linguagem torna-se ação. <br /><br />Peço exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela não me socorre na hora. Descrevo o que comi no almoço, faço fofoca da família, aviso da última contratação do Internacional. Ou seja, temas inadiáveis. Sou como uma mãe novata, que detalha os primeiros sons do bebê com assombro. Ainda estou nascendo em mim. <br /><br />Há momentos insuportáveis, em que embeiço um favor quando ela não pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa é autoritária: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paciência com relatórios do nada. <br /><br />Herdei de minha mãe o dom aos assuntos secundários. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, comentários fugazes para chegar ao motivo da ligação. Aliás, é raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esqueço o que desejava. Não ligo para passar recados e urgências. Ligo para estar junto. Uma das contradições é que uso a concisão somente ao receber chamadas e me perco ao fazê-las. <br /><br />Não digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promoção imperdível de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela já tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estará em casa e me mandará subir. <br /><br />Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declaração que escapa. Uma observação que esqueci e temo que seja enterrada. Já desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  <br /><br />Minha independência é da boca para fora, não sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  Não é insegurança, carência e couro do divã. As vozes dentro de mim não são tão atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>REDIAL</b><br />Para <a href="http://falsamagra.zip.net/index.html">Aninha</a>, em nosso aniversário<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://spaightwoodgalleries.com/Media/Chagall/Chagall_House_Village.jpg"><br /><br />Eu ligo <i>umas</i> doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma tragédia ou uma bonança que dará no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invisível. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. <br /><br />Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solidão ao meu lado precisa me incluir. Não permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalculável. Toma uma decisão delicadíssima numa reunião e lá vem seu marido interromper e perguntar de repente se está tudo bem com ênfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordinário ocorreu desde a última vez que conversamos, mas extraordinário é arrumar linguagem sem a ação. A linguagem torna-se ação. <br /><br />Peço exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela não me socorre na hora. Descrevo o que comi no almoço, faço fofoca da família, aviso da última contratação do Internacional. Ou seja, temas inadiáveis. Sou como uma mãe novata, que detalha os primeiros sons do bebê com assombro. Ainda estou nascendo em mim. <br /><br />Há momentos insuportáveis, em que embeiço um favor quando ela não pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa é autoritária: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paciência com relatórios do nada. <br /><br />Herdei de minha mãe o dom aos assuntos secundários. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, comentários fugazes para chegar ao motivo da ligação. Aliás, é raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esqueço o que desejava. Não ligo para passar recados e urgências. Ligo para estar junto. Uma das contradições é que uso a concisão somente ao receber chamadas e me perco ao fazê-las. <br /><br />Não digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promoção imperdível de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela já tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estará em casa e me mandará subir. <br /><br />Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declaração que escapa. Uma observação que esqueci e temo que seja enterrada. Já desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  <br /><br />Minha independência é da boca para fora, não sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  Não é insegurança, carência e couro do divã. As vozes dentro de mim não são tão atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<pubDate>10/24/2006 11:05:10 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS</b><br /><br /><img src="http://www.waw.com.br/new/2004/cigarro-a.jpg"><br /><br /><b>*</b> Estava devendo notícias. Testei os meus limites nas últimas semanas alternando abstinência e ciclos de cigarros intermináveis. Houve dias que não fumei nada; em outros, uma carteira até enjoar. <br /><br /><b>*</b> Quem me viu em Brasília pitando, pode guardar a imagem para um antiquário. <br /><br /><b>*</b> Desde ontem, não fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declarações emocionadas. Em circunstâncias semelhantes, teria fumado um maço. <br /><br /><b>*</b> É esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, mão invisível de vidro.<br /><br /><b>*</b> Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de aniversário. Mudei minha perspectiva de enxergar o vício: eu me trato como um não-fumante, que é melhor do que ex-fumante. É uma cilada psicológica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabeça que nunca fumei, não sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em dívida, perdendo tempo e prazer.<br /><br /><b>*</b> Um fumante cessa seu vício depois de várias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minoritário. Como ninguém mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provocação. Uma esperança sem resistência não é esperança. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS</b><br /><br /><img src="http://www.waw.com.br/new/2004/cigarro-a.jpg"><br /><br /><b>*</b> Estava devendo notícias. Testei os meus limites nas últimas semanas alternando abstinência e ciclos de cigarros intermináveis. Houve dias que não fumei nada; em outros, uma carteira até enjoar. <br /><br /><b>*</b> Quem me viu em Brasília pitando, pode guardar a imagem para um antiquário. <br /><br /><b>*</b> Desde ontem, não fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declarações emocionadas. Em circunstâncias semelhantes, teria fumado um maço. <br /><br /><b>*</b> É esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, mão invisível de vidro.<br /><br /><b>*</b> Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de aniversário. Mudei minha perspectiva de enxergar o vício: eu me trato como um não-fumante, que é melhor do que ex-fumante. É uma cilada psicológica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabeça que nunca fumei, não sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em dívida, perdendo tempo e prazer.<br /><br /><b>*</b> Um fumante cessa seu vício depois de várias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minoritário. Como ninguém mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provocação. Uma esperança sem resistência não é esperança. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS</b><br /><br /><img src="http://www.waw.com.br/new/2004/cigarro-a.jpg"><br /><br /><b>*</b> Estava devendo notícias. Testei os meus limites nas últimas semanas alternando abstinência e ciclos de cigarros intermináveis. Houve dias que não fumei nada; em outros, uma carteira até enjoar. <br /><br /><b>*</b> Quem me viu em Brasília pitando, pode guardar a imagem para um antiquário. <br /><br /><b>*</b> Desde ontem, não fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declarações emocionadas. Em circunstâncias semelhantes, teria fumado um maço. <br /><br /><b>*</b> É esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, mão invisível de vidro.<br /><br /><b>*</b> Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de aniversário. Mudei minha perspectiva de enxergar o vício: eu me trato como um não-fumante, que é melhor do que ex-fumante. É uma cilada psicológica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabeça que nunca fumei, não sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em dívida, perdendo tempo e prazer.<br /><br /><b>*</b> Um fumante cessa seu vício depois de várias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minoritário. Como ninguém mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provocação. Uma esperança sem resistência não é esperança. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39129245</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/24/2006 10:54:03 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><b>25/10 (quarta), às 20h</b> - Ao lado da escritora Cláudia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a vítima do <b>Papocabeça</b>, debate quinzenal pop-filosófico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A mediação é de <b>Carol Teixeira</b>, com total apoio do público, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    <br /><br /><b>31/10 e 1º/11 (terça e quarta)</b> - <a href="http://www.forumdasletras.ufop.br/2006/">Fórum das Letras de Ouro Preto (FLOP)</a> -  Minas Gerais <br />Na noite de terça (1°/11), sou o convidado da <i>Via Sacra Poética</i>, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos poéticos em bares e restaurantes da cidade. Informações Gerais:  (31) 3551-2120<br /><br /><b>PARTICIPAÇÃO NA <a href="http://www.feiradolivro-poa.com.br/">52ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE</a></b><br /><br /><b>28, 29 e 30/10 - sábado, domingo e segunda - 18h30</b><br />Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)<br /><b>OFICINA DE CRÔNICAS</b>, por Fabrício Carpinejar <br />Primeiros passos no gênero: escolha de temas, estrutura da crônica, observação do cotidiano.<br /><br /><b>30/10 - segunda - 17h30</b><br />Sala dos Jacarandás - Memorial do RS (junto à Feira do Livro).<br /><b>Lançamento do CD "<a href="http://www.trintaemtranse.com.br/">Trinta em Transe</a>"</b>, coletânea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa "O que uma mulher quer?", do livro "O Amor Esquece de Começar".  <br />O disco já está disponível em várias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e lá vai corda). <br /><i>Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com</i><br /><br /><b>02/11 - quinta -18h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do Patrono<br /><b>FAHRENHEIT 451: Fabrício Carpinejar</b><br />Patronáveis apresentam seus clássicos preferidos. Interpreto "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima. <br /> <br /><b>03/11- sexta - 19h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O Retrato<br /><b>A REFLEXÃO CRÍTICA EM POESIA</b><br />(Bate-papo arejado e benfazejo)<br />Fabrício Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto<br />  <br /><b>03/11 - sexta - 20h30</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Auditório Barbosa Lessa<br /><b>POESIA EXPLÍCITA AO VIVO</b>, <br />(Espetáculo de Fabrício Carpinejar e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>)<br /><br /><b>04/11 - sábado - 19h30<br />Pavilhão de Autógrafos<br />Sessão de autógrafos do livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de "O Herói Desvalido", de Maria Carpi</b><br /><br /><b>5/11 - domingo - 18h</b><br />Casa do Pensamento, Área Infantil e Juvenil - Armazém A do Cais do Porto<br /><b>A UMBIGOLATRIA NACIONAL</b><br />(Considerações sobre o individualismo dos brasileiros)<br />Fabrício Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, Ênio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Valério<br /><br /><b>11/11 - sábado - 17h30</b><br />Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarandás<br />Vicente Franz Cecim apresentado por Fabrício Carpinejar e Antônio Hohlfeldt<br />(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que reúne poesia, ensaio, prosa e anotações de viagem).<br /></title>
<description><![CDATA[<b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><b>25/10 (quarta), às 20h</b> - Ao lado da escritora Cláudia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a vítima do <b>Papocabeça</b>, debate quinzenal pop-filosófico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A mediação é de <b>Carol Teixeira</b>, com total apoio do público, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    <br /><br /><b>31/10 e 1º/11 (terça e quarta)</b> - <a href="http://www.forumdasletras.ufop.br/2006/">Fórum das Letras de Ouro Preto (FLOP)</a> -  Minas Gerais <br />Na noite de terça (1°/11), sou o convidado da <i>Via Sacra Poética</i>, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos poéticos em bares e restaurantes da cidade. Informações Gerais:  (31) 3551-2120<br /><br /><b>PARTICIPAÇÃO NA <a href="http://www.feiradolivro-poa.com.br/">52ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE</a></b><br /><br /><b>28, 29 e 30/10 - sábado, domingo e segunda - 18h30</b><br />Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)<br /><b>OFICINA DE CRÔNICAS</b>, por Fabrício Carpinejar <br />Primeiros passos no gênero: escolha de temas, estrutura da crônica, observação do cotidiano.<br /><br /><b>30/10 - segunda - 17h30</b><br />Sala dos Jacarandás - Memorial do RS (junto à Feira do Livro).<br /><b>Lançamento do CD "<a href="http://www.trintaemtranse.com.br/">Trinta em Transe</a>"</b>, coletânea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa "O que uma mulher quer?", do livro "O Amor Esquece de Começar".  <br />O disco já está disponível em várias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e lá vai corda). <br /><i>Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com</i><br /><br /><b>02/11 - quinta -18h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do Patrono<br /><b>FAHRENHEIT 451: Fabrício Carpinejar</b><br />Patronáveis apresentam seus clássicos preferidos. Interpreto "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima. <br /> <br /><b>03/11- sexta - 19h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O Retrato<br /><b>A REFLEXÃO CRÍTICA EM POESIA</b><br />(Bate-papo arejado e benfazejo)<br />Fabrício Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto<br />  <br /><b>03/11 - sexta - 20h30</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Auditório Barbosa Lessa<br /><b>POESIA EXPLÍCITA AO VIVO</b>, <br />(Espetáculo de Fabrício Carpinejar e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>)<br /><br /><b>04/11 - sábado - 19h30<br />Pavilhão de Autógrafos<br />Sessão de autógrafos do livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de "O Herói Desvalido", de Maria Carpi</b><br /><br /><b>5/11 - domingo - 18h</b><br />Casa do Pensamento, Área Infantil e Juvenil - Armazém A do Cais do Porto<br /><b>A UMBIGOLATRIA NACIONAL</b><br />(Considerações sobre o individualismo dos brasileiros)<br />Fabrício Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, Ênio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Valério<br /><br /><b>11/11 - sábado - 17h30</b><br />Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarandás<br />Vicente Franz Cecim apresentado por Fabrício Carpinejar e Antônio Hohlfeldt<br />(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que reúne poesia, ensaio, prosa e anotações de viagem).<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><b>25/10 (quarta), às 20h</b> - Ao lado da escritora Cláudia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a vítima do <b>Papocabeça</b>, debate quinzenal pop-filosófico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A mediação é de <b>Carol Teixeira</b>, com total apoio do público, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    <br /><br /><b>31/10 e 1º/11 (terça e quarta)</b> - <a href="http://www.forumdasletras.ufop.br/2006/">Fórum das Letras de Ouro Preto (FLOP)</a> -  Minas Gerais <br />Na noite de terça (1°/11), sou o convidado da <i>Via Sacra Poética</i>, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos poéticos em bares e restaurantes da cidade. Informações Gerais:  (31) 3551-2120<br /><br /><b>PARTICIPAÇÃO NA <a href="http://www.feiradolivro-poa.com.br/">52ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE</a></b><br /><br /><b>28, 29 e 30/10 - sábado, domingo e segunda - 18h30</b><br />Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)<br /><b>OFICINA DE CRÔNICAS</b>, por Fabrício Carpinejar <br />Primeiros passos no gênero: escolha de temas, estrutura da crônica, observação do cotidiano.<br /><br /><b>30/10 - segunda - 17h30</b><br />Sala dos Jacarandás - Memorial do RS (junto à Feira do Livro).<br /><b>Lançamento do CD "<a href="http://www.trintaemtranse.com.br/">Trinta em Transe</a>"</b>, coletânea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa "O que uma mulher quer?", do livro "O Amor Esquece de Começar".  <br />O disco já está disponível em várias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e lá vai corda). <br /><i>Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com</i><br /><br /><b>02/11 - quinta -18h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do Patrono<br /><b>FAHRENHEIT 451: Fabrício Carpinejar</b><br />Patronáveis apresentam seus clássicos preferidos. Interpreto "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima. <br /> <br /><b>03/11- sexta - 19h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O Retrato<br /><b>A REFLEXÃO CRÍTICA EM POESIA</b><br />(Bate-papo arejado e benfazejo)<br />Fabrício Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto<br />  <br /><b>03/11 - sexta - 20h30</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Auditório Barbosa Lessa<br /><b>POESIA EXPLÍCITA AO VIVO</b>, <br />(Espetáculo de Fabrício Carpinejar e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>)<br /><br /><b>04/11 - sábado - 19h30<br />Pavilhão de Autógrafos<br />Sessão de autógrafos do livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de "O Herói Desvalido", de Maria Carpi</b><br /><br /><b>5/11 - domingo - 18h</b><br />Casa do Pensamento, Área Infantil e Juvenil - Armazém A do Cais do Porto<br /><b>A UMBIGOLATRIA NACIONAL</b><br />(Considerações sobre o individualismo dos brasileiros)<br />Fabrício Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, Ênio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Valério<br /><br /><b>11/11 - sábado - 17h30</b><br />Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarandás<br />Vicente Franz Cecim apresentado por Fabrício Carpinejar e Antônio Hohlfeldt<br />(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que reúne poesia, ensaio, prosa e anotações de viagem).<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/24/2006 09:46:56 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O MAPA </b><br />Para Sylvia<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.geocities.com/WallStreet/3701/ita/pictures/itamg.jpg"><br /><br />O escritório amarelo, os quadros alinhados e distribuídos com equilíbrio, as cores dos móveis evocando o miolo dos girassóis. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o rústico e o preciso. Você sabe a casa em que é mais fácil encontrar um jogo de gamão do que um tabuleiro de xadrez?  Pois é essa que estou falando. <br /><br />Era uma casa de bom gosto, se não fosse um mapa rodoviário grudado na parede com durex. Um mapa com a confusão babélica das linhas viárias. <br /><br />Não compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Brasília. Ela não viajava muito, não tinha nenhuma atividade geográfica em sua docência na universidade. Muito menos constava possuir uma obsessão por guias turísticos. Ou uma queda por arqueologia. <br /><br />O mapa combinaria com um posto da polícia rodoviária, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, não naquele lugar temperado de livros e relíquias pessoais. <br /><br />A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, círculos afobados, movimentos migratórios das mãos. Traçado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas não nos desenhos.  <br /><br />Fiquei aguardando no sofá a amiga se arrumar para sairmos, até que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escritório e conseguiu atender no último toque. O último toque é sempre o que apanhamos com o fôlego cortado. <br /><br />Começou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar distâncias com a pressão do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simultâneos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microscópicos dos municípios e manter a ligação em um estado civilizatório de pergunta-resposta.  <br /><br />Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excursão. <br /><br />Neste momento, entendi, entendi entendi.<br /><br />Ela reproduzia as andanças de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avanços e recuos, esperando que ele ficasse tão próximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a saída mais próxima.<br /><br />Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela já terá imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, já lembrará da estação. <br /><br />Só o amor é capaz de ser tão patético e assim soar sublime. Tão ridículo e assim alcançar a verdade. <br /><br />Só o amor é capaz de articular segredos sem denunciar a devoção, sem depender das recompensas. <br /><br />Ela não colocou o mapa para esnobar o que está sentindo ou provar alguma coisa. Não me contou nada, descobri por acaso. <br /><br />O mapa é o rascunho do corpo dele. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O MAPA </b><br />Para Sylvia<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.geocities.com/WallStreet/3701/ita/pictures/itamg.jpg"><br /><br />O escritório amarelo, os quadros alinhados e distribuídos com equilíbrio, as cores dos móveis evocando o miolo dos girassóis. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o rústico e o preciso. Você sabe a casa em que é mais fácil encontrar um jogo de gamão do que um tabuleiro de xadrez?  Pois é essa que estou falando. <br /><br />Era uma casa de bom gosto, se não fosse um mapa rodoviário grudado na parede com durex. Um mapa com a confusão babélica das linhas viárias. <br /><br />Não compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Brasília. Ela não viajava muito, não tinha nenhuma atividade geográfica em sua docência na universidade. Muito menos constava possuir uma obsessão por guias turísticos. Ou uma queda por arqueologia. <br /><br />O mapa combinaria com um posto da polícia rodoviária, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, não naquele lugar temperado de livros e relíquias pessoais. <br /><br />A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, círculos afobados, movimentos migratórios das mãos. Traçado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas não nos desenhos.  <br /><br />Fiquei aguardando no sofá a amiga se arrumar para sairmos, até que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escritório e conseguiu atender no último toque. O último toque é sempre o que apanhamos com o fôlego cortado. <br /><br />Começou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar distâncias com a pressão do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simultâneos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microscópicos dos municípios e manter a ligação em um estado civilizatório de pergunta-resposta.  <br /><br />Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excursão. <br /><br />Neste momento, entendi, entendi entendi.<br /><br />Ela reproduzia as andanças de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avanços e recuos, esperando que ele ficasse tão próximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a saída mais próxima.<br /><br />Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela já terá imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, já lembrará da estação. <br /><br />Só o amor é capaz de ser tão patético e assim soar sublime. Tão ridículo e assim alcançar a verdade. <br /><br />Só o amor é capaz de articular segredos sem denunciar a devoção, sem depender das recompensas. <br /><br />Ela não colocou o mapa para esnobar o que está sentindo ou provar alguma coisa. Não me contou nada, descobri por acaso. <br /><br />O mapa é o rascunho do corpo dele. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O MAPA </b><br />Para Sylvia<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.geocities.com/WallStreet/3701/ita/pictures/itamg.jpg"><br /><br />O escritório amarelo, os quadros alinhados e distribuídos com equilíbrio, as cores dos móveis evocando o miolo dos girassóis. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o rústico e o preciso. Você sabe a casa em que é mais fácil encontrar um jogo de gamão do que um tabuleiro de xadrez?  Pois é essa que estou falando. <br /><br />Era uma casa de bom gosto, se não fosse um mapa rodoviário grudado na parede com durex. Um mapa com a confusão babélica das linhas viárias. <br /><br />Não compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Brasília. Ela não viajava muito, não tinha nenhuma atividade geográfica em sua docência na universidade. Muito menos constava possuir uma obsessão por guias turísticos. Ou uma queda por arqueologia. <br /><br />O mapa combinaria com um posto da polícia rodoviária, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, não naquele lugar temperado de livros e relíquias pessoais. <br /><br />A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, círculos afobados, movimentos migratórios das mãos. Traçado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas não nos desenhos.  <br /><br />Fiquei aguardando no sofá a amiga se arrumar para sairmos, até que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escritório e conseguiu atender no último toque. O último toque é sempre o que apanhamos com o fôlego cortado. <br /><br />Começou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar distâncias com a pressão do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simultâneos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microscópicos dos municípios e manter a ligação em um estado civilizatório de pergunta-resposta.  <br /><br />Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excursão. <br /><br />Neste momento, entendi, entendi entendi.<br /><br />Ela reproduzia as andanças de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avanços e recuos, esperando que ele ficasse tão próximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a saída mais próxima.<br /><br />Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela já terá imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, já lembrará da estação. <br /><br />Só o amor é capaz de ser tão patético e assim soar sublime. Tão ridículo e assim alcançar a verdade. <br /><br />Só o amor é capaz de articular segredos sem denunciar a devoção, sem depender das recompensas. <br /><br />Ela não colocou o mapa para esnobar o que está sentindo ou provar alguma coisa. Não me contou nada, descobri por acaso. <br /><br />O mapa é o rascunho do corpo dele. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39124622</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/22/2006 04:25:28 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CARPINEJAR SEM CENSURA</b><br /><br />Minha filha <a href="http://pontacabeca.zip.net">Mariana</a>, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome é <b>"Carpinejar Revelação"</b>. Não tenho nem idéia do que virá. Como é surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que você. <a href="http://carpinejar.zip.net/">Confira</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>CARPINEJAR SEM CENSURA</b><br /><br />Minha filha <a href="http://pontacabeca.zip.net">Mariana</a>, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome é <b>"Carpinejar Revelação"</b>. Não tenho nem idéia do que virá. Como é surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que você. <a href="http://carpinejar.zip.net/">Confira</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CARPINEJAR SEM CENSURA</b><br /><br />Minha filha <a href="http://pontacabeca.zip.net">Mariana</a>, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome é <b>"Carpinejar Revelação"</b>. Não tenho nem idéia do que virá. Como é surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que você. <a href="http://carpinejar.zip.net/">Confira</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39121351</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/21/2006 08:31:31 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CAMISA AZUL-GRENÁ</b><br />Arte de Arthur Bispo do Rosário<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://personales.ya.com/laemental/bispo_02.jpg"><br /><br />Minha avó usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de aniversário, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impressão é de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um único dia. <br /><br />Seus olhos formavam leques, com as abas internas à mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E não a boca. Piscava muito, a abafar as diferenças entre os familiares. Disfarçava as brigas dos filhos e tios, já que não havia como evitá-las. <br /><br />Sua camisa azul-grená foi a minha grande tentação. Os botões perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. <br /><br />Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irmãos e os vizinhos... Suportávamos botões furados, quadrados, excessivamente redondos, que não voavam como pretendíamos para as redes. <br /><br />De repente, a camisa azul-grená oferecia dez botões fabulosos. Desenrolando os frágeis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas mãos, para a inveja dos adversários. <br /><br />Minha avó morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os botões quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O sutiã não me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. <br /><br />Esperei sua saída na fruteira, de manhãzinha, para furtar a peça. Entrei manso em seu quarto. Impossível entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o botão da manga, julgando ser o mais fácil de cair e soar como queda involuntária. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para não ser flagrado. A culpa não combinava com os figos maduros e avermelhados do pátio. <br /><br />Repetia o ritual a cada verão. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha avó, sempre cuidadosa com as roupas, não ia repondo os botões. Vivia pedalando a máquina de costura e não deixava uma única peça desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-grená favorita permanecia desdentada.  <br /><br />O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que não me denunciava e abria o jogo? Eu já roubava esperando ser pego. Já roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. <br /><br />Quando minha avó morreu, vestia a mesma camisa azul-grená. Vestia é modo de dizer. Restavam somente três botões do meio. Deixei para Deus abri-los.<br /> <br />Eu a despi. O mistério é ela ter concordado com isso. <br /><br /><img src="http://www.clubedacalcinha.com.br/logotipo.jpg"><br />(<a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll06.htm">Clube da Calcinha</a>, outubro/2006)<br /></title>
<description><![CDATA[<b>CAMISA AZUL-GRENÁ</b><br />Arte de Arthur Bispo do Rosário<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://personales.ya.com/laemental/bispo_02.jpg"><br /><br />Minha avó usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de aniversário, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impressão é de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um único dia. <br /><br />Seus olhos formavam leques, com as abas internas à mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E não a boca. Piscava muito, a abafar as diferenças entre os familiares. Disfarçava as brigas dos filhos e tios, já que não havia como evitá-las. <br /><br />Sua camisa azul-grená foi a minha grande tentação. Os botões perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. <br /><br />Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irmãos e os vizinhos... Suportávamos botões furados, quadrados, excessivamente redondos, que não voavam como pretendíamos para as redes. <br /><br />De repente, a camisa azul-grená oferecia dez botões fabulosos. Desenrolando os frágeis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas mãos, para a inveja dos adversários. <br /><br />Minha avó morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os botões quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O sutiã não me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. <br /><br />Esperei sua saída na fruteira, de manhãzinha, para furtar a peça. Entrei manso em seu quarto. Impossível entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o botão da manga, julgando ser o mais fácil de cair e soar como queda involuntária. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para não ser flagrado. A culpa não combinava com os figos maduros e avermelhados do pátio. <br /><br />Repetia o ritual a cada verão. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha avó, sempre cuidadosa com as roupas, não ia repondo os botões. Vivia pedalando a máquina de costura e não deixava uma única peça desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-grená favorita permanecia desdentada.  <br /><br />O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que não me denunciava e abria o jogo? Eu já roubava esperando ser pego. Já roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. <br /><br />Quando minha avó morreu, vestia a mesma camisa azul-grená. Vestia é modo de dizer. Restavam somente três botões do meio. Deixei para Deus abri-los.<br /> <br />Eu a despi. O mistério é ela ter concordado com isso. <br /><br /><img src="http://www.clubedacalcinha.com.br/logotipo.jpg"><br />(<a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll06.htm">Clube da Calcinha</a>, outubro/2006)<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CAMISA AZUL-GRENÁ</b><br />Arte de Arthur Bispo do Rosário<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://personales.ya.com/laemental/bispo_02.jpg"><br /><br />Minha avó usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de aniversário, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impressão é de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um único dia. <br /><br />Seus olhos formavam leques, com as abas internas à mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E não a boca. Piscava muito, a abafar as diferenças entre os familiares. Disfarçava as brigas dos filhos e tios, já que não havia como evitá-las. <br /><br />Sua camisa azul-grená foi a minha grande tentação. Os botões perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. <br /><br />Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irmãos e os vizinhos... Suportávamos botões furados, quadrados, excessivamente redondos, que não voavam como pretendíamos para as redes. <br /><br />De repente, a camisa azul-grená oferecia dez botões fabulosos. Desenrolando os frágeis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas mãos, para a inveja dos adversários. <br /><br />Minha avó morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os botões quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O sutiã não me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. <br /><br />Esperei sua saída na fruteira, de manhãzinha, para furtar a peça. Entrei manso em seu quarto. Impossível entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o botão da manga, julgando ser o mais fácil de cair e soar como queda involuntária. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para não ser flagrado. A culpa não combinava com os figos maduros e avermelhados do pátio. <br /><br />Repetia o ritual a cada verão. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha avó, sempre cuidadosa com as roupas, não ia repondo os botões. Vivia pedalando a máquina de costura e não deixava uma única peça desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-grená favorita permanecia desdentada.  <br /><br />O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que não me denunciava e abria o jogo? Eu já roubava esperando ser pego. Já roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. <br /><br />Quando minha avó morreu, vestia a mesma camisa azul-grená. Vestia é modo de dizer. Restavam somente três botões do meio. Deixei para Deus abri-los.<br /> <br />Eu a despi. O mistério é ela ter concordado com isso. <br /><br /><img src="http://www.clubedacalcinha.com.br/logotipo.jpg"><br />(<a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll06.htm">Clube da Calcinha</a>, outubro/2006)<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39112790</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/18/2006 10:27:13 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>TÁ ACABANDO!</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://www.eyestorm.com/images/big/bwork12149.jpg"><br /><br />No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma calça a outra. As moedas não se desvalorizavam com as mudanças histéricas dos planos econômicos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telefônicas, numa época distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de família. Na década de 80, eu não chegava em casa sem contar os telefones públicos no caminho. Por uma questão de urgência e prevenção, se o primeiro não funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelhão tinha a importância de parada de ônibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.<br /><br />Filas se formavam diante do telefone, em qualquer horário e chuva. Igual a comício-relâmpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que caía produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necessário. Quantas declarações amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos não foram interrompidos com "fala rápido, não tenho mais ficha"?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perdão, a ligação silenciava. O "alô alô" desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. <br /><br />O aparelho engolia a seco as aspirinas metálicas. O orelhão hipocondríaco tomava umas cem por dia e não morria. Agüentava a overdose de um dia inteiro até chegar o para-médico da companhia telefônica, que realizava a lavagem estomacal.<br /><br />Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e calçasse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfarçar a pressa. Deixava a menina relatar minúcias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. <br /><br />Abafava os soluços do telefone quando consumia os créditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha tropeçando para dentro. Escondia o barulho de estômago falando repentinamente mais alto. <br /><br />Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atrás de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelhão era feito para dar recado, mas ninguém obedecia à regra de etiqueta. Impossível não contrariá-lo. De bom tom não olhar para trás, senão batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usuários. Colava, portanto, o rosto no disco e virava estátua. <br /><br />Havia a paciência de ouvir as conversas alheias. Não foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha idéia e marcava um novo encontro. <br /><br />O orelhão me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>TÁ ACABANDO!</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://www.eyestorm.com/images/big/bwork12149.jpg"><br /><br />No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma calça a outra. As moedas não se desvalorizavam com as mudanças histéricas dos planos econômicos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telefônicas, numa época distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de família. Na década de 80, eu não chegava em casa sem contar os telefones públicos no caminho. Por uma questão de urgência e prevenção, se o primeiro não funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelhão tinha a importância de parada de ônibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.<br /><br />Filas se formavam diante do telefone, em qualquer horário e chuva. Igual a comício-relâmpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que caía produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necessário. Quantas declarações amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos não foram interrompidos com "fala rápido, não tenho mais ficha"?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perdão, a ligação silenciava. O "alô alô" desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. <br /><br />O aparelho engolia a seco as aspirinas metálicas. O orelhão hipocondríaco tomava umas cem por dia e não morria. Agüentava a overdose de um dia inteiro até chegar o para-médico da companhia telefônica, que realizava a lavagem estomacal.<br /><br />Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e calçasse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfarçar a pressa. Deixava a menina relatar minúcias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. <br /><br />Abafava os soluços do telefone quando consumia os créditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha tropeçando para dentro. Escondia o barulho de estômago falando repentinamente mais alto. <br /><br />Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atrás de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelhão era feito para dar recado, mas ninguém obedecia à regra de etiqueta. Impossível não contrariá-lo. De bom tom não olhar para trás, senão batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usuários. Colava, portanto, o rosto no disco e virava estátua. <br /><br />Havia a paciência de ouvir as conversas alheias. Não foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha idéia e marcava um novo encontro. <br /><br />O orelhão me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>TÁ ACABANDO!</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://www.eyestorm.com/images/big/bwork12149.jpg"><br /><br />No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma calça a outra. As moedas não se desvalorizavam com as mudanças histéricas dos planos econômicos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telefônicas, numa época distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de família. Na década de 80, eu não chegava em casa sem contar os telefones públicos no caminho. Por uma questão de urgência e prevenção, se o primeiro não funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelhão tinha a importância de parada de ônibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.<br /><br />Filas se formavam diante do telefone, em qualquer horário e chuva. Igual a comício-relâmpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que caía produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necessário. Quantas declarações amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos não foram interrompidos com "fala rápido, não tenho mais ficha"?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perdão, a ligação silenciava. O "alô alô" desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. <br /><br />O aparelho engolia a seco as aspirinas metálicas. O orelhão hipocondríaco tomava umas cem por dia e não morria. Agüentava a overdose de um dia inteiro até chegar o para-médico da companhia telefônica, que realizava a lavagem estomacal.<br /><br />Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e calçasse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfarçar a pressa. Deixava a menina relatar minúcias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. <br /><br />Abafava os soluços do telefone quando consumia os créditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha tropeçando para dentro. Escondia o barulho de estômago falando repentinamente mais alto. <br /><br />Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atrás de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelhão era feito para dar recado, mas ninguém obedecia à regra de etiqueta. Impossível não contrariá-lo. De bom tom não olhar para trás, senão batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usuários. Colava, portanto, o rosto no disco e virava estátua. <br /><br />Havia a paciência de ouvir as conversas alheias. Não foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha idéia e marcava um novo encontro. <br /><br />O orelhão me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/12/2006 12:50:06 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><br /><b>13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabrício Carpinejar</b><br />Bate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue <br /><b>Biblioteca Pública Olavo Bilac</b>, Feira do Livro de São Leopoldo, <b>18h</b>.<br /><br /><b>18/10 (quarta) - <a href="http://br.geocities.com/cenaspoeticas/programacao18.html">FESTIVAL CENAS POÉTICAS DE BRASÍLIA</a></b><br /><br /><b>14h - Leitura Dramática: Fazendo cena com Carpinejar</b><br />Concepção: Grupo Representação e crítica da poesia contemporânea<br />Coordenação: Prof. Dra. Sylvia Cyntrão<br />Direção: Julliany Mucury<br />Local: Auditório Dois Candangos <br /><br /><b>16h - Oficina com Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Poesia não é elogio: desaforando a Vida</i><br /><br /><b>19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)</b><br /><i>Rua Assis Brasil, 709</i><br /><br /><b>21/10 (sábado)</b> - <a href="http://www.feiradolivrocaxias.com.br/">Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)</a><br />Bate-Papo: "Blogs de escritores-jornalistas", com Fabrício Carpinejar e Paulo Ribeiro<br />Café Cultural, na Praça Dante Aligheri, <b>17h</b>  <br /><br /><b>23/10 (segunda)</b> - <b>Entrega do Prêmio Literário Erico Verissimo</b>, pela Câmara Municipal de Porto Alegre (RS). <br />Sarau especial sobre poesia e crônicas de Fabrício Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. <br /><i>Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342</i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><br /><b>13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabrício Carpinejar</b><br />Bate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue <br /><b>Biblioteca Pública Olavo Bilac</b>, Feira do Livro de São Leopoldo, <b>18h</b>.<br /><br /><b>18/10 (quarta) - <a href="http://br.geocities.com/cenaspoeticas/programacao18.html">FESTIVAL CENAS POÉTICAS DE BRASÍLIA</a></b><br /><br /><b>14h - Leitura Dramática: Fazendo cena com Carpinejar</b><br />Concepção: Grupo Representação e crítica da poesia contemporânea<br />Coordenação: Prof. Dra. Sylvia Cyntrão<br />Direção: Julliany Mucury<br />Local: Auditório Dois Candangos <br /><br /><b>16h - Oficina com Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Poesia não é elogio: desaforando a Vida</i><br /><br /><b>19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)</b><br /><i>Rua Assis Brasil, 709</i><br /><br /><b>21/10 (sábado)</b> - <a href="http://www.feiradolivrocaxias.com.br/">Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)</a><br />Bate-Papo: "Blogs de escritores-jornalistas", com Fabrício Carpinejar e Paulo Ribeiro<br />Café Cultural, na Praça Dante Aligheri, <b>17h</b>  <br /><br /><b>23/10 (segunda)</b> - <b>Entrega do Prêmio Literário Erico Verissimo</b>, pela Câmara Municipal de Porto Alegre (RS). <br />Sarau especial sobre poesia e crônicas de Fabrício Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. <br /><i>Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><br /><b>13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabrício Carpinejar</b><br />Bate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue <br /><b>Biblioteca Pública Olavo Bilac</b>, Feira do Livro de São Leopoldo, <b>18h</b>.<br /><br /><b>18/10 (quarta) - <a href="http://br.geocities.com/cenaspoeticas/programacao18.html">FESTIVAL CENAS POÉTICAS DE BRASÍLIA</a></b><br /><br /><b>14h - Leitura Dramática: Fazendo cena com Carpinejar</b><br />Concepção: Grupo Representação e crítica da poesia contemporânea<br />Coordenação: Prof. Dra. Sylvia Cyntrão<br />Direção: Julliany Mucury<br />Local: Auditório Dois Candangos <br /><br /><b>16h - Oficina com Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Poesia não é elogio: desaforando a Vida</i><br /><br /><b>19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)</b><br /><i>Rua Assis Brasil, 709</i><br /><br /><b>21/10 (sábado)</b> - <a href="http://www.feiradolivrocaxias.com.br/">Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)</a><br />Bate-Papo: "Blogs de escritores-jornalistas", com Fabrício Carpinejar e Paulo Ribeiro<br />Café Cultural, na Praça Dante Aligheri, <b>17h</b>  <br /><br /><b>23/10 (segunda)</b> - <b>Entrega do Prêmio Literário Erico Verissimo</b>, pela Câmara Municipal de Porto Alegre (RS). <br />Sarau especial sobre poesia e crônicas de Fabrício Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. <br /><i>Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39096204</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/12/2006 12:03:32 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ENROLAÇÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_178759.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thefineartcompany.co.uk/serigraph/schwimm.jpg"><br /><br /><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Acompanho suas poesias e admiro muito suas metáforas. Eu também escrevo, e depois que li teus poemas, mudei totalmente minha forma de escrever. Mas a questão hoje é sobre o consultório sentimental.<br /><br />Você sempre dá conselhos para mulheres. Agora dá um conselho pra um homem.<br /><br />Terminei meu relacionamento de um ano e dois meses com minha namorada. Tudo por causa das dúvidas dela em relação a mim, se queixando de não saber se de fato quer continuar namorando. <br /><br />Já que é assim, preferi cair a ficar em cima da corda bamba. Ela quer que eu esteja por perto, mas sem ficarmos juntos. É complicado porque gosto muito dela. Como vou olhá-la e não poder beijá-la? Como ficar ali, ao lado, servindo de amigo?<br /><br />Não dá cara... Tô arrasado. Não durmo faz uma semana. Já liguei pedindo pra voltar, mas ela rejeita a possibilidade. Diz que se eu quiser ir visitá-la tudo bem. Só visitar, nada mais! <br /><br />Eu me conformei, estou tentando esquecê-la.<br /><br />Será que o mais sensato é fazer isso ou tentar reconquistá-la custe o que custar?<br /><br />Me responde, cara, ajuda este fã dos teus poemas a achar uma solução."</i><br /><br />Olá, Anderson<br /><br />Vai cair de todas as formas: ficando no muro, pulando ou acenando para os carros. <br /><br />Eu alteraria a postura. É confortável que permaneça ao lado dela. Assim não some e, ao mesmo tempo, não encontra ninguém.Ela pretende manter o domínio e não se responsabilizar pelas ações futuras. Como ela já disse que não deseja namorar, está livre para outro relacionamento. Como ela disse que aceita só visita, já o colocou em igualdade de condições com os demais. Entendeu? Se arrumar um novo parceiro, dirá que foi honesta e que não fez trapaça. <br /><br />Sei que é complicado esquecê-la, mas é a única forma de não se esquecer. Não tente reconquistá-la custe o que custar. Costuma custar uma depressão e uma lista onerosa de calmantes. Deixa que ela descubra o quanto sua ausência dói, já que não descobriu o valor de sua presença. Afaste-se. Depende de sangue frio para recuperar o calor do corpo dela. <br /><br />Depois de um relacionamento, se não há concordância de ambas as partes pela separação, a amizade é inviável. Como diminuir a intimidade? Bem aquilo que você descreveu: "olhá-la e não poder beijá-la". Isso é tortura. Na vida profissional ou no amor, não há como diminuir o vencimento. <br /><br />Lembra da música de Milton Nascimento: "amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves"? Ele errou a letra. Após o amor, amiga é coisa para se guardar debaixo de sete palmos. <br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ENROLAÇÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_178759.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thefineartcompany.co.uk/serigraph/schwimm.jpg"><br /><br /><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Acompanho suas poesias e admiro muito suas metáforas. Eu também escrevo, e depois que li teus poemas, mudei totalmente minha forma de escrever. Mas a questão hoje é sobre o consultório sentimental.<br /><br />Você sempre dá conselhos para mulheres. Agora dá um conselho pra um homem.<br /><br />Terminei meu relacionamento de um ano e dois meses com minha namorada. Tudo por causa das dúvidas dela em relação a mim, se queixando de não saber se de fato quer continuar namorando. <br /><br />Já que é assim, preferi cair a ficar em cima da corda bamba. Ela quer que eu esteja por perto, mas sem ficarmos juntos. É complicado porque gosto muito dela. Como vou olhá-la e não poder beijá-la? Como ficar ali, ao lado, servindo de amigo?<br /><br />Não dá cara... Tô arrasado. Não durmo faz uma semana. Já liguei pedindo pra voltar, mas ela rejeita a possibilidade. Diz que se eu quiser ir visitá-la tudo bem. Só visitar, nada mais! <br /><br />Eu me conformei, estou tentando esquecê-la.<br /><br />Será que o mais sensato é fazer isso ou tentar reconquistá-la custe o que custar?<br /><br />Me responde, cara, ajuda este fã dos teus poemas a achar uma solução."</i><br /><br />Olá, Anderson<br /><br />Vai cair de todas as formas: ficando no muro, pulando ou acenando para os carros. <br /><br />Eu alteraria a postura. É confortável que permaneça ao lado dela. Assim não some e, ao mesmo tempo, não encontra ninguém.Ela pretende manter o domínio e não se responsabilizar pelas ações futuras. Como ela já disse que não deseja namorar, está livre para outro relacionamento. Como ela disse que aceita só visita, já o colocou em igualdade de condições com os demais. Entendeu? Se arrumar um novo parceiro, dirá que foi honesta e que não fez trapaça. <br /><br />Sei que é complicado esquecê-la, mas é a única forma de não se esquecer. Não tente reconquistá-la custe o que custar. Costuma custar uma depressão e uma lista onerosa de calmantes. Deixa que ela descubra o quanto sua ausência dói, já que não descobriu o valor de sua presença. Afaste-se. Depende de sangue frio para recuperar o calor do corpo dela. <br /><br />Depois de um relacionamento, se não há concordância de ambas as partes pela separação, a amizade é inviável. Como diminuir a intimidade? Bem aquilo que você descreveu: "olhá-la e não poder beijá-la". Isso é tortura. Na vida profissional ou no amor, não há como diminuir o vencimento. <br /><br />Lembra da música de Milton Nascimento: "amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves"? Ele errou a letra. Após o amor, amiga é coisa para se guardar debaixo de sete palmos. <br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ENROLAÇÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_178759.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thefineartcompany.co.uk/serigraph/schwimm.jpg"><br /><br /><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Acompanho suas poesias e admiro muito suas metáforas. Eu também escrevo, e depois que li teus poemas, mudei totalmente minha forma de escrever. Mas a questão hoje é sobre o consultório sentimental.<br /><br />Você sempre dá conselhos para mulheres. Agora dá um conselho pra um homem.<br /><br />Terminei meu relacionamento de um ano e dois meses com minha namorada. Tudo por causa das dúvidas dela em relação a mim, se queixando de não saber se de fato quer continuar namorando. <br /><br />Já que é assim, preferi cair a ficar em cima da corda bamba. Ela quer que eu esteja por perto, mas sem ficarmos juntos. É complicado porque gosto muito dela. Como vou olhá-la e não poder beijá-la? Como ficar ali, ao lado, servindo de amigo?<br /><br />Não dá cara... Tô arrasado. Não durmo faz uma semana. Já liguei pedindo pra voltar, mas ela rejeita a possibilidade. Diz que se eu quiser ir visitá-la tudo bem. Só visitar, nada mais! <br /><br />Eu me conformei, estou tentando esquecê-la.<br /><br />Será que o mais sensato é fazer isso ou tentar reconquistá-la custe o que custar?<br /><br />Me responde, cara, ajuda este fã dos teus poemas a achar uma solução."</i><br /><br />Olá, Anderson<br /><br />Vai cair de todas as formas: ficando no muro, pulando ou acenando para os carros. <br /><br />Eu alteraria a postura. É confortável que permaneça ao lado dela. Assim não some e, ao mesmo tempo, não encontra ninguém.Ela pretende manter o domínio e não se responsabilizar pelas ações futuras. Como ela já disse que não deseja namorar, está livre para outro relacionamento. Como ela disse que aceita só visita, já o colocou em igualdade de condições com os demais. Entendeu? Se arrumar um novo parceiro, dirá que foi honesta e que não fez trapaça. <br /><br />Sei que é complicado esquecê-la, mas é a única forma de não se esquecer. Não tente reconquistá-la custe o que custar. Costuma custar uma depressão e uma lista onerosa de calmantes. Deixa que ela descubra o quanto sua ausência dói, já que não descobriu o valor de sua presença. Afaste-se. Depende de sangue frio para recuperar o calor do corpo dela. <br /><br />Depois de um relacionamento, se não há concordância de ambas as partes pela separação, a amizade é inviável. Como diminuir a intimidade? Bem aquilo que você descreveu: "olhá-la e não poder beijá-la". Isso é tortura. Na vida profissional ou no amor, não há como diminuir o vencimento. <br /><br />Lembra da música de Milton Nascimento: "amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves"? Ele errou a letra. Após o amor, amiga é coisa para se guardar debaixo de sete palmos. <br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/11/2006 09:07:49 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ESCONDO O AMOR NA AMIZADE</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.allposters.com/images/NIM/MS659.jpg"><br /><br />Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. <br /><br />Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro.  Os dentes como lápis apontados pelo vento. <br /><br />Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. <br /><br />Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. <br /><br />Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor.<br /><br />Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. <br /><br />Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. <br /><br />Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. <br /><br />Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. <br /><br />Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? <br /><br />Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. <br /><br />A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. <br /><br />Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>ESCONDO O AMOR NA AMIZADE</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.allposters.com/images/NIM/MS659.jpg"><br /><br />Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. <br /><br />Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro.  Os dentes como lápis apontados pelo vento. <br /><br />Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. <br /><br />Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. <br /><br />Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor.<br /><br />Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. <br /><br />Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. <br /><br />Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. <br /><br />Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. <br /><br />Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? <br /><br />Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. <br /><br />A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. <br /><br />Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ESCONDO O AMOR NA AMIZADE</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.allposters.com/images/NIM/MS659.jpg"><br /><br />Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. <br /><br />Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro.  Os dentes como lápis apontados pelo vento. <br /><br />Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. <br /><br />Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. <br /><br />Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor.<br /><br />Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. <br /><br />Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. <br /><br />Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. <br /><br />Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. <br /><br />Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? <br /><br />Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. <br /><br />A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. <br /><br />Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39081473</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/8/2006 09:41:09 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CONTRA FAKES E FALSOS PROFETAS</b><br /><br />A partir de hoje, quem não tiver educação e elegância para entrar no blog, dar sua opinião e discordar perderá o comentário. Aceito debate, não agressão. Nenhum dos leitores merece ouvir grosseria. Não admito falsos nomes, sem identificação de e-mail. Se quer contestar os textos, use o próprio rosto. Isso pode ser um chat, nunca um purgatório de chatos. Peço desculpa aos bem-intencionados, que amam a literatura. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>CONTRA FAKES E FALSOS PROFETAS</b><br /><br />A partir de hoje, quem não tiver educação e elegância para entrar no blog, dar sua opinião e discordar perderá o comentário. Aceito debate, não agressão. Nenhum dos leitores merece ouvir grosseria. Não admito falsos nomes, sem identificação de e-mail. Se quer contestar os textos, use o próprio rosto. Isso pode ser um chat, nunca um purgatório de chatos. Peço desculpa aos bem-intencionados, que amam a literatura. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CONTRA FAKES E FALSOS PROFETAS</b><br /><br />A partir de hoje, quem não tiver educação e elegância para entrar no blog, dar sua opinião e discordar perderá o comentário. Aceito debate, não agressão. Nenhum dos leitores merece ouvir grosseria. Não admito falsos nomes, sem identificação de e-mail. Se quer contestar os textos, use o próprio rosto. Isso pode ser um chat, nunca um purgatório de chatos. Peço desculpa aos bem-intencionados, que amam a literatura. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
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<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/7/2006 08:29:07 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>AMOR NA GRAVIDEZ</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Gustav Klimt<br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_176239.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.zarez.hr/140/images/SZ%20Austrija%202%20-%20Klimt%20copy.jpg"align=right><i>"Fabrício,<br />Em primeiro lugar, gostaria de dizer que adoro seu blog, coloquei-o como favorito e acesso toda semana para alimentar minha alma.<br /><br />Resolvi te escrever para uma "consulta poética", pois estou em um momento da mais pura inspiração: estou grávida (12 semanas), segunda gestação (tenho uma filha linda, de 6 anos), mas desta vez está tudo tão diferente. Tenho me sentido extremamente triste (não era pra ser o contrário?), apesar de não ter parado com minhas atividades (nem profissionais, nem pessoais). Às vezes me pego cobrando atenção do meu marido, não o vejo "babando" por mim ou pela gravidez, não recebi nenhuma cartinha dele de alegria pelo novo fato (e olha que já estávamos 'tentando' há mais de um ano e meio), será que estou querendo demais? <br /><br />Ele recebeu a notícia com a maior alegria, e às vezes pra puxar assunto pergunta se eu já pensei em algum nome, mas é o máximo de manifestação! Não sei se fiz mal, homens têm a mania de termos de explicar tudo o que queremos (até o que nos parece óbvio) e foi isso que fiz: pedi a ele que se expressasse mais, que me escrevesse algo, mas foi tudo em vão.É claro que cada um tem um temperamento diferente, eu sou mais sensível, enquanto ele é mais prático, mas você não acha que a gestação era pra 'quebrar' todos os gélidos 'muros individuais'?"</i><br /><br />Olá, Cristina<br /><br />A gravidez aumenta a sensibilidade. A audição, o tato, o gosto. É uma TPM do bem. Fica-se mais generosa e afetiva. Mais inteira. A alegria e a tristeza aparecem com intensidade r